Tema de protesto no sábado divide brasileiros em Paris

Reprodução de página do Facebook que convoca para protestos (crédito: Facebook)
Image caption Possíveis participantes de protesto em Paris estão discutindo a ação no Facebook

Brasileiros radicados em Paris têm participado nos últimos dias de acalorados debates no Facebook sobre um protesto que foi marcado para este sábado na capital francesa, em meio à decisão dos organizadores de tirar da pauta da manifestação o tema corrupção.

Cerca de sete mil pessoas já confirmaram presença por meio da rede social no evento, em solidariedade às manifestações realizadas no Brasil nos últimos dias.

Inúmeras propostas de temas foram apresentadas. Elas vão desde a PEC 37 (medida que retira o poder do Ministério Público de realizar investigações criminais) à oposição ao deputado Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Mas foi a questão da luta contra a corrupção que mais acirrou os ânimos nas discussões. Alguns chegaram até a pedir para que o evento seja boicotado.

"Não é uma manifestação contra a corrupção", afirmaram os organizadores na página da "Manif (como os franceses abreviam manifestação) contra a truculência policial no Brasil, pelo direito à cidade e em apoio ao Passe Livre", no Facebook.

"Claro, todos somos contra a corrupção, mas é preciso ser mais específico: de qual corrupção estamos tratando? De qual governo? Das empresas? Dos mercados financeiros e das empreiteras?", questionam os organizadores.

"Como não houve debate sobre isso, sugerimos que os interessados (em protestar contra a corrupção) se articulem e promovam um outro evento", disseram os organizadores.

Política

Fernanda Vilar, estudante de literatura da Universidade de Nanterre, que integra o comitê de organização do protesto em Paris, disse em entrevista à BBC Brasil que a decisão de excluir a corrupção da pauta tem o objetivo de evitar que a manifestação adquira um caráter político e possa ser interpretada como um movimento contra o governo.

"Muita gente queria protestar contra a corrupção. Mas vimos que no Brasil isso está sendo utilizado por alguns veículos de mídia para veicular discursos contra o governo. Nosso movimento é apartidário, ninguém está ligado ao PT ou ao PSDB, e não quisemos dar esse tipo de conotação", disse Vilar.

"Somos contra o estado da situação geral do país, mas não contra o Estado em si", afirmou a organizadora.

Mas, para João Victor Oliveira, um dos brasileiros que haviam mostrado interesse em participar do evento, "se for para proibir protesto democrático, então eu e mais 500 que haviam confirmado aqui (no Facebook) que vão participar não irão".

"Eu vou protestar contra a corrupção sim e se quiserem me expulsem de lá", disse.

Passe Livre

A organizadora afirmou ainda que nos documentos exigidos pela Secretaria da Segurança Pública de Paris para a realização da manifestação era necessário justificar os motivos dos protestos.

"Enviamos os documentos às autoridades policiais no sábado passado, no momento em que os protestos em São Paulo se concentravam no movimento do passe livre nos transportes", disse Vilar, acrescentando que os temas dos protestos no Brasil só foram ampliados no início desta semana.

"Se para participar do protesto é preciso apoiar totalmente e exclusivamente o movimento do passe livre, então peneire bem os 10 ou 20 manifestantes que só estão com isso na cabeça", afirmou outro interessado em participar do evento, Marcelo Duarte. Ele disse não ter ainda uma posição sobre a tarifa zero nos transportes.

"Não é por isso que estou indo à manifestação e não é por isso que a maioria das pessoas está indo às ruas no Brasil. Os 20 centavos foram apenas o estopim", disse Duarte.

"Discutimos muito se deveríamos mudar os temas do protesto. Prefirimos não incluir a corrupção, mesmo que isso provoque desistências e resulte em um número menor de manifestantes", afirmou Vilar.

A organização do protesto parisiense optou por concentrar o tema do evento no tema das gratuidade das passagens no transporte público "porque em muitas cidades o aumento das tarifas ainda não foi revogado".

Os organizadores também devem defender mais investimentos nos transportes e outros serviços público, além de protestar contra a violência policial.

A organização afirma que não irá expulsar ninguém do protesto em Paris, que será realizado na tarde deste sábado (horário local) na Praça da Nação, e que o evento "é livre".

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