Lucas Mendes: Cabeças em chamas

Armas! Armas! Armas! Desde o massacre em Sandy Hook, o controle de armas entrou no debate americano, mas o que estava na cabeça de Adam Lanza quando deu quatro tiros na cabeça da mãe na cama e saiu para sua chacina na escola primária?

Há 300 milhões de armas nas mãos dos americanos. Só no 23 de novembro, o das liquidações do "Black Friday", três semanas antes do massacre, foram vendidas 154.873 armas. Um recorde que quebrou os do ano passado e atrasado.

Talvez seja possível controlar venda, compra e porte de certas armas e munição, mas é impossível uma lei retroativa para confiscar o que está nas ruas. Há dezenas de propostas, do sensato ao estapafúrdio, algumas podem vir a ser adotadas, mas vão acontecer outros massacres.

Esta praga americana jamais será reduzida a proporções inglesas, japonesas e de outros países civilizados.

Os números dos homicídios nos Estados Unidos são complicados. No sul, há o dobro de crimes do que no norte. Na Louisiana, o índice de homicídios é parecido com o do Brasil, 18 por 100 mil habitantes. Na Nova Inglaterra (região no nordeste que junta 6 Estados), onde houve o massacre, os números são finlandeses, perto de 3 por 100 mil habitantes.

Além do rígido controle de armas em quase todos os países avançados, há uma grande diferença entre os Estados Unidos e os outros ricos: cuidados com a saúde mental.

Em 1963, o presidente John F. Kennedy assinou o Mental Health Act, que, na prática, esvaziou os hospícios e outras instituições que cuidavam de doentes mentais. Os Estados não assumiram a responsabilidade pelos doentes como estava previsto e as seguradoras assumiram despesas mínimas.

Nadine Kaslow, presidente eleita da Associação de Psicólogos Americanos, tem passado os dias na televisão e rádios informando que "(síndrome de) Asperger e autismo não causam violência. Só um número reduzido de doenças mentais, em geral combinadas com algum remédio, podem provocar reações agressivas".

Dezenas de depoimentos de parentes e amigos de autistas contrariam a presidente dos psicólogos. Um deles, "Eu Sou a Mãe de Adam Lanza", já foi visto por mais de um milhão de pessoas na internet.

Lisa Long tem um filho de treze anos. "Ele é adorável, inteligente, imprevisível. Contrariado, se enfurece. Na última crise, pegou uma faca e ameaçou me matar e se suicidar. Os irmãos já sabem o que fazer nestas situações. Correm e se trancam no carro."

O filho foi contido por três policiais e um médico, mas por causa da idade foi solto logo e a mãe não sabe o que fazer. Não há como interná-lo num hospital público, ela não tem dinheiro para clínicas particulares, que também não garantem sucesso nem dão prazo de tratamento. Mais cedo ou mais tarde, a pedido da própria mãe, o destino do filho será a prisão, onde já estão milhares de outros doentes mentais.

Ninguém sabe o que disparou a reação de Adam Lanza, mas a mãe sabia que ele se enfurecia. Quando decidiu tirá-lo da escola porque (ele) se sentia marginalizado e solitário, contratou um tutor/babá para ajudá-la na educação do filho, mas preveniu: "Jamais fique de costas para ele, nem quando for ao banheiro".

No pequeno círculo de amizades, ela tinha reputação de generosa, cordial e inteligente, mas até agora não está claro porque se interessou por armas e ensinou os filhos a atirar.

Com as propostas de controle de armas, logo virão as de mais exames e tratamentos de problemas mentais em crianças e adolescentes, mais fáceis de passarem pelos políticos. As verbas serão difíceis e insuficientes, mas, pela reforma de saúde do presidente Barack Obama, as doenças mentais terão paridade com as físicas e serão cobertas pelas seguradoras. A lei entra em vigor em 2014.

O universo dos problemas mentais é infinito, como podemos ver nas estantes das livrarias, e não apenas às dedicadas a livros científicos.

Neste momento, há três livros para leigos que ilustram a complexidade e os mistérios do cérebro. O neurologista Oliver Sacks já foi comparado a Freud. Seus trabalhos geraram o premiado filme Tempo de Despertar (Awakenings).

Agora, muitos livros depois, no seu recém-lançado Alucinações, ele viaja pelo próprio cérebro sob efeito de LSD, mescalina, outras drogas, e pelos cérebros de dezenas jovens e, em especial, velhos. Alucinações que chegam sem aviso e tomam rumos imprevisíveis. Violência é sempre uma possibilidade.

Susannah Cahalan, de 24 anos, repórter do jornal New York Post, conta a própria miserável e turbulenta viagem no seu livro My Brain on Fire. De um mês para outro, partes do corpo ficavam dormentes, tinha paranoias, comportamento bizarro, indolência. Nas reuniões do jornal, o corpo estava lá, a cabeça, longe.

Uma noite, o namorado acordou aterrorizado com os urros guturais de Susannah, com espuma na boca, braço direito enrijecido como um Frankenstein. Um mês depois e US$ 1 milhão em exames que não mostraram nenhum problema, um médico pediu que ela desenhasse um relógio circular, com os números. No dela, todos estavam no lado direito.

Ele diagnosticou uma doença autoimune que ataca um lado do cérebro, rara, e quase todas as vítimas, inexplicavelmente, são mulheres. Susannah está de volta entre nós, mas durante muito tempo não soube onde estava.

Andrew Salomon, jornalista, autor de cinco livros, entre eles o premiado The Noonday Demon: An Atlas of Depression, em que explora suas próprias e outras depressões, publicou, em outubro, Far From the Tree, sobre filhos que nascem ou crescem muito diferentes dos pais.

São gays, anões, surdos-mudos, gênios, assassinos e marginalizados, como Adam Lanza, de Sandy Point. Andrew se tornou amigo dos pais de Dylan Klenbold que, com o colega Eric Harris, fuzilou doze estudantes e um professor em Columbine, no Colorado em 1999.

Ambos se sentiam marginalizados, não tinham amigos, mas nenhum dos dois tinha diagnóstico de problema mental.

Neste cenário político radical, até o fim dos debates das armas e da saúde mental, os cemitérios americanos estarão cheios de inocentes.

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