Partidários de presidente deposto enfrentam forças de segurança no Egito

Image caption Ex-líder do Egito está detido em local secreto sem nenhuma foto ou declaração sua divulgada

Apesar da morte de dezenas de manisfestantes, os partidários do presidente deposto, Mohammed Morsi, continuam desafiando as forças de segurança, que ameaçam acabar com ocupação pacífica na área ao redor da mesquista Rabaa al-Adawiya, no Cairo.

A Irmandade Muçulmana - grupo muçulmano ao qual Morsi pertence - falou em alto-falantes aos manifestantes durante a noite, e disse que não abrirá mão de suas demandas.

Eles querem que Morsi - retirado do poder pelo exército no dia 3 de Julho - seja reintegrado.

Segundo o Ministério da Saúde do Egito, foram 78 mortes nos confrontos de sábado, mas os médicos estimam que mais de 100 pessoas foram mortas.

O governo negou que as forças de segurança tenham disparado tiros contra os manifestantes no sábado, e disseram que apenas gás lacrimogêneo foi usado.

Mas o correspondente da BBC no Cairo, Quentin Sommerville, disse que essa informação parece falsa, levando em consideração a gravidade e o número de feridos.

Enquanto isso, os Estados Unidos expressaram profunda preocupação com o derramamento de sangue - o pior desde o afastamento de Morsi.

O Secretário de Estado americano, John Kerry, condenou a violência e apelou às autoridades egípcias para "respeitar o direito de reunião pacífica e a liberdade de expressão".

Discursos apaixonados

O porta-voz da Irmandade Muçulmana, Gehad el-Haddad, disse à BBC que "centenas de milhares de homens, mulheres e crianças" estavam envolvidos no protesto pacífico ao redor da mesquita.

Ele disse: "Independentemente do que acontecer com o presidente, vamos continuar nosso protesto. Nossos números estão aumentando a cada dia, os cidadãos estão reconhecendo a tirania e o perigo de um golpe militar a longo prazo."

De acordo com a correspondente da BBC, Yasmine Abu Khadra, no Cairo, o clima agora está calmo, no entanto os manifestantes criaram sua própria área de segurança usando barricadas.

A mensagem dos líderes da Irmandade Muçulmana durante a noite era de que as forças de segurança eram as responsáveis pelas mortes de sábado porque se sentiram ameaçados pelo ocupação. Os palestrantes disseram que a multidão não deve ter medo pois a manisfestação é por uma causa justa.

Haddad disse que os manifestantes vão continuar exigindo a reintegração de Morsi, e acrescentou: "Pode levar semanas, meses, ou mais de um ano - mas não vamos desistir".

O ministro do Interior, Mohammed Ibrahim, disse aos simpatizantes para "cairem em si" e irem para casa.

Ele disse que ações legais contra os manifestantes movidas por moradores da região próxima a mesquita, criaram uma cobertura legal para a ordem de desocupação.

Duas figuras importantes que apoiaram a remoção do Presidente Morsi liderada pelo exército condenaram os assassinatos.

O Imã de Al-Azhar - a mais alta autoridade sunita no Egito - já pediu uma investigação, enquanto que o vice-presidente do governo interino, Mohamed ElBaradei, disse que uma força excessiva havia sido usada.

Os confrontos de sábado parecem ter começado quando alguns manifestantes pró-Morsi tentaram estender sua área de segurança com barricadas e as forças de segurança responderam.

Os médicos de um hospital próximo a região, disseram à BBC que eles acreditavam que cerca de 70% das mortes foram causadas por armas de fogo - com muitas das vítimas atingidas no peito ou na cabeça por franco-atiradores posicionados em telhados.

"Assassinato premeditado"

Mohamed Morsi, o primeiro presidente democraticamente eleito do Egito, foi removido pelo exército após protestos em massa contra seu governo.

Desde 3 de julho, ele está detido em local secreto, sem que nenhuma foto ou declaração sua fosse divulgada.

Nesta sexta-feira, veio à tona a primeira informação sobre seu status judicial: segundo a agência oficial egípcia Mena, Morsi foi agora acusado de conspirar com o grupo radical islâmico palestino Hamas por supostamente atacar prisões egípcias e libertar islamistas durante a revolução de 2011, quando o ex-presidente Hosni Mubarak foi derrubado.

Morsi está sendo tecnicamente detido por acusações de traição, por, em conjunto com o grupo palestino, "atear fogo a uma prisão, permitir a fuga de prisioneiros, incluindo ele mesmo (libertado de um presídio no Cairo em janeiro de 2011), e matar de forma premeditada policiais, soldados e prisioneiros", diz a Mena.

Inicialmente, ele será questionado por um período de 15 dias, segundo a ordem judicial.

O correspondente da BBC no Oriente Médio Jim Muir explica que a acusação oferece uma justificativa oficial para a prisão de Morsi, num momento em que potências ocidentais e a ONU vinham pressionando para que o presidente deposto fosse libertado caso não houvesse nenhuma queixa formal contra ele.

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