Britânicos dizem estar perto de traduzir escrita mais antiga ainda não decifrada

Atualizado em  24 de outubro, 2012 - 06:54 (Brasília) 08:54 GMT
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A proto-Elamita foi usada na região sudoeste do Irã, dizem especialistas

A luta de estudiosos para desvendar segredos de cinco mil anos guardados na escrita mais antiga do mundo ainda não decifrada pode estar chegando ao fim.

Um projeto internacional de pesquisa, liderado pela Oxford University, na Inglaterra, já lança luz sobre uma sociedade perdida que viveu na Idade do Bronze, no Oriente Médio, cujos trabalhadores escravos viviam com rações mínimas de alimento, à beira de morrer de fome.

"Acho que estamos finalmente a ponto de romper a barreira", disse Jacob Dahl, acadêmico do Wolfson College da Oxford University e diretor do Ancient World Research Cluster.

A escrita dessa civilização é chamada de proto-Elamita e foi usada entre 3200 AC e 2900 AC em uma região que corresponde hoje ao sudoeste do Irã.

A arma secreta de Dahl para decifrar o código é um aparelho capaz de ver a escrita com uma clareza nunca conseguida antes.

A máquina tem forma de uma abóbada e emite flashes de luz sobre os misteriosos símbolos, entalhados sobre placas de barro pelos escribas dessa sociedade perdida.

Os flashes fazem parte de um sistema computadorizado que usa uma combinação de 76 tipos de luzes para captar cada pequena ranhura ou sulco na superfície dos objetos.

Assim, os cientistas conseguem produzir uma imagem virtual que pode ser vista de todos os ângulos possíveis.

A máquina foi transportada para o museu Louvre, em Paris, para que os artefatos fossem fotografados. O museu guarda a maior coleção de amostras desse tipo de escrita do mundo.

Esforço Coletivo

Dahl e sua equipe pretendem disponibilizar as imagens pela internet. O objetivo é que o público e outros acadêmicos ajudem na decodificação dos textos.

"Estamos enganados quando achamos que quebrar um código tem a ver com um gênio solitário que de repente entende o significado de uma palavra. O que funciona com mais frequência é o trabalho paciente de uma equipe e o compartilhamento de teorias. Colocar as imagens na internet deve acelerar esse processo."

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Jacob Dahl quer ajuda online de outros especialistas

Até agora, Dahl já decifrou 1.200 sinais mas disse que, depois de mais de dez anos de estudos, muito ainda se desconhece - mesmo palavras básicas como vaca ou gado.

"É um território desconhecido da história da humanidade", ele disse.

Escrita Adulterada

Mas por que essa escrita seria tão difícil de interpretar?

Dahl acha que sabe, em parte, a resposta. Ele descobriu que os textos originais parecem conter muitos erros - e isso dificulta o trabalho de encontrar padrões consistentes.

Segredos de 5 mil anos

Proto-Elamita é o nome dado a um sistema de escrita desenvolvido em uma área que hoje corresponde ao sudoeste do Irã

Foi adotado por volta de 3.200 AC e "emprestado" da Mesopotâmia vizinha

Os textos eram escritos da direita para a esquerda em placas úmidas de barro

Mais de mil placas contendo essa escrita sobreviveram o passar do tempo

O maior grupo desses artefatos foi colecionado por arqueólogos franceses e levado para o Louvre no século 19

Outras escritas da Antiguidade - como a escrita hieroglífica, dos egípcios, e a escrita dos sumérios - já foram decifradas

Ele diz acreditar que isso se deva à ausência de estudo e aprendizado naquela sociedade. Os estudiosos não encontraram evidências de listas de símbolos ou exercícios para que os escribas aprendessem a preservar a precisão da escrita.

Isso teve conseqüências fatais para o sistema de escrita, que foi sendo adulterado e depois desapareceu após apenas 200 anos.

"A falta de uma tradição de estudos significou que muitos erros foram cometidos e o sistema de escrita pode ter se tornado inútil", disse Dahl.

O que dificulta ainda mais a decodificação é o fato de que esse é um estilo de escrita diferente de qualquer outro daquele período.

Além disso, não foram encontrados textos bilíngues - recurso que auxiliaria muito o trabalho dos pesquisadores.

O especialista explicou que o proto-Elamita é um sistema de escrita, não uma língua falada. Portanto, os pesquisadores não têm meios de saber como as palavras soavam - ou seja, não há pistas fonéticas para ajudá-los em sua tarefa de decodificar os textos.

Dahl disse que esse sistema de escrita tem uma grande importância histórica porque este é o primeiro exemplo conhecido de uma sociedade adotando um sistema de escrita de outra sociedade vizinha - nesse caso, de um povo da Mesopotâmia.

Mas os proto-Elamitas acrescentaram uma série de símbolos próprios ao sistema de escrita que tomaram emprestado dos vizinhos.

Vida Dura

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Conjunto de 76 luzes é usado na leitura das placas escritas

As placas onde os escribas entalhavam os textos revelam detalhes íntimos sobre eles: algumas trazem as marcas das unhas dos autores.

Os pequenos símbolos e desenhos, gravados no barro de forma ordeira e cuidadosa, são claramente o produto de uma mente inteligente.

Embora ainda envoltos em mistério, os textos permitem que vislumbremos um pouco da realidade vivida por esse povo.

Segundo Dahl, os textos incluem um sistema de numeração, o que indica que muitas das informações contidas nas placas são de natureza contábil.

A sociedade era agrícola e bastante simples. No topo da hierarquia, havia uma camada de líderes, seguida por figuras poderosas de nível médio e, abaixo dessas, trabalhadores - que eram tratados como se fossem "gado com nomes".

Os líderes tinham nomes que refletiam seu status - o equivalente a alguém ser chamado de "Senhor Cem" para indicar o número de pessoas que estavam abaixo dele.

Dahl disse que é possível saber qual era a dieta dos trabalhadores: cevada, possivelmente triturada para formar um mingau e cerveja fraca. A quantidade de alimento que eles recebiam ficava pouco acima do limite da sobrevivência.

Aqueles de status mais elevado comiam iogurte, queijo e mel. Eles também criavam cabras, carneiros e bois. Para os membros das classes mais elevadas, "a expectativa de vida pode ter sido tão longa como a de hoje", disse Dahl.

O especialista da Oxford University nota que, embora os artefatos contenham ilustrações de animais e criaturas míticas, não trazem formas humanas. Nem mesmo um olho ou uma mão. Seria esse um indício de algum tabu religioso?

Dahl tem esperanças de que, com apoio suficiente, os segredos dessa última grande escrita, remanescente dos primórdios da nossa civilização, poderão ser finalmente desvendados.

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