Contraste entre estádio e rua marca vitória do Brasil em Fortaleza

Manifestante participa de protesto próximo ao Castelão, em Fortaleza (foto: AP)
Image caption Tranquilidade dentro do Castelão contrastou com protestos e tumultos do lado de fora

A tranquilidade do lado de dentro da Arena Castelão, em Fortaleza, durante o jogo entre Brasil e México na tarde desta quarta-feira, não poderia contrastar mais com o cenário de guerra vivido a poucos quilômetros dali - onde cerca de 30 mil pessoas participaram de um protesto contra os gastos públicos para a Copa do Mundo de 2014.

O protesto começou às 10h e somente foi dispersado quando o jogo já estava em andamento, por volta das 16h30.

Nos momentos de maior tensão, entre 12h30 e 13h30, carros foram queimados e pedras atiradas por manifestantes na direção da polícia, que respondeu com bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral, além de spray de pimenta e balas de borracha. Houve feridos dos dois lados.

A vitória sobre o México, por 2 a 0, foi o segundo jogo do Brasil na Copa das Confederações - competição que serve como espécie de ensaio para a Copa do Mundo do ano que vem, com o teste dos estádios e da infraestrutura preparados para o torneio.

Entre os 60 mil torcedores dentro do estádio, havia um mar de camisas amarelas do Brasil, algumas poucas centenas de camisas verdes do México e apenas um punhado de cartazes com apoio às manifestações.

Os organizadores do protesto haviam pedido para que os torcedores levassem para dentro das arenas da Copa das Confederações as manifestações que vêm marcando a competição do lado de fora.

Medo

O protesto popular, concentrado numa das barreiras policiais ao redor do Castelão, a três quilômetros de distância do estádio, chegou a assustar alguns torcedores. Eles tiveram que atravessar a manifestação e o cordão de isolamento da polícia para chegar à arena, depois de caminhar por mais de meia hora sob o sol escaldante de Fortaleza a uma temperatura de 30 graus.

"Deu um pouco de medo de passar pelos manifestantes, mas eles foram respeitosos e estavam deixando os torcedores passar", disse à BBC Brasil o vendedor mexicano Juan José Ghibesi, de 30 anos, que está acompanhando os três jogos da seleção de seu país na Copa das Confederações.

Ghibesi já havia assistido ao jogo entre México e Itália no domingo, no Rio de Janeiro, mas disse que não chegou a ver as manifestações que também ocorreram nas proximidades do Maracanã antes daquela partida. "Não esperava encontrar um protesto desses pela frente", disse.

Vestido com roupas típicas mexicanas, incluindo um sombrero gigante, e carregando uma enorme bandeira de seu país, o comerciante Amancio Vilchis, de 51 anos, lamentou a realização dos protestos. "Nós viemos aqui nos divertir, mas temos que enfrentar essas dificuldades", comentou.

Apesar disso, ele afirmou que os brasileiros têm sido amáveis com ele e que os problemas maiores têm sido de organização e falta de informações. "Estou vendo a mesma desorganização aqui que havia na Copa do Mundo da África do Sul", disse ele, que já havia acompanhado a seleção mexicana no último mundial, em 2010.

Vilchis disse já ter desistido de seu plano de acompanhar novamente uma Copa do Mundo, no ano que vem. "Tive muitos problemas, esperei quatro horas no aeroporto do Rio para retirar meus ingressos, perdi meu voo no Rio por falta de informações e estou achando tudo muito caro. Acho que na Copa do Mundo vai ser ainda pior e tudo estará mais caro ainda", afirmou.

'Miséria'

Image caption Pequeno grupo de torcedores faz protesto dentro de estádio em jogo do Brasil

Do lado dos manifestantes, muitos faziam questão de afirmar que os protestos não eram contra a realização da Copa no Brasil, mas contra o uso de verbas públicas para as obras relacionadas ao torneio - enquanto muitos serviços públicos sofrem com falta de investimentos.

"A gente pode viver sem a Copa, mas não sem saúde e educação. Ninguém aqui é contra a Copa, mas sim contra os gastos públicos para a Copa, que são um desrespeito à população", disse o porteiro José Armando Gomes , de 37 anos.

Para o ambulante Gutnir Guimarães, de 35 anos, a realização da Copa do Mundo no Brasil "só serve para roubarem dinheiro". "Enquanto isso, não temos investimentos no nosso país e o povo vive na miséria nas áreas da saúde e da educação", afirmou.

Entre os torcedores brasileiros, muitos se diziam solidários com os protestos, mas preferiram cumprir com a determinação da Fifa, responsável pela Copa das Confederações e pela Copa do Mundo, de não permitir manifestações políticas dentro dos estádios.

Outros se diziam céticos com as manifestações. "O Brasil não se tornou corrupto por causa da Copa. Já havia corrupção antes e vai haver depois", afirmou o médico Átila Campos, de 39 anos, enquanto caminhava para o Castelão com a mulher, a também médica Vivian Cristine Campos, de 36 anos.

Para Átila Campos, a preparação da Copa trouxe também alguns benefícios. "Em cinco meses, a prefeitura alargou e ampliou esta avenida ao lado do estádio. Isso não teria acontecido se não fosse a Copa", disse. Ainda assim, ele observa que é justo que as pessoas “briguem para que, assim como liberaram verbas rapidamente para a Copa, liberem para a saúde, para a educação, para todo o resto”.

Apoio à seleção

Dentro do Castelão, os torcedores novamente enfrentaram os problemas já verificados no jogo anterior do Brasil, como longas filas nas lanchonetes, falta de comida e bebida e telefonia instável.

Durante o jogo, os torcedores brasileiros manifestaram um grande apoio à seleção brasileira, que correspondeu com uma vitória relativamente tranquila contra a maior pedra no sapato do Brasil na última década.

Desde 2001, as duas seleções haviam se enfrentado 11 vezes, com seis vitórias do México e apenas três do Brasil. Nenhuma outra seleção ganhou tanto do Brasil nesse período.

No sábado, a seleção brasileira volta a campo, desta vez em Salvador, para enfrentar a Itália na última rodada da fase de classificação da Copa das Confederações.

Mais uma vez, as atenções devem estar divididas entre a atuação da equipe dentro de campo e os arredores do estádio Fonte Nova, onde são esperados novos protestos.

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