Presidente egípcio busca novos mercados em visita inédita ao Brasil

Mohamed Morsi / Reuters
Image caption Morsi aposta no Brasil e em outros emergentes para ampliar mercado do Egito

Na primeira viagem oficial de um presidente do Egito à América Latina, o atual líder do país, Mohammed Morsi, desembarca no Brasil na noite desta terça-feira determinado a se aproximar dos emergentes e diminuir a dependência dos Estados Unidos e da Europa.

A visita ao Brasil ocorre depois de viagens recentes feitas por Morsi a outros países do grupo Brics (formado, além do Brasil, por China, Índia, África do Sul e Rússia).

A estratégia tem como objetivo dar sobrevida à combalida economia do Egito, que sofreu um duro golpe após a revolução de 2011 que levou à renúncia do então presidente, Hosni Mubarak.

Desde então, o país mergulhou em um cenário de incertezas políticas e econômicas, convivendo com distúbios sociais, altas taxas de desemprego e criminalidade.

Segundo analistas, a aproximação com emergentes de Morsi, o primeiro presidente democraticamente eleito do Egito, é considerada uma reviravolta em relação à era Mubarak, mais alinhado com os Estados Unidos e a Europa.

"As viagens de Morsi nos últimos nove meses ilustram a nova direção que o país está tomando. Ele também esteve no Irã, Paquistão, Catar, Turquia, Etiópia, Arábia Saudita e, agora, América Latina", afirmou à BBC Brasil Hassan Zeyawi, professor de economia da Universidade do Cairo, no Egito.

Isso se deve, segundo Zewayi, à frustração pelo pouco apoio americano ao Egito, especialmente em meio aos apelos do governo egípcio por empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI): "É uma mensagem clara de Morsi a Obama, de que o Egito está aberto a novos parceiros e tem capacidade de buscar investimentos em outros mercados", acrescenta.

Brasil

No Brasil, onde permanecerá por dois dias, o presidente egípcio estaria interessado no imenso potencial de reservas naturais do país.

O Egito teme que não tenha suprimentos suficientes de petróleo e gás natural para alimentar sua crescente demanda energética, o que afetaria seu já fraco crescimento.

Nesta quarta-feira, segundo a agenda oficial do presidente egípcio, Morsi terá um encontro reservado com a presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto, em Brasília, e, logo em seguida, deve fazer visitas à Embrapa e ao Itamaraty.

Na quinta-feira, ele participa de um evento fechado na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) na capital paulista e depois encontra integrantes da comunidade egípcia com o apoio da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. Morsi volta a Cairo no mesmo dia.

Livre comércio

As conversas devem girar, principalmente, sobre as trocas comerciais entre os dois países, acreditam especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

Segundo o Itamaraty, de 2002 a 2012, o volume de comércio entre Brasil e Egito cresceu cerca de sete vezes, passando de US$ 410 milhões para US$ 2,96 bilhões.

Para o Egito, um dos objetivos seria reduzir o déficit (saldo negativo) na balança comercial do país com o Brasil.

No ano passado, por exemplo, enquanto as exportações brasileiras ao Egito somaram US$ 2,7 bilhões, as importações do país do Oriente Médio totalizaram apenas US$ 251,5 milhões.

De olho no amplo mercado consumidor brasileiro, Morsi deve renovar a pressão pela entrada em vigor do acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Egito, assinado em 2010, que reduz as tarifas entre o país e o bloco econômico.

O pacto, que já foi assinado pela presidência egípcia, ainda não foi ratificado pelos países-membros do Mercosul. No Brasil, o documento está parado na Casa Civil e ainda não foi enviado ao Congresso Nacional.

"O Brasil é uma opção natural para o Egito: economia gigante, expert em áreas estratégicas como energia e alimentos, força política e democracia estável", afirmou à BBC Brasil Mahmoud al-Kabaji, do Centro de Estudos Econômicos do Cairo.

"A sobrevivência política de Morsi depende em aliviar as taxas de desemprego, a recessão que assola a economia egípcia", completou.

*Colaborou Luís Guilherme Barrucho, da BBC Brasil em São Paulo

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