Com Chávez doente, eleições regionais têm peso extra na Venezuela

Atualizado em  16 de dezembro, 2012 - 08:03 (Brasília) 10:03 GMT
Chavistas. Reuters

O estado de sáude de Chávez tem sido explorado pelos governistas, em busca de votos

A repentina deterioração da saúde do presidente Hugo Chávez imprimiu maior importância às eleições regionais da Venezuela, neste domingo. Embora as escolhas sejam locais, o resultado das urnas pode redefinir o panorama político do país, diante das incertezas quanto ao futuro da Presidência.

Em 14 anos de governo, este é o primeiro pleito em que Chávez estará ausente. Ainda assim, ele é o foco das atenções e o motor do voto, tanto entre simpatizantes como entre os opositores.

Empurrados pela comoção gerada pela gravidade do estado de saúde do presidente, o chavismo aposta em ampliar seu poder para além dos 16 dos 23 Estados que governa.

As diretrizes do partido PSVU (Partido Socialista Unido da Venezuela) aos militantes foi a de “assumir a tristeza” gerada pela recaída de Chávez “como motor para a luta e vitória”.

“Agora mais do que nunca estamos com Chávez e por ele será essa vitória”, discursou o candidato a governador Elias Jaua, ex-vice-presidente e um dos homens fortes do núcleo duro presidencial.

Jaua disputa a joia da coroa - o Estado de Miranda, o segundo mais populoso e rico do país – contra o ex-candidato presidencial Henrique Capriles, que foi derrotado por Chávez nas eleições presidenciais de outubro.

A disputa em Miranda será crucial. Para o governo, "recuperar" o Estado significará dar um duro golpe à oposição e desarticular uma de suas principais figuras eleitorais.

Para Capriles, uma vitória o consolidará como líder da coalizão opositora diante do instável cenário político que se aproxima.

Ele voltou a sonhar em ocupar a Presidência depois que Chávez surpreendeu a todos ao apontar o vice-presidente Nicolás Maduro como sucessor e candidato presidencial caso sua saúde o impeça de assumir o novo mandato, para o qual foi reeleito em outubro.

Capriles

Henrique Capriles. AFP

Capriles precisa assegurar a reeleição no Estado de Miranda para se manter líder da oposição

Para analistas, Capriles terá sua liderança questionada se perder o governo de Miranda.

“Este 16 de dezembro será uma espécie de (eleição) primária para a oposição. Capriles só será candidato (presidencial) se ganhar as eleições deste domingo”, afirmou à BBC Brasil o analista político Luis Vicente León, presidente da consultoria Datanalisis.

Caso contrário, em sua opinião, haverá uma nova disputa entre os opositores para eleger um novo candidato que possa enfrentar o chavismo.

Se Chávez ficar impossibilitado de dirigir o país, Maduro assumiria o cargo até 10 de janeiro, data marcada para a posse de Chávez. Depois disso, a Constituição determina que o presidente da Assembleia Nacional - atualmente Diosdado Cabello - assuma interinamente a Presidência e convoque eleições em 30 dias.

Outro Estado cuja disputa é acirrada é Zulia, maior colégio eleitoral do país. Ali disputa a reeleição o opositor Pablo Perez – um dos dirigentes que disputam com Capriles a liderança da coalizão opositora - e Francisco Arias Cárdenas, companheiro de Chávez no Exército.

‘Tensão’

A mais recente informação sobre a saúde de Chávez aponta “um processo progressivo, contínuo e paulatino de estabilização de sua condição geral”, segundo o ministro de Ciência e Tecnologia e genro do presidente, Jorge Arreaza, que acompanha o mandatário em Havana.

Arreaza, admitiu, no entanto, que a família viveu “momentos de tensão” nas 48 horas consecutivas à cirurgia.

A declaração coincide com a trágica mensagem enviada pelo vice-presidente Nicolás Maduro, que alertou à população na última quarta-feira para se preparar para dias "duros, complexos e difíceis”.

Uma fonte do governo disse à BBC Brasil que se chegou a pensar que Chávez não resistiria à cirurgia, a quarta operação em 18 meses para combater um câncer na zona pélvica.

Críticas

Nicolás Maduro. AP

Maduro foi apontado como sucessor de Chávez pelo próprio presidente

Neste pleito, coube ao vice-presidente Nicolás Maduro assumir a tarefa de impulsionar os candidatos chavistas.

Nos encerramentos de campanha, o tom era “presentear” Chávez com uma “contundente vitória”.

“O comandante (Chávez) pode se recuperar tranquilo, nosso povo é consciente e sabe da importância dessas eleições”, disse à BBC Brasil a terapeuta Ely Reyes, enquanto aguardava em uma fila gigantesca na praça Bolívar, em Caracas, para receber uma camiseta do presidente com a frase “Agora mais do que nunca com Chávez”.

A exploração do estado de saúde de Chávez nos palanques governistas, em vez da discussão de projetos políticos, tem sido criticada pela oposição.

“Isso é outro assunto, porque ele (Chávez) não participa dessa contenda eleitoral”, reclamou Capriles, durante um ato de campanha na quarta-feira.

A oposição busca manter os sete Estados que governa, os mais ricos e populosos. Ao mesmo tempo terá de enfrentar o fantasma da abstenção, consequência do desânimo de seus eleitores que há pouco mais de dois meses foram às urnas e amargaram outra derrota.

Pouco mais de 17 milhões de venezuelanos estão convocados à eleger os governadores dos 23 Estados do país e os deputados dos Conselhos Legislativos Regionais. O voto na Venezuela é facultativo.

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