Verticalização 'cerca' casas em bairros de São Paulo

Atualizado em  20 de fevereiro, 2013 - 15:54 (Brasília) 18:54 GMT
  • Maria Aparecida Rosa Porta, Vila Madalena (Foto: Flavia Nogueira)
    Maria Aparecida Rosa Porta, auxiliar de enfermagem aposentada, mora nesta casa na Vila Madalena desde que se casou em 1977. A casa, que tem pelo menos 70 anos, era de seu marido, Hélio Guido Porta, morto há nove anos. Há cerca de dois anos, um prédio foi inaugurado logo ao lado e, desde então, sua casa tem sofrido vários danos.
  • Maria Aparecida Rosa Porta, Vila Madalena (Foto: Flavia Nogueira)
    Quando as estruturas do prédio estavam sendo construídas, a casa de Maria Aparecida ficou cheia de rachaduras, goteiras e vazamentos. A aposentada chegou a receber propostas para vender seu imóvel (que é parte de uma herança), mas o valor oferecido foi muito baixo. Agora, ela está na Justiça tentando ser ressarcida pelos prejuízos causados pela construção.
  • Paulo Goya, Bela Vista (Foto: Flavia Nogueira)
    O ator Paulo Goya mora no Casarão do Belvedere, uma construção de 1927 que abrigou quatro gerações de sua família. O imóvel é tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico desde 2002. Antes do tombamento, ainda na década 70, um prédio de 12 andares foi construído logo atrás do casarão. Agora, ao lado está um estacionamento de uma empresa de TV a cabo e já foram colocados à venda os apartamentos de um prédio de 20 andares.
  • Paulo Goya, Bela Vista (Foto: Flavia Nogueira)
    Goya abriu o Espaço Cultural Dona Julieta Sohn, que até 2012 abrigava apresentações de música e teatro. Mas, devido à falta de verbas, atualmente as atividades estão paradas. Assim como as obras de restauração. Por todas as dificuldades que enfrenta agora, ele diz entender quando um dono de patrimônio histórico concorda em demolir uma casa antiga e admite que ele mesmo estaria em uma situação financeira melhor se tivesse optado pela demolição, vendendo o terreno para alguma construtora.
  • A planta original do Casarão do Belvedere, Bela Vista (Foto: Flavia Nogueira)
    Cada vez mais cercado e com dificuldades financeiras maiores, Goya afirma que teme entregar o casarão para a iniciativa privada, devido à possibilidade de demolição. Ele já recebeu ofertas, mas com um valor muito abaixo do mercado. 'Mas, se pagar o valor real, no dia seguinte pego minhas coisas e saio daqui', afirma o ator, desanimado.
  • João Mariano do Nascimento, Baixo Augusta (Foto: Flavia Nogueira)
    O engenheiro aposentado João Mariano do Nascimento, 81 anos, mora na região do Baixo Augusta há 65 anos e acompanhou passo a passo as mudanças na área. Ele vive nesta casa ao lado de um shopping há 22 anos e já recebeu várias ofertas para vender o imóvel. Mas foram 'presentes de grego': valor abaixo do mercado ou o oferecimento de espaços comerciais, vagas em garagens.
  • Residência de João Mariano do Nascimento, Baixo Augusta (Foto: Flavia Nogueira)
    Apesar de estar cada vez mais cercado de prédios e ter notado que sua casa ficou mais fria, ele não quer mudar. 'Esta casa tem muita história, a escritura que eu tenho é de 1929, construída pelo Ramos de Azevedo (arquiteto). A gente aqui ainda se sente muito bem.'
  • Luiza Gianetti, Pinheiros (Foto: Flavia Nogueira)
    Nem todos estão insatisfeitos. A professora aposentada Luiza Gianetti, de 73 anos, mora na mesma casa em Pinheiros há cerca de 65 anos, quando o sobrado foi construído por seu pai. Há cerca de um ano, um grande prédio comercial foi inaugurado logo ao lado, que, segundo ela, valorizou seu imóvel.
  • Luiza Gianetti, Pinheiros (Foto: Flavia Nogueira)
    A professora afirma que, para a construção do prédio, foram demolidas casas antigas que abrigavam um cortiço. 'Tive muitos problemas de barulho, sujeira, brigas.' Mas agora a área ficou mais segura e valorizada. 'Eu tinha até intenção de vender minha casa, mas acabei ficando. Esta é uma área muito boa e estou acostumada aqui.'
  • Mário de Souza Queiroz Camargo, Pinheiros (Foto: Flavia Nogueira)
    O empresário Mário de Souza Queiroz Camargo, 39 anos, mora nesta casa em uma vila de Pinheiros desde que nasceu, uma construção que tem cerca de 50 anos. Logo ao lado da vila, um grande edifício residencial está sendo construído, algo que o empresário aprova. 'Como ele (o prédio) é de alto padrão, me isolou do Largo de Pinheiros. Antigamente, a parte bonita da rua era só até aqui. Agora é um imóvel mais bonito para me isolar do largo, que é horrível.'
  • Mário de Souza Queiroz Camargo, Pinheiros (Foto: Flavia Nogueira)
    Camargo afirma que não perdeu sol ou ventilação, mas teve alguns problemas de rachaduras e portas desniveladas devido à obra. Outro problema que ele notou é que provavelmente não serão plantadas árvores na calçada do novo prédio. No entanto, ele afirma que, com a construção e, antes disso, com a inauguração do metrô nas proximidades, a área se valorizou.
  • Sandra Carneiro Correia, Brooklyn Novo (Foto: Flavia Nogueira)
    Sandra Carneiro Correia mora há 26 anos no Brooklyn Novo, em uma casa que existe há mais de 60 anos. Desde que se mudou para o bairro, notou o começo da 'invasão dos prédios'. A família sofreu com o barulho das obras durante a noite, portas desniveladas, partes do chão da casa cedendo. Mas, com a casa cada vez mais cercada, Sandra sofre com a falta de sol no quintal, a falta de privacidade e com os objetos que caem dos prédios em sua casa. 'Até preservativo.'
  • Sandra Carneiro Correia, Brooklyn Novo (Foto: Flavia Nogueira)
    Ela já recebeu propostas para vender seu sobrado de três quartos. 'Ele (o corretor) me daria R$ 170 mil e um apartamento de um dormitório. Falei: desculpe, quando você tiver uma proposta melhor, você retorna. Não estou vendendo meu imóvel. Às vezes você se sente obrigado a vender pela pressão', afirma.
  • Vanderli Coelho, Brooklyn Novo (Foto: Flavia Nogueira)
    Vanderli Coelho, professora aposentada, se casou e foi morar no Brooklyn Novo há 35 anos. A construção de um número cada vez maior de prédios a deixa 'amedrontada'. 'Não sei se a infraestrutura tem tudo preparado para esta quantidade de prédios'. Quando o prédio ao lado de sua casa foi construído, ela sofreu com os tremores em sua casa pela obra, com o barulho e rachaduras. 'Era infernal, foi a pior época da minha vida aqui'.
  • Vanderli Coelho, Brooklyn Novo (Foto: Flavia Nogueira)
    Mesmo cercada, ela não pensa em morar em apartamento ou deixar o bairro. No entanto, Vanderli lamenta a perda da convivência com os vizinhos, que se mudaram da área. 'Todo mundo foi vendendo as casas, saindo. Antes era assim: um vizinho chamava de madrugada, a gente saía correndo para ajudar. E agora não tem mesmo. As pessoas foram todas para apartamentos.'
  • Ronald Kenneth Scott, Brooklyn Novo (Foto: Flavia Nogueira)
    Ronald Kenneth Scott, empresário do setor de leilões, mora neste sobrado em uma rua estreita do Brooklyn novo desde 1985. Há dez anos, foi construído o prédio ao lado, depois surgiu outro e, em frente, mais um. O empresário conta que, desde então, notou a diminuição da luz do sol em sua casa, que fica bem fria durante o inverno.
  • Ronald Kenneth Scott, Brooklyn Novo (Foto: Flavia Nogueira)
    Para ele, o principal problema com tantos prédios e novos moradores é o trânsito no bairro. 'Cinco e meia, seis horas da tarde, você não anda mais. Para subir um quarteirão, para pegar a avenida Santo Amaro, é uma luta!' Ele também não consegue mais estacionar na rua onde mora, depois da inauguração dos prédios. 'Sou multado em frente de casa.'

Ilhados

Sandra Carneiro Correia (Foto: Flavia Nogueira)

Sandra recebeu oferta de um apartamento de um quarto e mais R$ 170 mil em troca de seu sobrado

O que antes era um quintal ensolarado, agora passa a maior parte do dia na sombra e ainda é alvo de objetos e lixo que caem de sacadas de apartamentos.

Esta é a realidade vivida por muitos moradores de casas em bairros de São Paulo, que, com a tendência de verticalização da cidade, estão cada vez mais cercados de prédios por todos os lados.

Entre 2001 e 2010 foram lançados 3.420 edifícios residenciais na capital paulista - em 2010 foram 268, 32 deles na zona oeste, onde ficam bairros como Pinheiros, Itaim Bibi e Jardim Paulista.

Para os vizinhos que moram em casas, a saída é assimilar o impacto e aprender a viver com o espigão ao lado.

Ronald Kenneth Scott, empresário do setor de leilões e morador do bairro do Brooklyn Novo, que fica na área da subprefeitura de Pinheiros, recorda que há até cerca de dez anos havia um terreno "muito bonito, com árvores e tudo o mais", bem ao lado do sobrado onde mora desde 1985.

No local hoje fica um dos vários prédios em volta de sua casa, que trouxeram um problema crônico de umidade em uma de suas paredes e restringiram, não só a visita diária da luz do sol à residência, como também as vagas para estacionar na rua.

"Faz muito tempo que não paro na rua. Quando vem alguma filha nossa aqui, temos que apertar nosso carro para poder entrar. Sou multado em frente de casa (se parar na rua)."

Sandra Carneiro Correia se mudou há 26 anos para a mesma rua. "Nós só tínhamos casas na região. Aí começaram os prédios e eles vieram em uma velocidade muito grande", afirma.

Plano Diretor

Para o professor Carlos Augusto Mattei Faggin, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o Plano Diretor de São Paulo, que regula a disponibilidade de áreas para verticalização, "é muito gentil com a especulação imobiliária".

"A grosso modo, (entre) 60% e 65% da área da cidade de São Paulo está disponível para este fim, são as ZMs, que são Zonas Mistas, onde você pode ter empreendimentos comerciais, residenciais, todos eles muito favorecidos pela verticalização".

O professor afirma que, graças a este fato, "a resistência a esta tendência não tem amparo legal".

"Há planejamento, mas ele é favorável à especulação imobiliária, no sentido de que há um entendimento – que eu acho que já está muito ultrapassado – de que a indústria da construção civil é uma das motrizes da economia nacional", disse.

Contatada pela BBC Brasil, a Prefeitura de São Paulo destacou que o Plano Diretor da cidade deve ser submetido a uma revisão neste ano.

Louças fora do armário

Maria Aparecida Rosa Porta (Foto: Flavia Nogueira)

Maria Aparecida conta que sua casa ficou com vazamentos e goteiras

A auxiliar de enfermagem aposentada Maria Aparecida Rosa Porta acabou indo à Justiça por causa da construção de um prédio, há cerca de dois anos, no terreno vizinho à casa em que ela mora desde 1977 e que está na família de seu marido há cerca de 70 anos.

"A minha casa, por dentro, está toda abalada, com rachaduras", afirma. "Estamos na Justiça (para conseguir um ressarcimento dos prejuízos)."

"Quando eles usavam aquele bate-estacas (durante a construção), aquele barulho, aquele impacto vinha todo (para a casa). Até minhas louças, tudo, vinha para fora do armário."

A casa faz parte de uma herança e, caso seja vendida, o dinheiro precisará ser dividido entre os herdeiros.

Maria Aparecida conta que já recebeu ofertas, mas o valor oferecido sempre foi muito baixo.

Região central

Outras regiões que tiveram grande número de lançamentos residenciais verticais foram a da subprefeitura da Vila Mariana, com 25 lançamentos em 2010 e um total sempre acima de 30 entre 1993 e 2008.

As subprefeituras do Campo Limpo e Lapa também tiveram, cada uma, 22 lançamentos apenas em 2010. No caso da Lapa, nos últimos anos o número de lançamentos sempre ficou acima de 20 por ano.

A tendência de verticalização nessas áreas mais centrais se explica pela demanda. As pessoas querem morar nelas "porque eles têm uma infraestrutura muito boa de transporte, de comunicações, água e esgoto, energia elétrica", diz o professor Carlos Augusto Faggin.

"Ninguém quer construir no extremo da zona leste ou no extremo da zona sul. Lá, a infraestrutura é muito pequena e a possibilidade de venda é menor ainda, porque o poder aquisitivo destas populações ainda é baixo, apesar do esforço de transferir renda", afirma.

Patrimônio

Carlos Augusto Mattei Faggin, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Foto: Flavia Nogueira)

Para Faggin, planejamento existe, mas é 'gentil' com a especulação

Na região da subprefeitura da Sé, onde estão bairros como Bela Vista, Consolação e Liberdade, entre outros, apenas em 2010 foram 18 lançamentos residenciais verticais.

O engenheiro aposentado João Mariano do Nascimento mora na região da Consolação há 65 anos e testemunhou essa tendência.

De um lado de sua casa, onde mora desde a década de 90, existe um prédio residencial, do outro, um shopping, atrás, mais três torres residenciais em um condomínio construído nos últimos cinco anos e mais um prédio comercial.

Ele já recebeu várias ofertas para vender sua casa, mas nenhuma satisfatória. Por isso, pretende continuar onde está, apesar de estar cada vez mais cercado.

"Nós estamos muito bem aqui. Imagine você que tenho uma frente de dez metros, posso colocar três carros aqui, deixar uma passagem... O que seria disso em um apartamento?", questiona.

'Nem vítima, nem herói'

O rápido avanço vertical em nome da demanda por apartamentos expõe também a vulnerabilidade dos imóveis que fazem - ou poderiam fazer - parte da própria história da cidade.

Para alguns, o mecanismo do tombamento é insuficiente para proteger construções que fazem parte da memória da cidade.

O ator Paulo Goya, que herdou um casarão construído em 1927 e tombado como patrimônio histórico em 2002, no bairro da Bela Vista, avalia que um plano de uso e ocupação do solo da cidade facilitaria na conservação não apenas dos imóveis isoladamente, mas também dos arredores.

Na década de 70, um prédio de 12 andares foi construído nos fundos do casarão. Mais recentemente, logo ao lado, foi aberto um estacionamento de uma empresa de TV a cabo.

Ao lado do estacionamento, já estão sendo vendidos os apartamentos de um outro prédio, de 20 andares, cuja construção deve começar em breve.

Sem atividades culturais agendadas para o casarão em 2013 devido à falta de dinheiro, o ator afirma que é preciso "repensar a cidade".

"No meu caso específico, não sou nem vítima nem herói de nada. Atualmente só me sinto profundamente humilhado. Uma trabalheira para conseguir manter tudo isso e não consegui fazer nada. É muito chato."

O professor Faggin, que também é conselheiro do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), diz que as ações de tombamento "acabam sendo muito pontuais".

Para o professor, 2013 pode ser um ano de mudança não apenas para a questão do patrimônio, mas também para o problema da verticalização, já que o Plano Diretor da cidade está para ser revisto.

"É o momento em que a sociedade pode intervir nisso."

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