Em dia de posse, Obama destoa de 4 anos atrás

Atualizado em  21 de janeiro, 2013 - 06:39 (Brasília) 08:39 GMT
Novo retrato oficial de Obama na Casa Branca (AFP/Getty)

Obama parece mais à vontade em novo retrato oficial

As baixas temperaturas que recaíram sobre Washington neste fim de semana fizeram a cidade se parecer com aquela de exatos quatro anos atrás.

Mas à parte o capricho do tempo, que interrompeu um inverno até agora ameno, há poucas semelhanças entre a primeira ocasião em que Barack Obama foi juramentado como presidente dos Estados Unidos, em 2009, e esta.

Não há déjà-vu comparável às emoções da primeira vez.

Nenhum comentarista está esperando a mesma multidão de quase 2 milhões de pessoas que se espalhou pela grama do principal boulevard da cidade, o Mall, em 2009, abarrotando-se do prédio do Capitólio até o monumento ao presidente Abraham Lincoln.

Nem as celebrações e bailes para festejar a posse são tão numerosos ou disputados como antes.

A rigor, a própria celebração pública é tradição e formalidade. Obama foi empossado oficialmente em privado no domingo, no dia 20 de janeiro conforme manda a Constituição.

Mas a maior diferença está no Obama de agora, comparado com o de quatro anos atrás.

O novo retrato oficial do presidente, divulgado pela Casa Branca, comprova que às vezes uma imagem vale mais que mil palavras: o cabelo do fotografado passou de preto para grisalho; as feições parecem ter corrido mais depressa que o tempo cronológico.

Porém o olhar sério da primeira fotografia, tirada em uma locação neutra com a bandeira americana por trás, deu lugar a um sorriso franco e aberto, a um posicionamento espontâneo bem ali no despacho que o presidente hoje conhece bem.

É como se sugerisse que Obama, quatro anos depois, se sente em casa – em sentido literal e simbólico.

Transição

O "novo Obama" não esperou até o segundo mandato para surgir: despontou logo em seguida à sua reeleição, no dia 6 de novembro do ano passado.

Diante de cerca de 15 mil simpatizantes reunidos em um centro de convenções em Chicago – onde quatro anos antes 200 mil pessoas se apinharam a céu aberto para comemorar sua eleição –, ele indicou ter compreendido o alcance da "segunda chance" recebida do eleitorado.

No primeiro mandato, Obama olhou para dentro e para fora. Preocupou-se ao mesmo tempo com a frágil economia americana e com refundar a relação dos EUA com o mundo, arranhada pelas guerras simultâneas da era George W. Bush.

No segundo, o foco será inequivocamente doméstico, apostam os analistas, conforme o recado das urnas.

Estas ecoaram reivindicações por uma reforma migratória abrangente, a preocupação por salvaguardar os mais vulneráveis dos ataques da ortodoxia fiscal, e o desejo de manter os avanços conquistados por grupos como a comunidade LGBT.

A coincidência é que os EUA comemoram no dia 21 de janeiro a figura do ativista negro e símbolo maior da luta pelos direitos civis no país, Martin Luther King.

A ironia seria se Obama houvesse fracassado em obter um novo aval do eleitorado. Nesta segunda-feira, o primeiro presidente negro da história americana deixaria Washington derrotado.

A história foi diferente, mas nem por isso significou uma carta branca do eleitor.

Em um artigo para o jornal Washington Post, a intelectual e ativista negra Marita Golden defendeu que mesmo esse setor da população – onde Obama teve 95% dos votos – deve abandonar a leniência com o presidente e cobrá-lo mais no segundo mandato.

"Duas vezes votei por ele, não para que ele fosse um símbolo, mas para que fosse meu presidente", escreveu a ativista. Agora, disse, é hora de Obama deixar de ser apenas presidente para se tornar "um verdadeiro líder".

Novo estilo e conteúdo

Das eleições para cá, Obama parece ter compreendido o recado. Ele surfou na onda de sua própria relegitimização durante negociações difíceis com o Congresso em questões fiscais, no fim do ano passado. O toma lá dá cá terminou por permitir a elevação dos impostos para os americanos mais ricos, preservando os programas sociais mais caros aos democratas.

Na semana passada, ele apresentou um conjunto de leis de restrição às armas que visa a tirar vantagem de um momento único na história americana, quando a maioria da opinião pública favorece um controle sobre armamentos pesados, na esteira do massacre de Newtown, Connecticut, em dezembro.

Agora se especula que o próximo empurrão do governo Obama venha no campo da reforma migratória. O presidente poderia usar o seu discurso sobre o estado da União, no dia 12 de fevereiro, para oferecer mais detalhes do seu plano.

Espera-se que ele coloque o peso de seu cargo também a serviço da consolidação da recuperação econômica e de energias mais limpas para combater a mudança climática.

O "novo Obama" tem mais pressa, porque o eleitor tem menos paciência. Ele aprendeu da maneira mais custosa.

Em 2010 utilizou grande parte do seu imenso capital político para empreender uma histórica reformulação da saúde. A legislação passou sem receber sequer um voto da oposição no Congresso. Nas eleições seguintes, os democratas perderam o controle da Câmara baixa.

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