Lucas Mendes: Pinóquios, gepetos e calças em chamas

Atualizado em  27 de setembro, 2012 - 06:26 (Brasília) 09:26 GMT

Nas campanhas políticas americanas, temos a realidade democrata, a realidade republicana e a realidade dos fatos. Mas não é fácil distinguir as diferenças mesmo com ajuda dos checadores factuais. Hoje, há dezenas deles em diferentes organizações, e há os checadores que fiscalizam os checadores.

Um dos mais confiáveis é o PolitiFact que já ganhou o prêmio Pulitzer, o maior do jornalismo americano. Para estes checadores, as afirmações dos políticos estão divididas entre falsas e "calças em chamas", uma gíria comum entre entre crianças para designar mentirosos. Quando alguém conta uma mentira cabeluda, a expressão em inglês é "pants on fire". A calça do candidato republicano Mitt Romney pegou fogo quando a campanha dele lançou um comercial onde o presidente Barack Obama aparece dizendo que "se continuarmos falando sobre política, vamos perder a eleição".

A frase foi tirada de um comício de Obama e usada fora do contexto. Ele citava o adversário: "a campanha do senador McCain disse que, e aqui eu cito: Se continuarmos a falar sobre economia, vamos perder". No comercial de Romney, só ficava a última frase e PolitiFact botou fogo na calça dos republicanos.

A calça dos democratas pegou fogo quando lançaram um comercial alarmante sobre o plano de saúde proposto pelo candidato a vice de Romney, Paul Ryan. Nele, um homem parecido com o deputado aparece empurrando uma velhinha horrorizada numa cadeira de rodas para um abismo. Na realidade, o plano do deputado não vai abandonar os velhos, pelo menos não nos próximos dez anos.

Maratona

Paul Ryan, o político mais sarado de Washington, deu vexame na maratona. Em 1990, correu em Duluth, Minesota, e disse numa entrevista que terminou em menos de três horas. Menos de três horas depois, foi pinoquiado pelos checadores: terminou em quatro horas, um minuto e 25 segundos. Até Sarah Palin correu mais depressa que ele.

O plano de saúde americano e a previdência social fazem parte das mentiras de campanha desde 1952 e dão resultados. Na eleição de George W. Bush contra John Kerry, em 2004, os republicanos assombraram os velhos com a mentira de que os democratas iriam criar "comitês da morte" que decidiriam quais doentes seriam tratados e quais morreriam.

Fact Checker, do jornal Washington Post, é outro checador com notas altas. As mentiras dos políticos e comerciais de campanha recebem de um a quatro "Pinóquios", conforme o grau de mentira. Quando Romney disse que criou 100 mil empregos como governador de Massachusetts, ganhou quatro Pinóquios, mas o Fact Checker informa que Obama e Romney dividem igualmente os prêmios Pinóquio.

A universidade de Minnesota discorda. Um projeto que examinou 500 comícios, entrevistas e comerciais de campanhas durante um ano descobriu 98 mentirosos. Destes, 74 eram republicanos. Mas logo surgiram checadores dos checadores.

Medir a mentira é difícil. Uma palavra tem diferentes pesos em diferentes contextos, mas os campeões da checagem não são os americanos. A revista alemã Der Spiegel emprega uma equipe de 80 checadores. Nos Estados Unidos, a profissão tem prestígio e é bem paga. A revista The New Yorker é uma campeã de checagens, mas nenhuma publicação está acima de qualquer suspeita.

Stephen Glass comecou a carreira como checador e durante quatro anos fabricou historias e citações na revista New Republic. Jayson Blair mentiu para os leitores do New York Times durante mais de três anos. Fabricava cenários, roubava textos, falsificava informações, até ser flagrado e denunciado por uma jornalista. A investigação do Times concluiu que em 73 materias assinadas por ele, 36 tinham problemas.

Medir a verdade também é difícil, e o Fact Check do Washington Post confere o prêmio Gepeto aos comerciais que falam a verdade. Um deles foi para um comercial dos democratas que acusa o plano dos republicanos de aumentar os impostos da classe média em dois mil dólares e em zero por cento os impostos dos ricos.

O presidente teve Pinóquios no discurso da convenção democrata, mas Michelle Obama e Bill Clinton saíram com narizinhos, e o de Bill Clinton ajudou Obama a se distanciar de Romney. Os checadores entraram em pânico com os numeros de Clinton: "desde 1961 os presidentes democratas geraram 42 milhões de empregos, contra 24 milhões dos republicanos".

Eram números novos para os checadores que correram atrás, como repórteres, para confirmá-los ou desmenti-los, questão de credibilidade e prestígio. Clinton disse a verdade, concluíram.

Os checadores mudam as cabeças dos eleitores? Estes números ainda não saíram, mas quando saírem os checadores dos checadores vão contrariar e teremos uma nova classe, a dos checadores dos checadores dos checadores. Novos empregos.

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