Agiotas e pijamas fazem o dia a dia da cidade mais pobre do Reino Unido

Nottingham. Crédito: BBC
Image caption Nottingham é um terreno fértil para a ação de agiotas

Muitos associam a cidade de Nottingham, no centro da Inglaterra, à lenda de Robin Hood, o arqueiro infalível que assaltava os ricos que passavam pelos bosques ao norte da cidade para dar o dinheiro roubado aos pobres. Ou, ainda, ao romance O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, que retrata a região.

No entanto, Nottingham tem ultimamente ganhado notoriedade na Grã-Bretanha por um outro motivo: segundo os dados mais recentes do Escritório Nacional de Estatísticas do país, os moradores de Nottingham tem a menor renda líquida, descontados os impostos, de todo o país.

A renda média anual das pessoas na Grã-Bretanha, incluindo-se aí os benefícios sociais, é de 16.034 libras (cerca de R$ 52.152). Em Nottingham é de 10.834 libras (aproximadamente R$ 35.238).

Um dos locais onde a realidade de pobreza de Nottingham pode melhor ser vista é o bairro de Meadows, ao sul do centro, onde proliferam conjuntos habitacionais para pessoas de baixa renda.

Desespero

Não é surpreendente que a área de habitações populares seja um território fértil para ação de agiotas. Em Meadows, eles são os melhores amigos das pessoas na vizinhança.

Sharon Mills, do Meadows Partnership Trust, uma organização financiada pelo governo que oferece ajuda aos residentes daquela área, explica o porquê.

"Se você está desesperado com os filhos que não comem há três dias e alguém bate à sua porta oferecendo um empréstimo, ele é visto como um Messias", disse.

Mills descreve essas pessoas como uma verdadeira "alcateia", dispostas a recorrer à intimidação para recuperarem seu dinheiro.

"Eles sabem até mesmo o dia em que as pessoas recebem seus salários e assim vem literalmente botando a porta a baixo em alguns casos".

Às três da tarde de pijama

Muito pouca gente no bairro pode se dar ao luxo de ter algum divertimento.

Ao longo dos anos, Meadows tem ganhado uma reputação de ambiente violento devido à presença de drogas e álcool.

Porém, mais que isso, o que parece ser uma mais constante é a falta de dinheiro dos moradores.

"Veja, são três da tarde e você vê gente por todo lado de pijama. Isso é uma desolação", afirmou Rachael Oldfield, uma mãe solteira de 35 anos que trabalha meio período como auxiliar administrativa.

Rachael conta que seus momentos mais difíceis são quando chega o dia do pagamento.

"Sempre estou esperando por este momento, planejando me divertir, sair para jantar com amigos. Porém, tenho que cancelar os planos, porque senão gasto todo meu dinheiro."

Sonhando com o sol

Rachael recebe seu salário no final do mês. No início do mês seguinte já não tem quase nada: seu pagamento se foi para pagar todas as contas. Ela sobrevive com aproximadamente 140 libras (cerca de R$ 455) em benefícios pagos pelo governo, o que é garantido pelos impostos que paga. Além disso, recebe outras 134 libras (aproximadamente R$ 435) como benefício para os filhos.

Ela deve 2,5 mil libras (pouco mais de R$ 8,1 mil) em contas de água e luz, que está pagando aos poucos.

Image caption Muitos em Meadows podem se dar ao luxo de ter algum divertimento

Ainda assim, Rachael não se considera uma pessoa sem sorte. Sua filha vai bem na escola e seu filho joga futebol.

Outro sinal evidente da pobreza em Meadows está na escassez de qualquer tipo de luxo.

Adbul Haq sofre de diabetes e artrite e sobrevive com a pensão do governo por invalidez. Sonha como muitos outros em viajar para outros lugares.

"Não saio de férias há seis anos. Adoraria ir a algum lugar quente, mas não é possível."

Esperança

Recentemente foi inaugurado um banco de comida que ajuda as necessidades básicas dos mais pobres. O resultado da ação diminuiu os roubos de pão e leite nos supermercados.

Mas nem todos são otimistas. David Gretton, que trabalha em um órgão do governo que oferece aconselhamento aos moradores do bairro, teme o impacto dos cortes nos benefícios sociais que o governo autorizou mês passado.

"Em três ou quatro meses vamos ver mais oficiais de justiça, porque as pessoas deixaram de pagar impostos", lamenta Gretton.

Sharon Milles crê que os cortes de benefícios deste ano tornarão a vida dos residentes de Meadows ainda mais dura.

Ainda assim, o bairro consegue pequenos espaços de esperança. Em um centro comercial da área pode se ver um cartaz gigante que informa que Meadows é finalista de um concurso nacional de horticultura.

Se as plantas se demonstrarem tão resistentes como os residentes do bairro, seguramente Meadows levará o primeiro lugar.

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