Sem saber, agricultor ajudou no resgate do irmão em Santa Maria

Atualizado em  29 de janeiro, 2013 - 12:26 (Brasília) 14:26 GMT
Jovani Rosso (Foto: Caio Quero/BBC Brasil)

Jovani agora torce pela recuperação do irmão, que teve queimaduras em 70% do corpo

O agricultor Jovani Rosso, de 26 anos, estava próximo ao palco quando foram acesos os sinalizadores que acabariam por incendiar a boate Kiss, no centro de Santa Maria, Rio Grande do Sul, matando pelo menos 235 pessoas na madrugada do último domingo.

Assim que o fogo começou, iniciou-se um grande tumulto de pessoas tentando sair da casa noturna. Rosso estava entre aqueles que conseguiram escapar da boate sem maiores ferimentos. Mas ele logo perceberia que o desastre tinha proporções maiores.

"Eu vi que tinha um monte de gente lá dentro, e chegou um momento em que o pessoal parou de sair", disse Rosso à BBC Brasil.

Morador da cidade de Manoel Viana, a cerca de 180 km de Santa Maria, ele havia ido com um grupo de sete amigos para a boate. Entre eles estava seu irmão Delvani Rosso, de 20 anos.

Quando percebeu que muitos não estavam conseguindo deixar a casa noturna em chamas, Rosso, assim como outros frequentadores que estavam lá no momento, decidiu entrar para ajudar. Colocou a camisa no rosto para tentar se proteger da espessa fumaça produzida pela combustão do isolamento acústico da boate e passou a retirar o máximo de pessoas que podia.

"Havia muita fumaça. Eu entrava até o meu limite, uns 30, 40 metros no máximo e ia puxando as pessoas para fora. Elas estava todas deitadas, nenhuma se mexia, algumas estavam pretas, queimadas", disse.

"Eu só pensava em salvar as pessoas, o máximo que eu pudesse, nem me importei muito com o resto."

"Eu só pensava em salvar as pessoas, o máximo que eu pudesse, nem me importei muito com o resto."

Jovani Rosso

A fumaça impedia que ele conseguisse ver quem ele estava resgatando.

Pouco depois, ele teria uma surpresa: em vídeos gravados pelos populares e publicados na internet, viu que seu irmão e alguns amigos estavam entre as pessoas puxadas da boate por ele e outras pessoas.

"Os bombeiros ainda não estavam entrando. Eu puxava as pessoas e levava até eles do lado de fora", disse Rosso, que pegou uma lanterna emprestada de policiais para conseguir enxergar melhor o interior da casa. No total, Jovani perdeu quatro amigos no incêndio.

Interior

A família de Rosso agora enfrenta agora um novo drama. Delvani Rosso está com queimaduras em cerca de 70% do corpo e problemas pulmonares.

Internado no Centro de Tratamento Intensivo do Hospital de Caridade, em Santa Maria, até a manhã desta terça-feira ele aguardava transferência para Porto Alegre, o que só acontecerá quando seu quadro se estabilizar.

"A situação dele é muito crítica. Ele está sendo medicado para ver se reage para podermos transportá-lo para Porto Alegre", diz José Luiz Rosso, pai de Jovani e Delvani.

Enquanto a polícia investiga as circunstâncias do incêndio, José Luiz critica o fato de o local estar funcionando com um alvará vencido e pede maior segurança para casas do tipo.

"Entram os jovens para se divertir, e acaba em uma tragédia com 234 corpos. Eu peço que os prefeitos façam o dever deles, tem que haver regras para boates. Enquanto não estiver em dia não pode funcionar."

Claramente abalado, Jovani Rosso diz não ter parado para pensar em como será sua vida após o desastre. "Mas vai ser diferente, depois de todos os amigos que perdi e com o risco de perder meu irmão."

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