Criação de shopping em favela divide opiniões

Complexo do Alemão (Foto: Rogério Santana/Governo do Rio de Janeiro)
Image caption Analista diz que shopping pode reforçar diferenças sociais entre moradores de favela

A criação de shoppings centers dentro de favelas cariocas pode reforçar a distância entre essas comunidades e o resto da cidade, além de aumentar as diferenças sociais entre os próprios moradores desses territórios.

Esta é a opinião de Itamar Silva, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e morador da favela de Santa Marta, na zona sul do Rio.

Para ele, enquanto tradicionalmente as favelas são caracterizadas por uma "relação mais aberta de circulação", a implantação de shopping centers pode representar a criação de divisões.

"Eu vejo de forma crítica, porque se a gente segue um modelo de shopping que a gente conhece, eles cerceiam, alguns têm mais liberdade que outros... Talvez exista uma classe ou os novos poderosos que agora possam se sentir valorizados por poder comprar em uma determinada loja dentro da favela, mas aí vai existir uma diferenciação entre os próprios pobres...Você vai colocar alguns para dentro, mas muitos ficarão do lado de fora", afirma Silva.

Seguranças

Citando casos de discriminação sofrida por negros e pobres em shopping tradicionais, ele questiona se o mesmo não pode acontecer em empreendimentos como o que deve ser inaugurado até o final do ano no Complexo do Alemão, fruto de uma parceira entre a Favela Holding (FHolding), de Celso Athayde, e a rede mineira de shoppings populares UAI.

"Vai se colocar algo como um castelo dentro desses territórios e circundá-los com seguranças... A minha pergunta é: como é que será o comportamento do segurança desse shopping dentro da favela em relação aos pobres que vivem lá, mas que não têm o poder aquisitivo pra conseguir esses produtos?"

Na opinião do pesquisador, a criação do shopping pode ainda criar uma distância entre a favela e o resto da cidade. "(Pode fazer) com que digam: 'Agora vocês têm um shopping de vocês, por que precisam vir para o nosso shopping?' É essa a mensagem?"

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Inovação

Já o geógrafo Jailson de Souza e Silva, professor da Universidade Federal Fluminense e coordenador da ONG Observatório de Favelas, vê como inovadora a proposta de Athayde de que 60% das lojas do shopping sejam comandadas por moradores da favela.

"A grande inovação é o desejo do Celso (Athayde) e de seus sócios de contribuir para que os comerciantes atuais ou potenciais da favela consigam ter condições de ter sucesso, ter condições de efetivamente ampliar o seu negócio e garantir o seu negócio, essa é a parte original, o que há de inovador", diz.

Souza e Silva, no entanto, afirma que para que a proposta dê certo é necessário que esses moradores e comerciantes tenham acesso a crédito, formação e treinamento para que possam competir em condição de igualdade com outros empreendedores.

"A favela não pode ser transformada só em um espaço de consumo, ela tem que ser um espaço de produção, de empreender, e este desafio está colocado para todo mundo que atua nesses territórios, não só para os empresários, não só para o mercado, mas também para o Estado, que tem que ser chamado para participar desse processo, assim como a sociedade civil", diz.

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