Imigração e aumento da população feminina mudam imagem da Austrália

Australianos / Montagem BBC

A população da Austrália superou recentemente a marca dos 23 milhões de habitantes. E, conforme os números mudam no país, o mesmo acontece com sua imagem.

Estrangeiros tendem a ter uma percepção estereotipada dos australianos. Muitos veem os "aussies" - como costumam ser chamados os nativos desse país - como indivíduos de humor ácido e uma autoconfiança que beira a pretensão.

Mas dados do Escritório de Estatísticas do país mostram que está na hora de esquecer o "Crocodilo Dundee": o povo australiano de hoje, na média, não tem nada a ver com um homem bronco, sentado em sua varanda com uma cerveja na mão, ou uma loira surfista.

A mulher australiana "média" tem 37 anos, é casada e tem dois filhos. Também vive em uma casa de três quartos, em uma das principais cidades australianas.

Além disso, em um país onde os cargos de primeiro-ministro e governador-geral são ocupados por mulheres, esses dados recentes confirmam o que os demógrafos já desconfiavam há algum tempo: a Austrália está se tornando um país cada vez mais feminino.

As mulheres mais poderosas da Austrália

  • Primeira-ministra Julia Gilard: Nasceu em Barry, no País de Gales, em 1961. Cresceu em Adelaide e tornou-se cidadã australiana em 1974. Ganhou uma cadeira no Parlamento pelo Partido Trabalhista em 1998. Foi titular das pastas de Educação e Emprego antes de substituir o ex-premiê Kevin Rudd.
  • Magnata da mineração Gina Rinehard: Nasceu em Perth, 1954. Filha de Lang Hancock, milionário do setor de minério de ferro. Passou a controlar a companhia da família em 1992. Foi considerada a mulher mais rica do mundo em 2012. Tem ações das empresas Channel Ten e Fairfax Media.
  • Governadora-geral Quentin Bryce: Nasceu em Brisbane, 1942. Trabalhou como acadêmica e advogada de direitos humanos. Foi governadora da província de Queensland antes de se tornar a primeira mulher governadora-geral (representante da Rainha Elizabeth 2ª), em 2008.

Nos anos após a colonização britânica, em 1788, a proporção da população australiana era de seis homens para cada mulher.

Ex-colônia de desterro da Grã-Bretanha, a Austrália recebeu milhares de prisioneiros homens. E, para cuidar deles, também vieram ao país agentes penitenciários - em geral, também homens.

A corrida do ouro no final do século 19 e as primeiras ondas de imigração pós-guerra do sul da Europa ajudaram a manter o desequilíbrio entre a população feminina e a masculina.

Há um século, um australiano "médio" era um homem de 24 anos. Há 50 anos, um homem de 29 anos. Foi só em 1979 que o número de mulheres finalmente ultrapassou o de homens.

Mas como a expectativa de vida das mulheres é maior, essa tendência tende a se perpetuar – embora no oeste da Austrália os homens ainda superem as mulheres, uma consequência do desenvolvimento da indústria da mineração na região.

A nova face do esporte australiano

  • Moisés Henriques: Jogador de críquete, nasceu em Portugal.
  • Bernard Tomic: Tenista, nasceu na Alemanha. Ocupa atualmente a 47ª posição no ranking dos melhores do mundo, tendo se tornado o mais novo jogador de tênis do país a ter chegado às quartas-de-final do torneio de Wimbledon, na Inglaterra, desde Boris Becker em 2011.
  • Usman Khawaja: Jogador de críquete; atua como rebatedor. Nasceu no Paquistão. Foi o primeiro muçulmano a jogar pela Austrália.
  • Jason Day: Jogador de Golfe, nasceu em Queensland, de mãe filipina. É atualmente o 26º melhor jogador do mundo e terminou em terceiro lugar atrás do compatriota Adam Scott nos Masters dos EUA deste ano.

O australiano médio ainda é um indivíduo que nasceu no país, assim como seus pais. No entanto, em uma nação poliglota e multicultural, esse panorama também mudará em breve.

Atualmente, mais de um quarto dos australianos nasceu em outro país – 26% - e apenas 54% dos cidadãos têm pais nascidos na Austrália.

A mudança nos rostos da equipe australiana de críquete ilustra bem essa nova tendência demográfica: o promissor Moises Henriques nasceu em Lisboa e o talentoso Usman Khawaja vem de Islamabad.

A noção de que o críquete, um dos poucos esportes que desperta o mesmo nível de paixão por todo o território, deve ser considerado como o esporte típico do australiano também está sendo contestada.

Em termos de etnia, o futebol, sem dúvida, se tornou o esporte mais representativo do país.

A Liga A conta com jogadores de 56 ascendências diferentes. Os Socceroos, a equipe de futebol nacional, é formado por jogadores com nomes como Schwarzer, Aloisi, Ognenovski e Bresciano.

Seu jogador principal, Tim Cahill, nasceu em Sydney, filho de uma mãe de Samoa e um pai inglês de ascendência irlandesa.

Há 25 anos, a imagem "étnica" do futebol australiano era uma barreira para o seu crescimento e penetração na sociedade.

Agora, sua diversidade é vista como uma espécie de imã de audiência, e uma das razões pelas quais os jogos da Liga A retornaram à televisão aberta, depois de anos sendo transmitidos principalmente na TV a cabo. Segundo seus dirigentes, agora o campeonato é a "cara da Austrália".

Em outros esportes, novos perfis de australianos também estão chegando ao topo. O jogador de golfe Adam Scott, que em abril se tornou o primeiro australiano a vencer o Masters dos EUA, pode se encaixar no perfil tradicional do "aussie".

Mas se as coisas tivessem sido um pouco diferentes no Augusta National Club, onde o torneio foi realizado, poderíamos hoje estar falando de outro australiano, que terminou em terceiro: Jason Day, filho de pai irlandês e mãe filipina.

Já a estrela do tênis Bernard Tomic nasceu na Alemanha, de pais croatas e bósnios.

Image caption Na Austrália, uma em cada cinco pessoas fala uma língua diferente do inglês dentro de casa

Hoje, uma em cada cinco pessoas que vivem na Austrália fala uma língua diferente do inglês em sua casa, sendo o mais comum o mandarim - o que reforça como a China em especial (e a imigração em geral) está mudando a cara do país dos cangurus.

O aussie médio é católico e não anglicano em função do grande número de imigrantes das Filipinas e do Vietnã, de irlandeses e imigrantes do Mediterrâneo.

Também é notável o forte crescimento de grupos não-cristãos, explicado, mais uma vez, pela imigração. Das religiões não-cristãs, a maior delas é o budismo (2,5% da população), o islamismo (2,2%) e hinduísmo (1,3%). De 2006 para 2011, o número de hinduístas na Austrália quase dobrou, passando de 148.130 para 275.534 seguidores.

De acordo com Rebecca Huntley, do instituto de pesquisas Ipsos Mackay, traçar esse novo perfil da população australiana é muito oportuno porque os cidadãos australianos estão chateados com a imagem estereotipada do país no exterior e os clichês usados para "vender" a Austrália turisticamente.

Pesquisas recentes mostram, por exemplo, que as pessoas têm implicância com o sotaque anasalado da primeira-ministra Julia Gillard, por causa de como ele soa em fóruns internacionais. "A voz no estilo Kath e Kim – premiada série de TV australiana - alimenta a ideia de que somos uma nação de Shane Warnes (famoso jogador de críquete)", diz Rebecca.

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