Escolha de papa humilde sinaliza mudança, mas mantém rigor moral

Papa Francisco | Foto: AFP

A eleição do primeiro papa não europeu em mais de um milênio - e o primeiro da América Latina, onde vivem 40% dos católicos do mundo - reflete o reconhecimento por parte dos cardeais que o elegeram da importância do rebanho católico fora da Europa.

O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio tem a reputação de ser um sacerdote humilde, que mesmo ocupando um alto cargo na Igreja Católica ia ao trabalho de ônibus, vivia em um apartamento em vez de em um palácio apostólico e cozinhava sua própria refeição.

As comparações inevitáveis com seu antecessor, Bento 16, provavelmente devem ressaltar o fato de o novo pontífice ser um bispo local, em vez de uma figura mais ligada ao centro do poder do Vaticano.

O argentino de 76 anos já descreveu a desigualdade como um "pecado social" e costuma dizer que é dever da Igreja servir aos pobres e menos favorecidos.

Comparação

Ele é conhecido por modernizar a conservadora Igreja argentina, enquanto Bento 16 serviu como cão de guarda do catolicismo doutrinal por mais de duas décadas antes de ser eleito papa.

Bergoglio certamente preferia o dia-a-dia do sacerdócio em seu país de origem à burocracia do órgão administrativo do Vaticano - a Cúria, que segundo observadores estaria repleta de problemas de gestão e com uma urgente necessidade de reformas.

Bergoglio também é o primeiro papa proveniente dos jesuítas - uma ordem Católica antiga e bastante independente que nem sempre teve o melhor relacionamento com Roma.

Apesar deste histórico, o argentino já trabalhou em várias comissões da Cúria (ele foi membro da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos e da Congregação para o Clero, entre outras) e fala italiano com fluência -além de alemão e espanhol -, de modo que não terá problemas para se comunicar com os que o rodeiam no Vaticano.

Para completar, o fato de ter raízes italianas - seus pais eram da Itália - também pode ser uma vantagem em uma instituição bastante romana.

Conservadorismo

O novo Papa é um teólogo conservador e aqueles que esperam uma mudança na postura da Igreja sobre o casamento gay, o aborto e os métodos contraceptivos se decepcionarão.

Quando o assunto é moralidade sexual, ele é ortodoxo.

E foram tais características que o transformaram em um forte candidato ao papado em 2005, quando ele foi o principal rival de Joseph Ratzinger, o Bento 16.

Bergoglio, o papa Francisco, mantém boas relações com a comunidade judaica em Buenos Aires, tendo recebido prêmios de organizações judaicas - o que fortalece suas credenciais inter-religiosas.

Além disso, ele costuma criticar o que chama de "doença espiritual de uma Igreja auto-referencial", conclamando os sacerdotes a "saírem às ruas".

Visto como alguém em sintonia com o "mundo moderno", ele já convidou alguns dos 5.600 jornalistas que estão em Roma para cobrir a sua eleição para uma audiência no sábado.

Essas habilidades serão necessárias para ele conter os católicos que debandam em uma Europa cada vez mais secular e uma América Latina onde as igrejas pentecostais estão prosperando.

Humildade

Bergoglio assume a chefia da Igreja em uma época de crescente intolerância religiosa e entre suas tarefas deverá estar aumentar a confiança em uma instituição que foi balançada pelos escândalos de abusos sexuais de menores por padres de diversos países.

O escolhido pelos cardeais para confrontar estes desafios é um homem de 76 anos de idade que vive há décadas com apenas um pulmão, por ter sofrido uma doença respiratória na juventude.

Na noite de quarta-feira, ao acenar para milhares de fiéis, ele fez o que pode-se chamar de um início de papado com confiança.

Mas talvez o que mais se destacou deste primeiro encontro foi a humildade do novo papa.

"Somente alguém que encontrou a misericórdia, que foi agraciado com a delicadeza da misericórdia, é feliz e confortável com o Senhor", disse Bergoglio em 2001.

Foi muito característico que ao cumprimentar os fiéis que integram seu rebanho pela primeira vez, o papa Francisco os tenha abençoado, mas logo depois pediu que eles também rezem com ele – e por ele.

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