“Chávez queria que eu o visse como o Che”, diz Jon Lee Anderson

Atualizado em  9 de março, 2013 - 22:28 (Brasília) 01:28 GMT
Jon Lee Anderson (foto: AFP)

Jon Lee Anderson conta como o poder tornou Chávez mais cauteloso e nervoso

"Eu pensei que tomava muito café, mas descobri que Chávez me vencia nisso facilmente", disse o jornalista Jon Lee Anderson, que conheceu como poucos o presidente venezuelano.

"Era um cafeteiro empedernido", afirmou à BBC Mundo. "Além disso fumava, como eu. Quando o entrevistei pela primeira vez, em 2001, nos sentamos embaixo de uma árvore na residência presidencial e fumamos e tomamos café por horas".

"Ele fumava cigarros venezuelanos sem filtro", segundo o jornalista da revista americana New Yorker e autor de Che Guevara: uma biografia, considerada uma das melhores biografias de Ernesto Guevara.

"Ele (Chávez) me disse: não conte isso a ninguém, porque todos pensam que não fumo".

Anderson - que escreveu grandes perfis e entrevistou mandatários como Fidel Castro, de Cuba, e Mahmoud Ahmadinejad, do Irã - viajou com Chávez duas vezes durante seu governo.

Em entrevista por telefone à BBC Mundo, o jornalista americano conta o que se lembra sobre Chávez.

BBC Mundo - Quais são suas lembranças da primeira entrevista?

Anderson - Só a mulher dele nos interrompeu, a primeira dama Marisabel Rodriguez de Chávez, com a menina, Rosa Inés, que tinha dois anos de idade. Ele voltou à mesa taciturno, após o contato com ela.

No dia anterior eu tinha falado com o psiquiatra de Chávez, Edmundo Chirinos, quem me confiou, off the record, que Chávez tinha graves problemas com a primeira dama.

Enquanto me guiava pelos salões de sua casa, Chávez me disse: "Sei que esteve com Chirinos". Me surpreendi porque pensei que era uma indiscrição ter falado com seu psiquiatra. Eu disse, quase para suavizar a possível indiscrição, que ele estava bem e afirmei - em tom de brincadeira - : "Não falamos de você". Ele riu.

Apesar de não poder confirmar, eu poderia jurar que Chávez queria que eu me reunisse com Chirinos e que eu soubesse que ele vivia uma crise familiar.

BBC Mundo - Por que ele faria isso?

Anderson - Talvez para prevenir uma cena. Ou para que eu simpatizasse com sua situação.

BBC Mundo - O que você sabe das relações sentimentais de Chávez?

Anderson - Sinto que sua primeira mulher o conhecia muito bem. Ela sempre foi muito discreta e, um pouco como a primeira mulher de Fidel, nunca falou.

Marisabel, por sua vez, era uma garota loura, muito bonita, de uma cidade provincial; era uma espécie de groupie, que tinha sido jornalista. O conheceu passando a ele um papel com seu telefone escrito.

Sua primeira mulher, Nancy Colmenares, era mais como ele, de sangue misto, humilde, não universitária. E a mãe de seus primeiros filhos.

Mas depois que Chávez saiu da prisão, após o golpe de 1992, se divorciaram.

Quando Chávez começou sua campanha, conheceu Marisabel. Alguns interpretaram sua relação com ela como oportunista, ao se casar com uma mulher mais apresentável como primeira dama.

Nessa época, Chávez era um quarentão e tinha fama de não passar despercebido pelas mulheres.

BBC Mundo - Disseram que ele era um mulherengo. Qual papel as mulheres desempenhavam na vida de Chávez?

Anderson - Penso que Chávez era um homem muito dominante, muito magnético para as mulheres. Ele reunia duas coisas: era muito varonil e tinha poder.

Era machista, mas no sentido cultural. As mulheres tendiam a ser anfitriãs de festas, por exemplo, e não assessoras políticas.

BBC Mundo - Como o poder mudou Chávez?

Anderson - Ele mudou depois do golpe de Estado e após a greve da Pdvsa em 2002. Apesar de seu bom humor, se tornou mais nervoso e conhecedor da complexidade e dos atenuantes do poder.

Você soube como ele me atendeu em 2001, na residência presidencial. Ao contrário, em 2008, me recebeu no palácio, rodeado de funcionários e assessores. Além disso nos filmaram. Me senti muito exposto.

Quando desligaram a câmera ele se aproximou e disse: "Escute, Anderson, você quer ir comigo a Santo Domingo, onde vou enfrentar Uribe?" Isso foi na época em que estava brigando com o presidente colombiano, Álvaro Uribe.

Eu disse que sim e passei mais dois dias com ele. Mas senti que era mais presidente e menos Hugo Chávez. Percebi um leve distanciamento, e ele estava mais cauteloso.

BBC Mundo - Por que pensa que Chávez lhe permitiu esse acesso?

Anderson - Eu era como um amigo crítico. Me tinha próximo mas não tanto. Eu não era Sean Penn, nem do coro de aplausos.

Ele gostava do fato de eu ser o biógrafo de Che Guevara, que era uma grande referência para ele. Ele gostou do livro e queria que eu o visse como uma espécie de Che.

Ele queria me mostrar seu radicalismo. Diferente de outros mandatários, ele não agiu de forma moderada comigo.

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