Sem data para avançar, Mercosul convive com insatisfação e dúvidas

A presidente da Argentina,. Cristina Kirchner, e a presidente Dilma Rousseff (Roberto Stuckert Filho/ABr)
Image caption Tensão entre Brasil e Argentina seria um dos motivos da paralisação do Mercosul

O adiamento da próxima reunião de cúpula do Mercosul, anunciada nesta semana, ocorre em um momento em que o bloco ─ formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela ─ vive um momento de insatisfação de seus membros e de dúvidas sobre seu futuro.

A cúpula estava prevista para junho e agora permanece sem data definida, com previsão para agosto ou setembro, de acordo com assessores do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai.

Oficialmente, o adiamento foi anunciado para dar tempo para que o presidente eleito do Paraguai, Horacio Cartes, participe do encontro após tomar posse, em agosto. O país foi suspenso do bloco em junho passado.

Por questões internas, a Venezuela (cujo status oficial como membro pleno ainda depende de aprovação pelos paraguaios) também teria pedido mais tempo antes de assumir a presidência temporária do Mercosul.

No entanto, analistas e fontes ligadas aos países-membros destacaram a existência de vários motivos de insatisfação, que se somam a sinais de que o Uruguai está buscando ampliar sua participação em outro bloco, a Aliança do Pacífico (formada por Chile, Colômbia, Peru e México).

'Nova etapa'

"O grupo tem dado sinais de estar paralisado e de não ter condições de fechar acordos com outros blocos", disse o professor de relações internacionais da Universidade da Republica, de Montevidéu, Marcel Villant.

"Mas acho que este adiamento responde a uma questão institucional, para dar tempo ao Paraguai para que tenha novo presidente empossado."

Para o professor de Relações Comerciais e Internacionais da Universidade Tres de Febrero, de Buenos Aires, Felix Peña, o Mercosul está terminando a "etapa de fundação" para entrar em uma nova etapa "que não sabemos qual será".

Esta etapa inclui, como chamou, "ruídos" entre o Brasil e a Argentina e a atenção que o Uruguai tem dado à Aliança do Pacífico.

Brasil e Argentina

Segundo observadores brasileiros, nos últimos dias, o mal-estar do Brasil com a Argentina está ligado à decisão do governo da presidente Cristina Kirchner de estatizar as ferrovias do país que estavam desde os anos 1990 sob a concessão de uma empresa brasileira, a ALL (América Latina Logística).

Nos bastidores do governo brasileiro, em Brasília, afirmaram que a medida era “esperada”, mas o que surpreendeu foi a forma como foi anunciada, sem aviso às autoridades brasileiras, o que teria aumentado a "desconfiança" entre os dois países.

Brasil e Argentina costumam ser apontados por assessores dos governos e por especialistas como "âncoras" do bloco.

Devido a estas e outras diferenças com a Argentina, o Brasil apoiou o adiamento da reunião, como contaram assessores governamentais.

Além da ALL, a lista de insatisfações do Brasil com seu sócio inclui medidas do governo argentino que levaram à suspensão de investimentos da companhia de mineração Vale no país vizinho e à manutenção da exigência da Declaração Juramentada Antecipada de Importações (DJAI), que atrasa as vendas do Brasil para o mercado vzinho.

Aliança do Pacífico

Alguns setores do governo e do empresariado brasileiro reforçam a visão de uma paralisação no bloco.

Segundo eles, outros grupos estão avançando nos entendimentos enquanto o Mercosul está “preso” a questões como as disputas entre Brasil e Argentina e as dificuldades (atribuidas no Brasil à Argentina e na Argentina ao Brasil) a acordos como entre o bloco e a União Europeia.

“Definitivamente não é um momento glorioso do Mercosul”, disseram negociadores brasileiros do bloco sul-americano.

Por sua vez, o vice-presidente do Uruguai, Danilo Astori, disse que seu país está interessado em “passar de observador para membro pleno” da Aliança do Pacífico, informou nesta semana a imprensa uruguaia. O bloco comercial foi lançado no ano passado.

“O problema é que enquanto dois sócios do bloco (Argentina e Venezuela) estão voltados para questões internas como controle de câmbio, outros querem avançar, mas veem o Mercosul limitado, como é o caso do Uruguai”, disse Marcel Villant.

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