Mortes eliminam possibilidade de consenso pós-golpe no Egito

Manifestante no Egito
Image caption Mortes no Cairo intensificam polarização política no país

As mortes de pelo menos 51 pessoas em um tiroteio perto de um quartel do Exército no Cairo, nesta segunda-feira, ampliam as incertezas em relação ao futuro político do país, que contempla o cenário criado pelo golpe de Estado que afastou o presidente Muhammed Morsi na semana passada.

De acordo com o correspondente da BBC Wyre Davis, independentemente do que realmente tenha ocorrido, as cenas de violência na capital egípcia destruíram completamente qualquer remota esperança de estabelecimento de uma governo de consenso após o golpe.

Davis diz que, nos subúrbios no leste do Cairo, as mortes provocaram revolta, com a percepção de injustiça. Os líderes do movimento político Irmandade Muçulmana, ao qual é ligado Morsi, reagiu aos acontecimentos pedindo que seus simpatizantes continuem protestando nas ruas e participem de atos de desobediência civil.

O país parece cada vez mais polarizado. Milhares de pessoas que compareceram à Praça Tahrir nas últimas semanas e apoiaram o golpe mantêm-se determinados em sua oposição à Irmandade Muçulmana.

Por outro lado, Davis acredita que dificilmente o país verá um levante armado semelhante a uma Intifada, como os organizados por palestinos nos territórios ocupados por Israel.

Versões

Em uma declaração lida na TV, o líder interino do Egito, Adly Mansour, lamentou os “incidentes dolorosos” desta segunda-feira e pediu calma à população.

Ele reiterou a versão dos fatos sustentada pelo exército, de que as mortes ocorreram quando os militares reagiram a uma tentativa de invasão do quartel onde fica a guarda presidencial.

O porta-voz do Exército, coronel Ahmed Mohammed Ali, disse que um grupo armado com coquetéis molotov, pedras e armas de fogo atacou as forças de segurança, deixando dois policiais e um soldado mortos, além de oito soldados em estado crítico.

Ele acrescentou que um soldado havia levado um tiro na cabela, com o projétil sendo disparado de cima para baixo – o que seria uma indicação de que franco-atiradores colocados em prédios vizinhos estariam sendo usados pelos manifestantes.

A Irmandade Muçulmana, por sua vez, diz que manifestantes que realizavam um protesto pacífico foram atacados pelos soldados.

O Partido Liberdade e Justiça, o braço político da Irmandade, fez um novo apelo para que os egípcios se revoltem contra “aqueles tentando roubar sua revolução com tanques”.

Outro partido, o Nour, de linha radical islâmica, qualificou as morte de “massacre” e se retirou das negociações para a escolha de um primeiro-ministro interino.

Segundo a correspondente da BBC Lyse Doucet, no Cairo, os dois lados têm vídeos que sustentam suas respectivas versões, mas o que é importante, agora, é em qual delas as pessoas estão acreditando.

Cronograma

Também nesta segunda-feira, Mansour apresentou um cronograma para a realização de novas eleições.

A proposta prevê que uma comissão para realizar uma reforma na constituição deve ser formada dentro de 15 dias. As mudanças decididas pela comissão teriam que ser submetidas à população em um referendo, que teria que ser realizado num prazo de quatro meses.

Isso criaria condições para que eleições gerais pudessem ser relizadas por volta de fevereiro.

Morsi foi afastado do poder em um golpe de Estado na quarta-feira passada. Os militares, que alegam que não pretendem permanecer no poder, disseram ter agido em resposta aos pedidos de manifestantes em todo o Egito, que acusavam o presidente se estar se tornando autoritário e não ter conseguido dar alento à economia.

O político à Irmandade Muçulmana se tornou no ano passado o primeiro presidente democraticamente eleito da história do Egito.