Fortaleza tem protesto e confronto em dia de jogo da Seleção

Confronto entre policiais e manifestantes em Fortaleza | Foto: AP
Image caption Polícia entrou em confronto com cerca de 30 mil manifestantes

Tropas de choque e da cavalaria da Polícia Militar do Ceará entraram em confronto nesta quarta-feira com manifestantes a 3 km da Arena Castelão, em Fortaleza, onde o Brasil venceu o México nesta quarta-feira por 2 a 0 pela Copa das Confederações.

Houve tumulto e vários feridos. A PM diz que os manifestantes – que seriam pelo menos 30 mil, segundo a polícia – jogaram pedras nos policiais, que por sua vez usaram bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, spray de pimenta e balas de borracha contra eles.

Ao menos oito policiais ficaram feridos no ponto de bloqueio da PM em que o repórter da BBC Brasil estava posicionado.

Agências de notícias publicaram fotos de PMs e manifestantes com sangue no rosto, e os jornais locais Diário do Nordeste e O Povo Online divulgaram imagens do jornalista cearense Pedro Rocha, que foi atingido por uma bala de borracha no olho enquanto cobria a manifestação.

Os protestos ocorreram no mesmo dia em que diversas cidades brasileiras voltaram a registrar manifestações, entre elas São Paulo, onde a Rodovia Anchieta foi bloqueada e centenas saíram às ruas em bairros e cidades da periferia logo pela manhã.

Em Belo Horizonte, manifestantes fazem terceiro protesto desde o início da semana e pararam o centro da cidade.

No fim da tarde, milhares de pessoas também se reuniram para uma manifestação em Niterói, no Rio de Janeiro.

Corre-corre

Duas avenidas que dão acesso à Arena Castelão foram bloqueadas, e os dois sentidos da BR-116 também foram interrompidos. Muitos desistiram de assistir ao jogo após a polícia usar spray de pimenta na ação.

Image caption Jornalista e policiais ficaram feridos durante o conflito próximo ao Castelão

O coronel João Batista Bezerra dos Santos, um dos chefes da operação em Fortaleza, disse que em grande parte o protesto foi pacífico e que a orientação era não deixar os manifestantes se aproximarem do Castelão.

Ele explicou que ao menos 500 homens da PM foram destacados para a operação e que a repressão aumentou depois que alguns manifestantes começaram a jogar tijolos e pedras contra os policiais.

"As bombas foram usadas por causa das pedras. Temos que pensar no público que vem ao estádio", disse o coronel, acrescentando que levou muitas pedradas, inclusive na direção do capacete.

No início da tarde era possível observar muita gente, corre-corre, helicópteros, bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral e viaturas de polícia e ambulâncias chegando o tempo todo à região do confronto. Os torcedores não estavam conseguindo entrar no estádio, mas depois o acesso a ele foi normalizado.

A assessoria de imprensa da PM do Ceará confirmou à BBC Brasil, por telefone, que os policiais atuaram para conter os manifestantes que "tentaram furar os bloqueios e se aproximar o máximo do estádio".

Transtornos e infraestrutura

Muitos dos manifestantes eram moradores do entorno da Arena Castelão, descontentes com os mesmos temas que têm sido levantados em outras manifestações ao redor do país, como os gastos públicos da Copa do Mundo e corrupção, mas sobretudo insatisfeitos com as obras em seu bairro.

Image caption Moradores do entorno do estádio reclamam de transtornos causados por obras

Para o porteiro José Armando Gomes , de 37 anos, que nasceu na região, os moradores perderam mais do que ganharam. "A gente pode viver sem a Copa, mas não sem saúde e educação. Ninguém aqui é contra a Copa, mas sim contra os gastos públicos para a Copa, que são um desrespeito à população", disse.

Gomes citou problemas trazidos pelas obras que, ironicamente, deveriam ser alguns dos maiores legados do Mundial à população. "A infraestrutura da região mudou um pouco, mas os transtornos que isso causou foram piores do que os benefícios", avalia.

A BBC Brasil ouviu queixas de outros moradores, que reclamaram de falta de água e de maior vulnerabilidade a enchentes após as obras, além de revolta ao verem um caminhão-pipa e funcionários da prefeitura lavando escovando a avenida de acesso ao estádio nos últimos dias.

Surpresa e temor

Turistas que vieram ao estádio demonstraram espanto com a confusão. "Foi uma surpresa chegar com esse protesto, mas foi tranquilo, e tanto os manifestantes quanto a polícia abriram passagem para nós", diz o empresário mexicano Ezequiel Gomez, de 40 anos, que viaja com um grupo de mais quatro adultos e três crianças.

Em sua primeira viagem ao Brasil, a família, que assistiu à partida entre México e Itália no Maracanã, diz que continuará acompanhando os jogos e que deve assistir à próxima partida do de sua selação pela Copa das Confederações, contra o Japão, no sábado, em Belo Horizonte.

Alec Yuri, de 22 anos, veio de Campinas e diz que passou medo. "Achei que ia ser mais fácil entrar. Acho legal protestar, mas tem que ter bom senso", diz o estudante, que deixa claro que não participaria das manifestações. "Cada um quer uma coisa, assim fica muito difícil".

Image caption Torcedores mexicanos dizem temer que Mundial não aconteça

Já os mexicanos Roberto e Ansuette Serrano, de 48 e 47 anos, respectivamente, mostraram satisfação com as boas-vindas dos brasileiros, mas se disseram preocupados com o Mundial, no ano que vem.

"Diziam que era perigoso, e tínhamos medo da violência, mas os brasileiros são muito solícitos", diz o empresário. Quanto à Copa do Mundo, no entanto, Ezequiel não é tão otimista. "Temo pelo que vai acontecer em 2014. Espero que não cancelem o Mundial", disse à BBC Brasil.

Jogadores da seleção brasileira também se manifestaram a respeito dos protestos em todo o país. Nessa quarta-feira, o atacante Neymar deixou uma mensagem em seu perfil do Instagram, rede social de fotos. Sobre a imagem de uma bandeira brasileira, ele disse que está "triste por tudo o que está acontecendo no Brasil" e que entrará em campo contra o México "inspirado por essa mobilização".

Horas antes, em coletiva de imprensa, o atacante Hulk disse que os protestos são positivos, desde que pacíficos. "As manifestações têm toda a razão, temos que ouvi-los. O Brasil pode melhorar em muitas coisas. Sentimos porque sabemos que é verdade."

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