'Ele nos despertou do pesadelo e tudo mudou'

Atualizado em  8 de março, 2013 - 07:10 (Brasília) 10:10 GMT
Alfredo Rueda (Claudia Jardim - BBC Brasil)

Rueda conta que líder venezuelano deu a ele e sua família oportunidades sem precedente

"Sabe o que é alguém te despertar de um pesadelo e quando você abre os olhos, vê que tudo mudou?". Essa é a definição do pedreiro Alfredo Rueda para justificar tamanha comoção gerada pela morte do presidente venezuelano, Hugo Chávez, responsável, em suas palavras, por dar a chacoalhada que transformou sua vida e a de muitos venezuelanos.

Aos 62 anos, cabelos brancos, rugas e a pele queimada pelo sol, revelam marcas de quem pegou no batente para sobreviver.

Alfredo Rueda conheceu o presidente venezuelano logo no início de seu primeiro mandato, em 1999, numa das piores tragédias da história do país.

Naquele ano, fortes chuvas assolaram a Venezuela, provocando milhares de mortes e deixando outros milhares sem moradia. Rueda foi um desses desabrigados.

"Perdi minha casa e tudo o que tinha, foi terrível". Pai de três filhos, o pedreiro conta que vivia numa casa pequena, num terreno que havia sido ocupado na zona periférica da Caracas.

Sem ter onde morar, ele e a família foram levados pelas autoridades a um alojamento, onde permaneceriam por um ano. "Foi lá que conheci o comandante e nossas vidas mudaram", recorda. "Chávez apertou a minha mão, essa mão aqui e disse que teríamos uma casa digna", conta entusiasmado o senhor de 62 anos.

Um ano depois a promessa foi cumprida. "Recebemos uma casa cômoda, com três quartos, sala, cozinha, dois banheiros e toda mobiliada. Não pagamos um centavo por isso".

'Castigo divino'

Na época da enchente, a alta hierarquia da Igreja Católica chegou a afirmar que as chuvas eram um "castigo divino" contra Chávez. Naquele período, o presidente venezuelano impulsionava a Constituinte que sentaria as bases para consolidar seu projeto de "revolução bolivariana" anos mais tarde.

O pedreiro conta que antes de Chávez, havia se conformado com a condição de pobreza em que vivia. "Nossa vida era assim, sempre construindo casas para os outros, mas morando na pior. Até que ele nos despertou", conta Rueda. "Nos governos anteriores, que a oposição chama de democráticos, não tínhamos direito nem à comida. E o tirano era o Chávez?".

Orgulhoso, Rueda conta que dois de seus três filhos estudam na Universidade Bolivariana - rede de universidades criada pelo atual governo que defende o ingresso universal, de acesso gratuito e sem obrigatoriedade de prestar vestibular.

"Em breve terei um engenheiro e uma jornalista em casa, que tal?", sorri. "Quando um pedreiro ia ter filhos na universidade sem pagar um centavo?".

Perdão popular

A percepção de que Chávez era "gente do povo" lhe permitiu consolidar-se no poder durante 14 anos com índices de popularidade superiores a 50% - na pior avaliação. Todas as falhas do governo - que na última campanha foram admitidas pelo próprio Chávez - eram atribuídas pela população a seus ministros e funcionários. Chávez, na maioria das vezes, era perdoado.

Sob um sol forte, acompanhado da família, o pedreiro esperava com certa impaciência, na quilométrica fila de acesso à sala da Academia Militar, na quinta-feira, para prestar sua última homenagem ao presidente. "Vamos esperar até conseguir entrar, mas tem que ter convicção", afirmou, entre risos. O tempo mínimo de espera para ver o "comandante" por apenas alguns segundos era de 12 horas.

O velório, previsto inicialmente por três dias, será estendido por mais uma semana devido à multitudinária presença de simpatizantes do presidente. Seu corpo, será embalsamado e colocado em uma urna de cristal.

Rueda disse não temer o futuro e diz que o chavismo pode continuar mesmo sem seu ideólogo. "Vai ser difícil sem ele, de repente algumas coisas podem mudar, mas o mais importante é que esse povo nunca mais vai voltará a ser humilhado. E isso nos ensinou Chávez".

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