Médico desafia rebeldes para atender vítimas de estupro no Congo

Atualizado em  20 de fevereiro, 2013 - 14:40 (Brasília) 17:40 GMT
Denis Mukwege  (Foto AFP)

Denis Mukwege é recebido no aeroporto após voltar para o Congo

A volta do ginecologista Denis Mukwege à República Democrática do Congo foi celebrada por milhares de mulheres no mês passado. Das congolesas que o receberam no aeroporto, muitas vivem com menos de um dólar por dia, mas ainda assim elas economizaram para pagar a passagem do médico e convencê-lo a voltar do exílio na Europa.

Mukwege já atendeu, com colegas, mais de 30 mil vítimas de estupro com ferimentos graves e montou um hospital com 350 leitos financiado pela UNICEF e outros doadores. O médico também criou uma unidade de atendimento móvel e um sistema para oferecer microcrédito para as vítimas reconstruírem sua vida.

Por esse trabalho, recebeu diversos prêmios internacionais - entre eles o Prêmio de Direitos Humanos da ONU, em 2008, e o título de "Africano do Ano", em 2009 - mas teve de fugir para a Europa, depois que sua família foi atacada por combatentes.

A guerra na República Democrática do Congo começou em 1998 e terminou oficialmente em 2003, mas os combates prosseguem até hoje no leste do país, onde operam grupos rebeldes.

Em um relato dramático, reproduzido abaixo, Mukwege contou à BBC como os abusos sexuais se transformaram em uma potente e avassaladora arma de guerra no conflito:

Início dos abusos

"Quando a guerra estourou, 35 pacientes de meu hospital, em Lemera, no leste do Congo, foram mortos em suas camas.

Fugi para Bukavu, a 100 km de Lemera, e comecei a atender em tendas. Construí uma maternidade e uma sala de cirurgia improvisada, mas em 1998 tudo foi destruído. Então, tive de recomeçar a erguer uma nova estrutura para atender meus pacientes em 1999.

Foi nesse ano que nossa primeira paciente vítima de estupro foi trazida para o hospital.

Depois que a paciente foi estuprada, seus agressores haviam disparado contra suas coxas e órgãos genitais. Pensei que esse ato de barbárie seria algo isolado, uma atrocidade da guerra, mas o verdadeiro choque veio três meses depois.

Quarenta e cinco mulheres vieram se tratar conosco com a mesma história: combatentes haviam entrado em suas aldeias, estuprando e torturando quem encontrassem pelo caminho.

Mulher esconde rosto (Foto AFP)

Após tratamento, mulheres e meninas estupradas recebem ajuda para voltar a trabalhar ou estudar

Algumas mulheres tinham queimaduras e relataram que, após terem sido estupradas, abrasivos químicos foram derramados em suas genitálias."

Estupro como 'estratégia'

"Comecei a me perguntar o que estava acontecendo. Esses não eram só atos violentos de guerra. Eram parte de uma estratégia.

Em alguns casos que nos foram relatados, várias pessoas foram estupradas ao mesmo tempo, publicamente. A população feminina de aldeias inteiras sofreu abusos sexuais durante a noite.

O objetivo desses estupros coletivos era não só ferir as vítimas, mas toda a comunidade, já que todos eram forçados a assistir a tais atos.

Como resultado, as pessoas tiveram de fugir de suas aldeias, abandonar suas terras, seus recursos, tudo. Trata-se de uma estratégia eficaz nesse sentido.

O conflito do Congo não envolve grupos de fanáticos religiosos, nem é um conflito entre os Estados. É uma guerra motivada por interesses econômicos - e travada por meio de uma estratégia que está destruindo as mulheres do país.

Em 2011, assistimos a uma queda no número de estupros e pensamos que talvez a barbárie estivesse perto do fim.

Desde o ano passado, porém, a guerra recomeçou e os casos de abuso sexual voltaram a aumentar. O fenômeno está totalmente ligado à situação de guerra."

Atendimento às vítimas

"Estabelecemos um padrão de atendimento às vítimas. Antes de levá-las para a mesa de cirurgia fazemos um exame psicológico. Preciso saber se elas serão capazes de resistir à operação.

Após a etapa cirúrgica ou de cuidados médicos, encaminhamos as pacientes para um programa que lhes oferece apoio socioeconômico.

A maioria das vítimas chega aqui sem nada, nem roupas. Temos de alimentá-las e cuidar delas.

Depois do fim do tratamento médico, se essas congolesas não forem capazes de se sustentar, estarão vulneráveis novamente.

Protesto (Foto Reuters)

Mulheres fazem protesto contra violência contra as mulheres no Congo

Por isso, ajudamos as mulheres a desenvolver novas habilidades e as meninas a voltar para a escola.

A quarta etapa de nosso programa de auxílio às vítimas diz respeito a questões legais. Muitas vezes, os pacientes conhecem a identidade de seus agressores e temos advogados que os ajudam a tentar levar seus casos para a Justiça."

Ataque pessoal

"Em uma ocasião, (homens armados) abriram o portão e entraram no meu carro, apontando suas armas para mim. Eles me tiraram do carro e, como um de meus seguranças tentou me resgatar, começaram a atirar e o mataram.

Eu me agachei e os homens continuaram disparando. Não sei como sobrevivi. Eles fugiram no meu carro sem levar nada e depois descobri que minhas duas filhas estavam em casa quando eles chegaram.

Elas foram levadas para a sala e ficaram esperando que eu chegasse junto com os agressores.

Durante todo o tempo, os homens ficaram com suas armas apontadas para minhas filhas. Foi terrível.

Não sei quem eram essas pessoas nem por que me atacaram. Depois disso, fomos para a Suécia e, em seguida, para Bruxelas (Bélgica).

No mês passado, decidi voltar para o Congo. Fui inspirado pela determinação das mulheres congolesas para combater essas atrocidades."

Retorno

"Muitas mulheres tiveram coragem para protestar sobre o ataque à minha família para as autoridades.

Elas também juntaram dinheiro para pagar minha passagem de volta (ao país) - e essas são as mulheres que não têm nada, vivem com menos de um dólar por dia.

Houve uma recepção para mim no aeroporto de Kavumu, em Bukavu, em janeiro. E depois desses gestos, eu realmente não poderia dizer não.

Estou determinado a combater essas atrocidades, essa violência.

Minha vida teve de mudar, desde que voltei. Vivo no hospital agora e tomo uma série de precauções por questões de segurança. Perdi parte de minha liberdade.

As mulheres têm se revezado para vigiar o hospital. Grupos de 20 voluntárias fazem turnos, dia e noite, para tentar garantir minha segurança.

E elas não têm armas, não têm nada. Seu entusiasmo me dá confiança para continuar a trabalhar."

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