ElBaradei é nomeado novo premiê do Egito

Protesto no Egito (Foto Reuters)
Image caption Protesto no Egito: número de mortos já passaria de 30

O líder da principal oposição egípcia, o liberal Mohamed ElBaradei, deve se tornar o premiê interino do Egito em meio à crise do país. Sua posse deve ocorrer ainda neste sábado.

A agência estatal Mena informou que ele está reunido com o presidente interino do país, Adly Mansour, três dias após um golpe militar ter derrubado o governo do islamita Mohammed Morsi - primeiro presidente eleito democraticamente do Egito. O presidente vivia forte crise de popularidade.

Desde então, o país tem vivido dias de violência e incerteza política.

ElBaradei, ex-líder da agência nuclear da ONU, encabeça uma coalizão de partidos liberais e esquerdistas.

Em entrevista à BBC na quinta-feira, ele defendeu o golpe militar e a deposição de Morsi, alegando que, apesar de ser "uma medida dolorosa que ninguém queria", "Morsi minou sua própria legitimidade ao se autodeclarar um faraó (em aparente referência às medidas de Morsi para aumentar seu poder)".

"Então entramos em uma queda de braço, e não em um processo democrático", afirmou.

Ainda não está claro se a nomeação de ElBaradei acalmará as tensões no país, já que simpatizantes de Morsi convocaram uma nova manifestação em massa contra a deposição do presidente.

Apelo

Ainda neste sábado, a ONU e os Estados Unidos fizeram um apelo pelo fim dos choques que já deixaram mais de 30 mortos e centenas de feridos no Egito.

Image caption Baradei deve tomar posse ainda neste sábado

Os conflitos mais violentos ocorreram na sexta-feira. Neste sábado, multidões ainda ocupam algumas ruas e praças do país. E protestos maiores estão previstos para esta tarde.

O departamento de Estado dos EUA conclamou os líderes egípcios a acabarem com a violência e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu mais proteção aos manifestantes - em especial às mulheres.

"Conclamamos todos os líderes egípcios a condenarem o uso da força e evitarem mais violência entre seus simpatizantes", disse, em um comunicado, o porta-voz da chancelaria americana, Jen Psaki.

O comunicado de Ban Ki-moon mencionou "relatos horripilantes de violência sexual".

"O secretário-geral acredita firmemente que este é um momento crítico, em que é imperativo que os egípcios trabalhem juntos para fazer um retorno pacífico ao controle civil, à ordem constitucional e à governabilidade democrática", diz o documento, divulgado pelo porta-voz de Ban Ki-moon, Farhan Haq.

"Os líderes políticos do Egito têm a responsabilidade de sinalizar, por meio de suas palavras e suas ações, seu compromisso com um diálogo pacífico e democrático."

Irmandade Muçulmana

Morsi foi detido pelas Forças Armadas, juntamente com outras figuras importantes de seu movimento Irmandade Muçulmana.

Também neste sábado, Khairat el-Shater, vice-líder da Irmandade Muçulmana, foi preso em sua casa no Cairo por suspeita de incitamento à violência.

O Exército egípcio também publicou um comunicado em sua página no Facebook negando que alguns comandantes estejam fazendo pressão sobre os altos escalões das Forças Armadas do país para um reestabelecimento do governo de Morsi.

"Esses rumores surgem em um contexto em que boatos e mentiras são espalhados em uma guerra de informação travada contra as Forças Armadas com o objetivo de dividir suas fileiras e acabar com sua coesão", diz o comunicado.

Em meio às tensões, o ex-presidente Hosni Mubarak foi levado a um tribunal para responder a acusações de corrupção e envolvimento na morte de manifestantes nos protestos que o derrubaram, em 2011.

O julgamento, porém, foi adiado até 17 de agosto.

Conflito

Na sexta-feira, pelo menos 12 pessoas morreram e 200 ficaram feridas em conflitos na cidade mediterrânea de Alexandria. Outras oito morreram em dois confrontos no Cairo.

O editor da BBC para Oriente Médio, Jeremy Bowen, testemunhou um dos conflitos e foi atingido na orelha por chumbos de espingarda.

Tropas egípcias teriam aberto fogo contra uma multidão que avançava para a sede da Guarda Republicana, onde muitos acreditavam que Morsi estaria preso.

Na quinta-feira, Mansour, o presidente do tribunal constitucional do Egito, foi empossado como chefe de Estado interino e prometeu convocar novas eleições em breve.

No dia seguinte, porém, ele dissolveu a câmara alta do Parlamento egípcio, dominada por partidários Morsi e que vinha servindo como o único órgão legislativo após a dissolução da Câmara dos Deputados, no ano passado.

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