Chinesas 'encalhadas' aos 27 anos lutam contra estigma

Atualizado em  23 de fevereiro, 2013 - 09:53 (Brasília) 12:53 GMT
Noivas chinesas (Foto: Getty Images)

Na China, jovens que não se casam sofrem pressão da família e até mesmo da imprensa estatal

Mais de 27 anos? Solteira? Mulher? Na China, você poderia ser rotulada como "encalhada" pelo Estado – mas algumas mulheres chinesas nos dias de hoje estão felizes por serem solteiras.

Huang Yuanyuan trabalha até tarde na redação de uma estação de rádio em Pequim. Ela está nervosa com o fato de, no dia seguinte, fazer 29 anos.

"Assustador. Estou um ano mais velha", diz.

Por que?

"Porque ainda estou solteira. Não tenho namorado. Estou sob grande pressão para casar."

Huang é uma jovem bonita e confiante, com um bom salário, seu próprio apartamento, um mestrado em uma das melhores universidades chinesas e amigos ricos.

Apesar disso, ela sabe que mulheres solteiras, urbanas e instruídas como ela são chamadas de "encalhadas" na China – e isso incomoda.

Pode parecer estranho chamar mulheres de 27 ou 30 anos de "encalhadas", mas na China há uma antiga tradição de mulheres se casarem jovens.

No entanto, a idade com que as mulheres se casam vem aumentando, como costuma acontecer em lugares onde as mulheres atingem um nível mais alto de educação.

Em 1950, a idade média com que mulheres urbanas se casavam na China era abaixo de 20. Nos anos 1980, era de 25. Atualmente é em torno de 27.

Desequilíbrio

Huang se sente pressionada por seus amigos e sua família, e a mensagem também é repetida pela imprensa estatal chinesa.

Até mesmo o site da governista e supostamente feminista Federação Nacional da Mulher Chinesa trazia artigos sobre "mulheres encalhadas", até que várias reclamaram.

A imprensa estatal começou a disseminar esse termo em 2007. Naquele mesmo ano, o governo alertou que o desequilíbrio de gênero na China – causado por abortos seletivos, por causa política do filho único – era um problema grave.

"Essas garotas esperam continuar sua educação para aumentar sua competitividade. A tragédia é que elas não percebem que, à medida que as mulheres envelhecem, elas valem cada vez menos. Então, quando elas conquistam seu mestrado ou doutorado, elas já estão velhas – como pérolas amareladas", diz um trecho de um artigo cujo título é algo como "Mulheres encalhadas não merecem nossa simpatia", publicado no site da Federação Nacional da Mulher Chinesa em março de 2011.

Nos últimos meses, a federação retirou o termo de seu site, e agora se refere a mulheres solteiras "velhas" (classificação para as que têm mais de 27 anos ou, às vezes, mais de 30), mas o termo "encalhada" continua sendo amplamente usado em outros locais.

Segundo o escritório nacional de estatísticas da China, na faixa etária de menos de 30 anos, o número de homens supera o de mulheres em 20 milhões.

Dados do Censo na China mostram que cerca de uma em cada cinco mulheres com idades entre 25 e 29 anos são solteiras.

A proporção de homens solteiros nessa faixa etária é maior – mais de um terço. Mas isso não significa que eles terão facilidade em encontrar uma parceira, já que os homens chineses tendem a se casar com mulheres mais novas e com grau de educação menor.

"Há a opinião de que homens classe A vão encontrar mulheres classe B, homens classe B vão encontrar mulheres classe C, e homens classe C vão encontrar mulheres classe D", diz Huang Yuanyuan.

"Quem sobra são as mulheres classe A e os homens classe D. Então, se você é uma encalhada, você é classe A."

Qualidade

Mas são as mulheres "classe A", inteligentes e com alto nível de educação, que o governo quer ver tendo filhos, diz Leta Hong-Fincher, americana que faz seu doutorado em sociologia na Universidade de Tsinghua, em Pequim.

Ela cita uma declaração sobre população divulgada pelo Conselho de Estado da China em 2007.

"Dizia que a China enfrentava uma pressão populacional sem precedentes, e que no geral a qualidade da população é muito baixa, então o país precisa elevar a qualidade da população."

Alguns governos locais da China começaram a organizar eventos nos quais mulheres jovens e de alto nível de instrução podem encontrar solteiros.

Mas a tendência de menosprezar mulheres de certa idade que não são casadas não é exclusivamente uma atitude promovida pelo governo.

Chen (o nome foi trocado a pedido da entrevistada), que trabalha para uma consultoria de investimentos, sabe disso muito bem.

Ela é solteira e aproveita a vida em Pequim, longe de seus pais, que vivem em uma cidade conservadora do sul do país e que, diz ela, têm vergonha de ter uma filha solteira de 38 anos.

"Eles não querem que eu vá com eles a encontros sociais, porque não querem que os outros saibam que têm uma filha tão velha e ainda solteira", diz ela.

Os pais de Chen já tentaram arranjar encontros às escuras para ela. Seu pai chegou a ameaçar renegá-la caso ela não se casasse até o fim do ano. Agora eles dizem que, se ela não encontrar um homem, deve voltar para casa e morar com eles.

Chen sabe o que quer – alguém que seja "honesto e responsável" e boa companhia, ou simplesmente ninguém.

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