Análise: Coreia do Norte e a ameaça nuclear

Complexo nuclear de Yongbyo | Foto: Reuters
Image caption Complexo nuclear de Yongbyo; governo norte-coreano quer reativar usina

As ameaças crescentes da Coreia do Norte, bem como o anúncio de intenção, pelos norte-coreanos, de "reajustar e reativar" suas instalações nucleares, é muito preocupante.

Se isso se concretizar, Pyongyang vai estar produzindo ambos os tipos de materiais capazes de gerar explosões: plutônio e urânio altamente enriquecido.

As armas nucleares - entre quatro e dez - que, supostamente, a Coreia do Norte já possui, são baseadas em plutônio que foi produzido no pequeno reator de 5 megawatts em Yongbyon antes de meados de 2007.

Não se sabe, contudo, se o país tem armas à base de urânio.

Por que a Coreia do Norte teria abandonado o programa de plutônio e priorizado o enriquecimento de urânio em seu lugar continua a ser um mistério.

Há duas supostas razões:

  • Instalações de enriquecimento são mais fáceis de esconder - a Coreia do Norte certamente tem mais do que a única usina de enriquecimento que o país revelou em 2010.
  • Alguns tipos de armas à base de urânio são mais fáceis de construir e a Coreia do Norte provavelmente obteve um design de arma de urânio na rede AQ Khan, que tem base no Paquistão e atua no mercado negro. A rede também vendeu projetos para a Líbia e o Irã.

Mas por que a Coreia do Norte não reiniciou o programa de plutônio em todos esses anos, quando fez tantas provocações envolvendo mísseis e armas nucleares?

Reator

Não se pode negar a possibilidade de que seis anos de inatividade tenham tornado o reator inoperável.

Ainda assim, o cientista nuclear Siegfried Hecker, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, disse em 2010 que o reator estava em manutenção.

Sua avaliação de que seis meses seriam necessários para que o reator voltasse a trabalhar provavelmente ainda está correta.

Uma nova torre de resfriamento ou um sistema de resfriamento alternativo teriam de ser construídos e um novo suprimento de combustível teria de ser preparado adaptando-se varetas de combustível nuclear feitas muitos anos atrás para um projeto diferente de reator.

É possível que, longe da vista de atentos satélites, a Coreia do Norte já tenha adaptado as varetas de combustível, mas o trabalho nas torres de resfriamento teria sido notado. Não há relatos de atividade anormal dessa natureza.

Enriquecimento

Já a situação do programa de enriquecimento é menos clara.

Quando Hecker vistoriou a usina com 2 mil centrífugas em novembro de 2010, não foi capaz de estabelecer se ela estava em operação, e muito menos de saber com certeza se a usina estaria ou não produzindo urânio de baixo enriquecimento para uso como combustível - como foi divulgado.

O novo anúncio de Pyongyang pode significar que a instalação agora vá ser usada para produzir urânio super enriquecido, embora haja uma suposição geral de que o país já tenha outras instalações para esse fim.

O novo elemento no anúncio é a admissão, pela Coreia do Norte, de que o enriquecimento do urânio é para uso em armamentos.

Até agora, Pyongyang tinha mantido a noção fictícia de que seu programa nuclear tinha fins pacíficos.

Se as ameaças mais recentes foram concretizadas, os programas de enriquecimento de plutônio e urânio podem, cada um, produzir material para duas armas por ano, talvez mais, dependendo do tamanho das usinas de enriquecimento escondidas.

E algo ainda pior pode acontecer.

'Não há boas soluções'

Quando for completado, no final do ano, o protótipo do reator de água leve que a Coreia do Norte está construindo em Yongbyon, e que requer combustível de urânio enriquecido, pode ajudar a aumentar o estoque de material físsil.

O termo se refere à fissão nuclear, processo de divisão pelo qual um núcleo pesado se parte em dois fragmentos de números de massa comparáveis, acompanhada da liberação de uma grande quantidade de energia.

Este tipo de reator não é o ideal para a produção de plutônio que pode ser usado para fabricar armas, mas todos os reatores produzem plutônio que pode ser usado em uma explosão nuclear.

As sanções da ONU contra a Coreia do Norte e as medidas mais rigorosas adotadas pelos Estados Unidos, União Europeia e diversos outros países foram criadas em parte para conter o fluxo de materiais e componentes estratégicos para os programas de armas nucleares norte-coreanos.

Mas a China já demonstrou falta de atenção ao cumprimento dessas sanções.

De qualquer forma, a Coreia do Norte é agora auto-suficiente na maior parte dos aspectos de seu programa nuclear e, a não ser que esteja inoperável, o reator de 5 megawatts pode ser colocado em operação sem qualquer ajuda estrangeira.

Infelizmente, não há boas soluções.

A única fagulha de esperança é que a Coreia do Norte também anunciou que além do programa nuclear, vai expandir seus programas de desenvolvimento econômico.

A segunda medida, no entanto, não prevê nenhum comércio exterior e ajuda internacional necessários para que a Coreia do Norte erradique a pobreza.

Se o líder Kim Jong-um aprendeu alguma coisa de seus anos de juventude passados na Suíça, esperamos que ele tenha registrado algo sobre economia.

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