Maracanã será reaberto neste sábado; entenda a polêmica sobre a reforma

Maracanã / AFP
Image caption Após quase dois anos e nove meses, Maracanã será reinaugurado neste sábado

Após praticamente dois anos e nove meses fechado para reformas, o Estádio Mário Filho, mais conhecido como Maracanã, no Rio de Janeiro, será reaberto neste sábado com um amistoso entre amigos dos ex-jogadores Bebeto e Ronaldo.

O evento, fechado para o público, será o primeiro teste do estádio para a Copa das Confederações, que começa em 15 de junho. Além de convidados de honra, funcionários e seus familiares acompanharão a partida.

Estima-se que cerca de 25 mil pessoas deverão estar presentes na reinauguração.

Após o jogo de reabertura deste sábado, estão previstas mais duas partidas antes da Copa das Confederações. A primeira, ainda indefinida, deve ocorrer no dia 15 de maio (com 50% da capacidade total) e ainda não foi decidido se haverá venda de ingressos.

O teste final acontecerá no dia 2 de junho, com o amistoso da seleção brasileira contra a Inglaterra, quando o Maracanã receberá, pela primeira vez, sua capacidade máxima, de 78.639 pessoas.

Para entender as polêmicas que envolveram a reforma do estádio, que durou cerca de dois anos e meio, a BBC Brasil preparou uma lista de perguntas e respostas.

Em que consistiram as obras?

O Maracanã passou por uma reforma completa. As cadeiras antigas foram retiradas e substituídas por novas, retráteis e numeradas. Os camarotes também mudaram de lugar e foram instalados no segundo e terceiro pavimentos do estádio. Ao todo, serão 110 camarotes com acessos exclusivos.

Já a arquibancada ganhou maior inclinação e teve os setores inferior e superior unificados. Nas laterais, os torcedores ficarão a 12 metros da linha lateral do campo, o que, segundo o consórcio responsável pelas obras, garantirá maior visibilidade.

Além disso, a cobertura antiga foi inteiramente removida e substituída por uma nova estrutura com membrana tensionada, com 60,4 metros de comprimento.

Quando a reforma começou?

A reforma do Maracanã começou em agosto de 2010. A previsão era de que o estádio seria entregue em dezembro do ano passado, a seis meses do início da Copa das Confederações, que ocorrerá em junho deste ano.

No entanto, a data de entrega acabou adiada para final de fevereiro, depois para 15 de abril e finalmente 24 de maio, quando será entregue oficialmente.

Segundo a assessoria de imprensa da Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Emop), "é natural que o prazo tenha sido modificado porque se trata de um estádio construído na década de 40, além de outras intempéries, como a greve que paralisou as obras".

"O importante é que o Maracanã será entregue para a Copa das Confederações, como acordado com a Fifa", ressaltou a assessoria.

O novo Maracanã também teve sua capacidade total reduzida de 82.238 para 78.639 lugares. Seguindo as recomendações da FIFA, todas as cadeiras são retráteis e numeradas.

Todas as obras do estádio foram terminadas?

Não. Cerca de 97% delas estão concluídas. Ainda faltam retoques na área externa do estádio, como catracas, bilheterias, iluminação e outros investimento no entorno.

No jogo deste sábado, por exemplo, apenas duas das quatro entradas serão usadas pelos convidados.

Em entrevista coletiva, o secretário municipal de Obras, Alexandre Pinto, a reurbanização do entorno do estádio só estará concluída no dia 27 de maio, quando o estádio deverá ser entregue oficialmente à Fifa.

Já a passarela para a Quinta da Boa Vista, parque próximo ao Maracanã, só será construída para a Copa do Mundo. A obra está prevista no projeto original.

Quanto custou a obra?

A previsão oficial do custo da obra era de R$ 705,6 milhões. Em maio de 2011, o consórcio responsável pelas obras alegou que, por causa de problemas com a cobertura, o valor da reforma subiria para R$ 956,8 milhões.

No entanto, após o Tribunal de Contas da União (TCU) apontar um sobrepreço no projeto, a reforma foi reavaliada em R$ 859,5 milhões.

Por que foi tão cara?

O consórcio responsável pelas obras alega que problemas na cobertura elevaram o custo total das obras. Segundo o Governo Estadual e a Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Emop), a antiga estrutura estava comprometida, por corrosão acentuada e progressiva das armaduras das vigas e lajes das marquises.

A decisão, baseada em análises e estudos de engenharia, foi assim removê-la, sob pena de colocar em risco a segurança dos torcedores. De acordo com a versão oficial, a reforma da antiga cobertura apenas iria adiar a necessidade de sua completa remoção.

Portanto, para evitar que, futuramente, a complementação prevista no projeto original também fosse perdida, a solução escolhida foi a substituição total da estrutura e de seu futuro complemento por uma membrana tensionada.

Cerca de 96% dos assentos do novo Maracanã são cobertos.

Quem pagou pela reforma?

Do custo total da obra, R$ 400 milhões seriam financiados pelo BNDES. O restante seria pago pelo governo estadual. Não houve investimentos privados na reforma do estádio.

Quantas empresas estiveram envolvidas na obra?

A reforma do Maracanã foi tocada inicialmente por um consórcio formado por três empreiteiras: Odebrecht, Andrade Gutierrez e Delta. Em abril do ano passado, a Delta, que possuía 30% de participação no grupo, abandonou as obras alegando dificuldades financeiras.

Quem operará o estádio?

Image caption Empresa do bilionário Eike Batista participou da licitação para administrar o Maracanã

No início deste mês, foi feita uma licitação para definir quem administrará pelos próximos 35 anos não só Maracanã, mas também o Ginásio Gilberto Cardoso, conhecido como Maracanãzinho, e as áreas do entorno, que compõem o chamado Complexo Maracanã.

Apesar de os envelopes com os valores ofertados já terem sido abertos, o vencedor ainda não foi revelado. Dois consórcios disputaram o certame: o Maracanã S/A, formado pelas empresas brasileiras IMX, Odebrecht e AEG, e o Complexo Esportivo e Cultural do Rio, composto pela brasileira OAS, a holandesa Stadion Amsterdam e a francesa Lagardère Unlimited.

Segundo o governo do Estado, as propostas estão sendo avaliadas e não há prazo para a divulgação do consórcio vencedor.

O responsável pela gestão, operação e manutenção do complexo também terá de realizar, por sua conta e risco, uma série de ações e intervenções no entorno do estádio, as chamadas “obras incidentais”, no valor de R$ 594 milhões. Caso o valor gasto seja inferior a esse montante, a diferença deverá retornar aos cofres do governo.

A empresa vencedora também terá de implantar um Museu do Futebol e um estacionamento no entorno do estádio, além de restaurar o antigo Museu do Índio, que até recentemente era ocupado por indígenas.

Quando essas obras deverão acabar?

Todas as obras deverão ser concluídas em dois anos e meio a partir da divulgação do vencedor da licitação, dentro dos preparativos para a Olimpíada de 2016.

De que forma o vencedor da licitação irá recuperar seu investimento?

A concessionária terá o direito de explorar economicamente o Maracanã e o Maracanãzinho, realizar atividades comerciais nas áreas do entorno do estádio, além de poder explorar e licenciar a marca Macaranã, inclusive para fins publicitários.

Nos termos da licitação, também está previsto que a empresa que ganhar o certame terá de pagar um mínimo de R$ 4,5 milhões anuais ao governo, uma espécie de “aluguel” pelo espaço, durante os próximos 35 anos (porém, não haverá pagamento nos dois primeiros anos).

Segundo o estudo de viabilidade do empreendimento, os lucros do vencedor da licitação podem chegar a R$ 1,4 bilhão durante o período da concessão.

Quem tiver cadeiras cativas terá direito a elas depois da reforma?

Image caption Novas cadeiras do Maracanã são numeradas e retráteis

Sim. Porém, os proprietários das cerca de 5 mil cadeiras cativas não poderão usá-las na Copa das Confederações, na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas de 2016. O assentos não poderão ter seus setores modificados e as novas áreas são equivalentes às antigas.

Por quantas reformas o Maracanã já passou?

Nos últimos 12 anos, o Maracanã passou por um intenso processo de remodelação. A primeira grande reforma ocorreu para o Mundial de Clubes da Fifa de 2000, quando foram gastos cerca de R$ 106 milhões, em valores da época.

Entre abril de 2005 e janeiro de 2006, o estádio voltou a ser fechado para obras com vistas aos Jogos Pan-Americanos de 2007. Entre as obras, foram instaladas novas cadeiras e a antiga “geral” – área próxima ao campo onde os torcedores assistiam a partidas em pé – deixou de existir.

Na ocasião, o custo total foi de R$ 304 milhões. Apesar de elevado, a justificativa para o valor foi de que o Maracanã atenderia às exigências da Fifa para receber uma Copa do Mundo.

Somando-se ao custo oficial da reforma atual, de 859,5 milhões, o montante gasto no Maracanã nos últimos anos totalizaria, em valores corrigidos, chegaria a R$ 1,5 bilhão, segundo estimativa do jornalista João Carlos Assumpção e do economista Francisco Pessoa.

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