Avanço do consumo evidencia atrasos em educação financeira

Atualizado em  18 de fevereiro, 2013 - 15:53 (Brasília) 18:53 GMT

Após quitar dívidas, professora desiste do cartão de crédito

Patrícia Tavares tinha dívidas maiores do que seu salário quando decidiu renegociá-las e limitar-se a compras à vista.

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Formatos alternativos

Uma das principais mudanças recentes do Brasil foi a entrada de mais de 40 milhões de brasileiros no mercado de consumo, fenômeno que foi responsável pela ampliação da classe média e, para muitos analistas, ajudou o país a se proteger do pessimismo econômico internacional.

Só no ano passado, o crescimento acumulado das vendas do varejo foi superior a 8% entre janeiro e novembro, e as vendas no Natal também subiram.

Mas, da mesma forma que os níveis educacionais do país não acompanharam a expansão do consumo, os conhecimentos sobre finanças e investimentos deixam a desejar, segundo levantamentos diversos. E o resultado muitas vezes é um cenário de endividamento, inadimplência, prejuízos para a população e impactos na poupança do país.

Uma pesquisa divulgada em setembro pela BM&FBovespa aponta que mais da metade dos 2 mil entrevistados diz não sobrar dinheiro no final do mês. E, ainda que praticamente todos estejam familizarizados com a poupança, poucos conhecem outras formas (às vezes mais rentáveis) de investimento, como Tesouro Direto (5,8%) e renda fixa (25%).

Tênis em promoção em loja de São Paulo (BBC Brasil)

Varejo cresceu e muita gente entrou no mercado de consumo, mas com pouco conhecimento sobre finanças

"Existe um distanciamento da vida cotidiana em relação à vida financeira, e não é só no Brasil", opina à BBC Brasil Fabio Moraes, diretor de educação financeira da Febraban (federação nacional dos bancos). "Tivemos muitos anos de instabilidade monetária. Quando ela veio, encontrou o brasileiro com um comportamento muito imediatista."

Já para William Eid Jr, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV-SP, "o problema é que se cultiva o consumo exacerbado desde cedo. Os brasileiros devem mais do que deveriam e não olham para o futuro".

Inadimplência

Em 2012, a oferta de crédito cresceu e, mesmo com a redução na taxa básica de juros, a inadimplência dos consumidores subiu 15% em comparação com o ano anterior, aponta medição da Serasa Experian. Essa inadimplência poderia ter sido maior se não fosse o desemprego baixo e a expansão da renda.

Ainda segundo a pesquisa da BM&FBovespa, entre os entrevistados que tomaram empréstimos, cerca de um terço paga taxas de juros de no mínimo 5% ao mês; e um quarto deles sequer sabe o quanto gasta em juros.

Em termos práticos, uma pessoa que tomou um empréstimo de R$ 1 mil a juros mensais de 5% deverá cerca de R$ 5,7 mil após três anos, por exemplo.

Juros baixaram, mas inadimplência aumentou na esteira do aumento do crédito

"A inadimplência no país é uma bola de neve à velocidade da luz. Em dois ou três anos, muitas dívidas ficam impagáveis", opina William Eid Jr.

Aulas nas escolas

O cenário criou uma demanda para cursos e dicas de educação financeira - o que percebível pela crescente quantidade de livros, colunas de jornais, boletins de rádio e outros meios dedicados a dar dicas de finanças pessoais.

Na BM&FBovespa, os cursos gratuitos recebem de 100 a 300 pessoas por sessão - "tanto gente da periferia como dos Jardins (bairro nobre paulistano)", diz o professor José Alberto Netto Filho.

Para o público infanto-juvenil, está em andamento um projeto de educação financeira nas escolas dos ensinos fundamental e médio, tocado por um conselho formado por representantes de instituições públicas e privadas.

Segundo Sílvia Morais, coordenadora da iniciativa, o projeto-piloto em 2011 incluiu noções educação financeira em aulas de diversas disciplinas do ensino médio, abrangendo 14 mil alunos e professores em mais de 400 escolas. A meta para os próximos dois anos é levar o projeto para mil escolas e 3 mil professores, diz ela.

Cursos como o da BM&FBovespa têm demanda crescente; há projeto-piloto em escolas

Moraes afirma que está em planos um projeto semelhante para o ensino fundamental, além do mapeamento de iniciativas de educação financeira que já sejam adotadas nas escolas do país.

Um estudo do Banco Mundial sobre os egressos do projeto-piloto no ensino médio notou que os alunos ficaram um pouco mais propensos a poupar e a administrar suas despesas.

"O aluno começa a perceber a interdependência entre ele e a economia", opina Sílvia Morais. "É um desafio mostrar-lhe que ele não é um indivíduo isolado, e suas ações têm um impacto socioeconômico."

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