'Pescador de mortos' vem recolhendo corpos há mais de dez anos na Colômbia

Angel Segundo Hernandez, o "pescador de mortos" (Crédito: Arturo Wallace/BBC Mundo)
Image caption Chaín, o "pescador de mortos", recolheu mais de 50 corpos entre 2001 e 2004

Localizada nas terras remotas da Província de Narino, na Colômbia, não muito longe da costa do Oceano Pacífico, a vila ribeirinha de Bocas de Satinga tem no Rio Sanquianga seu principal meio de transporte.

Tudo chega no vilarejo pelo rio: comida, combustível, roupas e... cadáveres.

"Tinha dia em que eu pescava dois ou três corpos", conta o morador Ángel Segundo Hernández.

Com 79 anos de idade, o pescador, mais conhecido como "Chaín", vem retirando cadáveres do Rio Sanquianga por mais de uma década.

Ele afirma que o pior período foi entre 2001 e 2004, quando grupos paramilitares de extrema-direita chegaram à região para lutar contra a guerrilha marxista das Farc (Forças Armadas Revolucionárias Colômbia).

"Durante estes quatro anos... oh, menino, isso foi muito triste. Eu juro que cheguei a tirar do rio mais de 50 corpos", relembra Chaín.

Narino é a província da Colômbia com a maior densidade de plantações de coca - a planta base para se produzir cocaína. E é também a principal porta de saída para o Pacífico, por meio de barcos motorizados, que contrabandeiam a droga para a América Central e os Estados Unidos.

Image caption Chain ajuda no trabalho de identificação de Bocas de Satinga

Sua importância estratégica para o tráfico de drogas, principal fonte de renda tanto para os grupos paramilitares de extrema direita, quanto para os rebeldes das Farc, fez de Narino um dos lugares mais perigosos da Colômbia.

Por isso, o grosso das operações do Exército colombiano - com as quais o governo quer pressionar os grupos rebeldes que participam das negociações de paz em Havana, Cuba - são realizadas nesta região.

E não são apenas as Farc, o Exército e grupos paramilitares de direita que operam aqui.

O segundo maior grupo rebelde do país, o Exército para Libertação Nacional (ELN), também atua em Narino.

Gillian McCarthy, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, diz que com tantos grupos armados operando, "tem sempre algo acontecendo" na área.

"A coisa mais óbvia são os corpos não identificados no cemitério, os 'sem nome' (como são chamados os cadáveres não identificados na Colômbia)", afirma.

Homicídios

A violência é ainda mais evidente na cidade-porto de Tumaco, que fica a três horas de barco de Bocas de Satinga.

Image caption Sigla NN, que siginifica "ningun nombre", nenhum nome

Na cidade, todos dizem que até as velhas senhoras que alugam telefones celulares e vendem doces nas ruas precisam pagar uma taxa de extorsão tanto para as Farc como para o ELN e outros grupos paramilitares.

E com um índice de homicídio tão alto ─ são 136 casos para cada 100 mil habitantes, o que representa quase quatro vezes a média de toda a Colômbia ─, a equipe de identificação de cadáveres nunca tem falta de trabalho.

"Teve um ano em que nós tivemos que fazer 420 exames de autópsia", afirma o médico-legista Antonio Sarama, que trabalha na cidade há oito anos.

"E os homicídios são apenas a ponta do iceberg... Nós também temos problemas como extorsão, sequestro e estupro".

Nos últimos dias, Sarama praticamente se dedicou a atender vítimas de minas antipessoais colocadas para proteger as muitas plantações de coca em Tumaco.

Mas a maioria dos cadáveres que chegam à sua mesa são vítimas da violência vinculada ao narcotráfico, dos matadores de aluguel que os grupos utilizam para saldar suas contas e marcar seu território.

Seja como for, o fluxo dos mortos é tão grande que o pequeno cemitério de Tumaco não dá conta da "demanda".

Os coveiros são obrigados a remover e se desfazer dos restos mortais de "sem nome" que se acumularam no local para abrir espaço para os mortos recém-chegados.

Identificação

Image caption Sarama acredita que os homicídios são apenas a 'ponta do iceberg'

De fato, uma das consequências de quase meio século de conflito é a estimativa que existam cerca de 40 mil cadáveres não identificados na Colômbia. E nem todos cuidaram deles com a mesma dedicação de Chaín.

“Eu faço isso poque essa é minha maneira de ser. Porque me entristece ver um cadáver descendo e ter que deixá-lo ir, que se vá para baixo”, disse Chaín, sentando em uma das sepulturas do cemitério de Bocas de Satinga.

E atrás dele dá para ver algumas das lápides brancas com as letras “NN”, que são usadas para localizar parte dos 58 mortos não identificados que ele mesmo se encarregou de enterrar – frequentemente com a ajuda de seu amigo Menelio Cuenú – neste humilde cemitério.

As lápides foram colocadas lá com a ajuda do Comitê Internacional da Cruz Vermelha para ajudar a identificação dos mortos sem nome de Bocas de Satinga.

Para Chaín, um projeto do Instituto Colombiano de Medicina Legal que terá como objetivo identificar os restos sepultados em 65 cemitérios de 13 departamentos do país, começando por Bocas de Satinga, é uma excelente notícia.

“Na Colômbia, nem sei quantos milhares de desaparecidos existem. E o governo prometeu indenizar os familiares de todas essas pessoas depois que elas forem identificadas. Essa conversa cai como uma luva para os parentes”, diz o pescadore de mortos de Satinga.

“Infelizmente, não será possível conseguir (identificar) todos. Mas eu espero os familiares daqueles que forem recebam uma ajuda.”

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