Protestos contra o governo se espalham pela Turquia

Manifestantes enfrentam tropa de choque em Istambul, Turquia (AP)
Image caption Reforma em parque iniciou onda de protestos contra o governo da Turquia

Os choques entre policiais e manifestantes se espalharam pelas cidades da Turquia e as autoridades do país informaram que mais de 90 protestos ocorreram em todo o país neste sábado.

Os manifestantes enfrentaram a polícia na capital, Ancara, em Istambul e também em Antália, Izmir e Konya.

Um total de 939 pessoas foram presas, de acordo com informações do Ministério do Interior turco. Dezenas ficaram feridas.

Estes são os maiores protestos contra o governo da Turquia nos últimos anos.

As manifestações começaram na sexta-feira devido a um plano das autoridades para fazer mudanças no parque Gezi, na praça Taksim, em Istambul.

Mas, segundo correspondentes no país, os protestos cresceram e se transformaram em grandes manifestações contra o que é percebido como uma islamização da Turquia.

Neste sábado houve uma escalada da violência depois que a polícia usou gás lacrimogêneo e canhões de água contra os manifestantes em Istambul e em Ancara.

Durante a noite, a polícia se retirou da praça Taksim para tentar diminuir a tensão.

Segundo o correspondente da BBC em Istambul James Reynolds, depois da retirada da polícia o clima era de comemoração na praça com centenas de manisfestantes celebrando o que eles afirmam ser uma vitória.

"Esta é a primeira vez na história política da Turquia que um milhão de pessoas foram para a praça Taksim para reivindicar um parque público", disse Koray Caliskan, um dos manifestantes, à BBC.

Outro manifestante, Oral Goktas, disse à agência de notícias Reuters que o protesto se transformou em uma manifestação "contra o governo, contra Erdogan tomando decisões como um rei".

O primeiro-ministro Recep Tayyp Erdogan afirmou que a polícia cometeu "erros" devido à força usada para enfrentar os protestos, mas também pediu o fim das manifestações em Istambul. Erdogan afirmou que a ação da polícia será investigada.

Acusações

Erdogan acusou seus oponentes de usar a indignação do público devido aos planos para o parque Gezi para aumentar as tensões no país.

O primeiro-ministro está no poder desde 2002 e alguns na Turquia reclamam que o governo está cada vez mais autoritário.

O Partido AK, de Erdogan, tem suas raízes políticas no Islã, mas o premiê afirma que está comprometido com o secularismo do Estado turco.

A percepção de que a polícia agiu de forma dura contra os manifestantes, uma opinião adotada por boa parte da imprensa do país, também aumentou a tensão no país.

Manifestantes em Ancara afirmaram que seu protesto foi uma ação de solidariedade aos colegas de Istambul. Eles gritavam frases como: "Em todo lugar há resistência, Taksim está em todo lugar".

No sábado, centenas de manifestantes se reuniram em um parque da capital. Muitos consumiram bebidas alcoólicas em protesto contra restrições recentes do governo – de inspiração islâmica – sobre a venda e propaganda do produto.

Alguns deles tentaram marchar em direção ao Parlamento, gritando mensagens contrárias ao governo, mas foram dispersados pela polícia.

Islamização sutil

Os Estados Unidos expressaram preocupação em relação ao modo como o governo turco está lidando com os protestos. A Anistia Internacional condenou as táticas adotadas pela polícia.

O polêmico projeto de revitalização do parque Gezi – que deu início à onda de violência – prevê a retirada de árvores para realizar obras com o objetivo de aliviar o trânsito de veículos nas imediações da praça Taksim.

Opositores do projeto disseram que o parque é uma das poucas áreas verdes preservadas em Istambul.

Correspondentes afirmaram que a questão colocou em evidência o descontentamento das camadas mais jovens da população contra o governo e o partido AK – devido ao que chamam de uma islamização sutil do país.

Na semana passada, o Parlamento turco aprovou uma legislação que restringe a venda e o consumo de bebidas alcoólicas entre 22h e 6h.

No mês passado, a polícia entrou em choque com milhares de pessoas que participavam de uma passeata de primeiro de maio em Istambul.

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