Rússia e China negam ajudar ex-técnico da CIA

Edward Snowden | Foto: AFP
Image caption Ex-técnico da CIA, Edward Snowden revelou sistema de espionagem dos Estados Unidos

Após pressão do governo americano, que busca a extradição do ex-técnico da CIA Edward Snowden, China e Rússia negaram tê-lo ajudado, e o governo russo disse que o fugitivo, que supostamente estaria em um hotel do aeroporto de Moscou aguardando decisão do Equador sobre pedido de asilo político, nunca cruzou as fronteiras do país.

A polêmica ganhou novo fôlego na segunda-feira, quando jornalistas constataram que Snowden, que tinha comprado uma passagem em um voo da companhia aérea russa Aeroflot de Moscou para Havana, em Cuba, não estava no avião.

Acredita-se que ele pretenda fazer o trajeto Moscou-Havana-Caracas, até chegar à capital do Equador, Quito, tão logo receba a luz verde do governo equatoriano, que já concedeu asilo político a Julian Assange, criador do site WikiLeaks – atualmente refugiado na embaixada equatoriana em Londres.

A Casa Branca criticou Pequim e Moscou pelo que classificou como "uma escolha deliberada de libertar um fugitivo apesar de um mandado de prisão válido". Já o secretário de Estado americano, John Kerry, disse que "haveria, sem dúvida, algum efeito e impacto sobre o relacionamento e as consequências" das relações diplomáticas entre os EUA e esses países caso seja comprovado que eles permitiram a fuga de Snowden.

Rússia

Image caption Chanceler da Rússia, Sergei Lavrov rejeitou críticas e ameaças do governo americano

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, rejeitou as acusações de Washington como "inaceitáveis e sem embasamento".

"Não estamos envolvidos com Snowden de forma alguma, nem em suas relações com a Justiça dos EUA, nem em suas movimentações ao redor do mundo. Ele mesmo escolheu seu itinerário. Ficamos sabendo através da mídia", disse o chanceler Lavrov, insistindo que o Americano nunca cruzou território russo.

Este comentário tem sido interpretado por analistas como um sinal de que Snowden possa estar de fato dentro do aeroporto internacional de Moscou, em trânsito, enquanto aguarda uma resposta do Equador.

China

Pequim tomou posição semelhante, já que o primeiro destino do americano foi Hong Gong, ilha que desde 1997 tem o status de Região Administrativa Especial da China e detém certa autonomia administrativa e econômica.

Pequim responde por sua política externa e de defesa, mas parece ter deixado para a ex-colônia britânica e seu sistema legal o ônus da decisão sobre o ex-funcionário da CIA, no que analistas interpretaram como uma tentativa de evitar o confronto direto com os EUA.

Em editorial, o jornal oficial do Partido Comunista Chinês teceu duras críticas ao governo americano. "De certa forma, os Estados Unidos deixaram de ser de um ‘modelo de direitos humanos’ para tornarem-se ‘bisbilhoteiros da privacidade pessoal’, os ‘manipuladores’ do poder centralizado sobre a internet internacional, e os insanos ‘invasores’ das redes de outros países", diz o periódico.

Escândalo

A cada parada que Edward Snowden faz tentando escapar de autoridades americanas, abre uma potencial frente de tensões diplomáticas com os Estados Unidos.

Ex-funcionário da CIA - onde trabalhou como técnico em segurança digital - Snowden delatou um sistema secreto de monitoramento de informações pessoais nos quais membros da Agência Nacional de Segurança americana (NSA, na sigla em inglês) teriam acesso direto a servidores de nove grandes empresas de internet, incluindo Google, Microsoft, Facebook, Yahoo, Skype e Apple.

Para escapar de um processo, no início de maio Snowden fugiu do Havaí, onde morava, para Hong Kong - de onde teria denunciado o esquema de espionagem para o jornal britânico The Guardian e o americano Washington Post.

Há alguns dias, o ex-funcionário da CIA permitiu que o Guardian revelasse sua identidade, o que permitiu que uma investigação criminal fosse aberta contra ele na Justiça americana.

Os Estados Unidos oficializaram, então, um pedido de extradição contra Snowden, mas ele conseguiu viajar para Moscou na manhã de domingo e, nesta segunda-feira, o chanceler equatoriano Ricardo Patiño confirmou que teria pedido asilo a seu país.

Tensão

As relações bilaterais entre Washington e Moscou já estão tensionadas por causa das diferenças sobre como proceder em relação ao conflito sírio.

Por isso, não é surpresa que autoridades russas tenham feito declarações indicando uma falta de disposição em colaborar nesse caso, nas quais também citaram a recente aprovação da chamada lei Magnitsky - que congela os ativos de russos acusados de violações aos direitos humanos.

"Os laços (entre os Estados Unidos e a Rússia) estão em um estágio complicado e numa fase como essa, em que um país está tomando medidas hostis em relação ao outro, porque os EUA esperariam qualquer entendimento por parte da Rússia?", disse, segundo a Reuters, Alexei Pushkov, presidente do comitê de política exterior da câmara baixa do Parlamento russo.

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