Filha de ministro da ditadura argentina vira rainha da Holanda

Image caption Máxima conseguiu reverter críticas do passado, com estilo emocional e carismático

A Holanda passou a ter um rei pela primeira vez em mais de 100 anos e também a primeira rainha-consorte na Europa nascida na América Latina após a coroação, nesta terça-feira, de Willem-Alexander. Ele recebeu a coroa de sua mãe, Beatrix, após um reinado de 33 anos (1980-2013).

A argentina Máxima Zorreguieta, uma economista de 41 anos, se casou há 11 anos com o então príncipe herdeiro do trono e passa a ser agora rainha da Holanda.

Willem-Alexander foi coroado nesta terça-feira em uma cerimônia em Amsterdã; ele é o primeiro rei holandês desde 1890 e ascendeu ao trono após a abdicação de sua mãe.

A história recente da Holanda tem reservado o trono do país às mulheres: Emma (rainha regente de 1890 a 1898), Wilhelmina (1898 a 1948), Juliana (1948 a 1980) e Beatrix (1980 a 2013).

A rainha havia anunciado seu desejo de abdicar ainda em janeiro, dizendo que o filho estava "pronto para reinar" e que era chegada a hora de o trono ser ocupado por "uma nova geração".

Após a assinatura de documentos oficiais, Beatrix anunciou, diante da Dam Square (praça central de Amsterdã onde está localizado um dos três palácios usados pela realeza holandesa): "Estou feliz e grata de apresentá-los seu novo rei, Willem-Alexander".

Representantes de famílias reais de todo o mundo estiveram presentes, entre eles o príncipe Charles e a duquesa da Cornuália, além de príncipes e princesas da Espanha, da Dinamarca e de países árabes.

Após o encerramento das cerimônias terá continuidade o Queen's Day, celebração anual do aniversário da rainha, e espécie de "carnaval holandês", quando as ruas do país (sobretudo de Amsterdã) são tomadas por milhares de pessoas vestindo laranja, a cor nacional. A partir do ano que vem a festa passa a se chamar "King's Day".

Argentina

Parte dos holofotes também esteve voltada à nova rainha-consorte, a argentina que caiu nas graças dos holandeses por sua simpatia, carisma e estilo emotivo.

Onze anos atrás, quando se casou com o príncipe Willem-Alexander, a economista era desconhecida no pequeno reino europeu e o fato de seu pai, Jorge Zorreguieta, ter sido ministro de Agricultura do governo ditatorial de Jorge Rafael Videla (1976-1981) na Argentina era uma mancha em sua reputação.

Mas o choro pela ausência do pai, proibido de participar da cerimônia de casamento pelas autoridades holandesas, e também da mãe, que optou por não ir sozinha, reverteu a situação drasticamente.

Sua demonstração pública de emoção foi vista com bons olhos e nos últimos anos sua popularidade chegou a ser maior do que a do marido e da própria sogra, a rainha Beatrix, que nesta terça-feira passou a coroa ao filho.

Trajetória em comum

Image caption Máxima conquistou os holandeses com seu conhecimento de história e tradição do país

A trajetória da nova rainha consorte da Holanda tem pontos em comum com a da rainha Sílvia, da Suécia, nascida na Alemanha e filha de pai alemão e mãe brasileira e que residiu em São Paulo entre 1947 e 1957.

As duas têm um passado de plebeias pertencentes à elite. Máxima estudou no famoso colégio bilíngue Northlands, em um bairro nobre de Buenos Aires.

Depois de se formar em economia, em 1995, ela se mudou para Nova York, onde trabalhou em uma série de instituições financeiras, entre elas o Deutsche Bank.

Após um tempo de carreira e períodos de trabalho nos Estados Unidos e na Europa, foi apresentada a Willem-Alexander por uma amiga aristocrata durante uma viagem.

Dois anos depois, estava casada com o futuro chefe da monarquia Orange-Nassau.

Emotiva e cultural

Máxima se destacou pelo seu tom emotivo, mas também pelo interesse pela cultura local e pela rapidez com que aprendeu a falar holandês.

Image caption Rainha Beatrix abdicou do trono em favor do filho, após 33 anos no cargo

Em 2009, foi nomeada como representante de um programa especial das Nações Unidas para avançar o desenvolvimento inclusivo por meio do microcrédito e viajou por diversos países.

Mas ela e o marido também já foram alvos de acusações, como de haverem cometido evasão fiscal e de terem hábitos extravagantes.

Em 2011, um jornal holandês acusou os dois de evasão de impostos por meio de um paraíso fiscal. A polêmica surgiu por um projeto do casal de construir uma casa de veraneio em Moçambique – que logo foi descartado.

Monarquia holandesa

A família real holandesa é tradicionalmente informal quando comparada a outras monarquias europeias. Os príncipes costumam estudar em escolas públicas, e as cerimônias são menos pomposas.

Mas os mesmos monarcas que patinam no gelo ao lado dos súditos mantêm a casa real mais cara da Europa: de acordo com um informe divulgado em 2011, os gastos anuais dos Orange-Nassau superam os US$ 50 milhões anuais (cerca de R$ 100 milhões).

Apesar dos altos gastos da família real, 59% dos holandeses dizem confiar nos Orange-Nassau, enquanto apenas 12% demonstram confiança nos políticos, e 75% apoiam a manutenção da monarquia constitucional.

O rei e a rainha já anunciaram que por ora continuarão vivendo em Wassenaar, uma pequena cidade de 25 mil habitantes em uma das áreas mais ricas da Holanda, e que devem levar alguns anos até se mudarem para o palácio real de Bosch, em Haia.

Além disso, manterão a herdeira do trono holandês e suas irmãs na escola pública onde estudam.

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