Palanque BBC: Em Rio Branco, temor de deslizamentos força moradores a levar vida 'nômade'

Atualizado em  22 de outubro, 2012 - 11:54 (Brasília) 13:54 GMT
Isaque de Oliveira vê sinais da erosão se aproximarem de sua casa (Fabio Pontes - BBC Brasil)

Isaque de Oliveira vê sinais da erosão se aproximarem de sua casa (Fabio Pontes - BBC Brasil)

Na madrugada da última quinta-feira, 18 de outubro, uma forte chuva atingiu Rio Branco, a capital do Acre. Para os mais antigos era o prenúncio da chegada do ''inverno amazônico'', como é chamado o período de chuvas na região, que vai de outubro a fins de março. Para as famílias que moram no bairro Preventório é o início de mais uma temporada de tormento e angústia.

Os moradores convivem com o risco constante de deslizamento. As marcas da erosão estão visíveis por toda a parte. No caminho, ficaram pedaços daquilo que um dia foram casas e ruas. No local, não entra carro nem moto. O único acesso é por escadas de madeira em péssimas condições.

A reportagem visitou o Preventório na manhã daquela madrugada chuvosa. A terra estava encharcada e os degraus lisos como sabão molhado. A qualquer vacilo o tombo é inevitável. Da porta de casa, Isaque de Oliveira vê a erosão se aproximando.

Ele mora no bairro há cinco anos, já montou e desmontou a casa de madeira várias vezes. ''Quando cheguei aqui a casa era lá perto daquela árvore'', aponta ele para uma distância de 20 metros. No Preventório a maioria dos moradores é nômade dentro da própria comunidade; estão sempre em busca da ''terra firme'' e sempre tendo de montar e desmontar suas casas.

'Medo de tudo desabar'

Em noites de chuva, conta Oliveira, é impossível dormir. Há sempre o medo de tudo desabar. Ele mora com a esposa e quatro filhos. Isaque Oliveira está cadastrado no programa aluguel-social da Prefeitura. O poder municipal paga o aluguel de um imóvel temporário para as famílias deixarem a área de risco. ''Disseram que nos próximos dias vamos sair'', relata ele.

A mesma sorte não tem a dona de casa Socorro Miranda. Ela é outra ''nômade'', que já teve de montar sua moradia em diferentes locais. Para chegar em casa, só descendo as escadas corroídas. Ela não está cadastrada em nenhum programa habitacional da Prefeitura.

Único acessoa a moradias é por escadas de madeira em péssimo estado

''Eu quero muito sair daqui, ninguém está aqui porque quer, somos pobres e não temos condições de comprar uma casa num lugar melhor'', diz ela.

No bairro, a água chega por meio de canos que formam um zigue-zague morro abaixo e acima. Por onde se anda é possível ouvir algum vazamento. Com os maridos trabalhando durante o dia, as mulheres são as responsáveis por consertar os canos furados.

O caso mais grave é de José Ribamar. Os efeitos da erosão estão visíveis no imóvel pobre de madeira sem divisão dos cômodos. A casa está literalmente dividida. Um vão separa o que seria a cozinha da sala. Para chegar lá é preciso meter o pé no esgoto. Ele também está à espera de uma ajuda do Estado para sair do local.

Posição da Prefeitura

Os dois candidatos a prefeito de Rio Branco que disputam o segundo turno, Tião Bocalom (PSDB) e Marcus Alexandre (PT), já estiveram no bairro pedindo voto. Antônia Soraia diz que no primeiro turno votou no candidato do PT. Não sabe se votará no segundo turno; está sem esperanças nos homens públicos.

Desamparados pelo Estado, a esperança vem do céu; ''Só a mão de Deus para nos livrar da tragédia'', diz Antônia.

Soccoro Miranda já teve de montar e desmontar sua casa várias vezes

Soccoro Miranda já teve de montar e desmontar sua casa várias vezes (Fábio Pontes/BBC Brasil)

O secretário de Gestão Urbana, José Otávio, afirma que a Prefeitura tem mapeada toda a área de risco da cidade. O projeto de médio prazo é o Cidade do Povo, projeto do governo estadual. Serão 10 mil casas numa região afastada de enchentes e deslizamentos.

Desse total, três mil serão para as famílias que hoje moram nas áreas mais críticas. Em 2012, Rio Branco enfrentou a segunda maior enchente das últimas décadas, quando 120 mil pessoas foram atingidas, o que representa 35% da população total.

A reportagem consultou as propostas dos dois candidatos à prefeitura de Rio Branco para as áreas de risco. O petista Marcus Alexandre tem como projeto principal a parceria com o governo estadual para a Cidade do Povo, dando prioridade às famílias nestas regiões.

Já o tucano Tião Bocalom tem em seu plano de governo a distribuição de cinco mil lotes urbanizados que serão distribuídos de forma prioritária aos moradores das áreas de risco por deslizamento e enchente.

* Fabio Pontes, 26, é jornalista em Rio Branco e responsável pelo blog Clique Política na Floresta, onde faz uma análise da política no Acre.

O Palanque BBC é uma série da BBC Brasil com textos assinados por blogueiros de diferentes capitais brasileiras e que falam de problemas que afetam essas cidades.

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