A cronologia dos problemas de organização na JMJ

Copacabana | Foto: AFP
Image caption Mais de 3 milhões de pessoas lotaram praia de Copacabana ao final da JMJ

A Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que terminou no último domingo com missa para mais de 3 milhões de pessoas em Copacabana, foi pontuada por problemas de organização.

Na sexta-feira, transcorridos já alguns dias do maior evento do mundo direcionado a jovens católicos, a infraestrutura da cidade foi posta à prova, segundo o prefeito Eduardo Paes, que deu nota "perto de zero" no quesito organização.

Veja, abaixo, uma cronologia dos contratempos envolvendo a organização do evento.

'Segurança papal'

As falhas começaram na segunda-feira da semana passada, logo após o papa Francisco chegar ao Brasil.

O comboio papal, que saiu da base aérea do Aeroporto Internacional do Galeão, na Ilha do Governador, com direção à Catedral Metropolitana, no Centro, ficou preso em um engarrafamento.

Especialistas em segurança avaliaram que a situação expôs o pontífice ao perigo, uma vez que centenas de pessoas cercaram o veículo.

Na ocasião, em nota conjunta, a prefeitura, a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos e o Ministério da Justiça creditaram a retenção à escolha do próprio Vaticano.

Segundo o comunicado, a interdição da via que seria usada pelo comboio papal não estava prevista.

Mas, no domingo, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, embora tenha avaliado o esquema de segurança como bem-sucedido, admitiu ter havido uma falha no dia em que o pontífice chegou. Cardoso afirmou que o problema ocorreu por um erro na comunicação entre o centro de controle do governo do Estado e a prefeitura.

Peregrinos e transporte

Na terça-feira, quando a jornada foi oficialmente aberta, o metrô, principal meio de deslocamento dos devotos à praia de Copacabana, ficou parado por duas horas devido ao rompimento de um cabo de energia.

Image caption Agnes de Andrade e Josiane Scharneski (segunda e terceira à esq.) reclamaram dos banheiros na JMJ

A pane atrasou a chegada de milhares de fiéis que participariam da missa inaugural, presidida pelo arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta.

Ao final da cerimônia religiosa, os problemas voltaram a se repetir. Peregrinos contaram ter tido novas dificuldades com o transporte público.

Eles afirmaram que o metrô e os ônibus não foram suficientes para atender às cerca de 1 milhão de pessoas que lotaram a praia de Copacabana para assistir à missa de acolhida.

Superlotação

As queixas quanto à superlotação do transporte público continuaram na quinta e na sexta, quando o papa Francisco participou da festa de acolhida e da Via Crúcis, também na orla de Copacabana.

Nesses dois dias, o metrô montou um esquema especial de venda de bilhetes com horários pré-determinados, o que ajudou a facilitar o deslocamento dos peregrinos.

Mesmo assim, em algumas estações, era possível ver longas filas no início da tarde, horas antes do início dos eventos.

Image caption Filas antecederam espera de até 40 minutos da entrada à plataforma em estação de metrô

Apesar da espera, a operação melhorou no domingo. Nas imediações da estação Cardeal Arcoverde, em Copacabana, a mais próxima do palco principal, grades de proteção foram colocadas para facilitar e organizar a entrada dos passageiros.

Em diversos pontos da rota, dentro e fora da estação, agentes do metrô controlavam o deslocamento dos fiéis.

A reportagem da BBC Brasil testou o acesso à estação Cardeal Arcoverde no domingo e demorou 40 minutos para percorrer a distância entre a entrada e a plataforma de embarque no trem.

Vigília e alagamentos

Quem passou a noite na praia de Copacabana, após a vigília realizada de sábado para domingo, reclamou ainda da falta de banheiros químicos.

Um grupo de peregrinos de Curitiba, no Paraná, afirmou que a quantidade de toaletes era insuficiente para o número de pessoas.

Image caption Local que abrigaria acampamento de peregrinos e eventos finais da JMJ virou "mar de lama"

"Eram necessários mais banheiros químicos. As filas estão muito grandes", afirmaram à BBC Brasil as curitibanas Agnes de Andrade, de 19 anos, e Josiane Scharneski, de 22 anos, que dormiram no local.

No início da manhã de domingo, à medida em que os peregrinos acordavam, também tinham de se deparar com o mau cheiro, uma vez que muitos dos banheiros químicos vazaram por causa da alta demanda.

Muitas das estruturas não puderam ser transferidas para Copacabana após o anúncio da mudança dos dois últimos grandes eventos da JMJ para o bairro (previstos inicialmente para ocorrerem no Campus Fidei, em Guaratiba) devido aos alagamentos que criaram um verdadeiro mar de lama no local originalmente previsto para receber a fase final da Jornada.

Na última sexta-feira, a prefeitura decidiu transferir a vigília e a missa de encerramento para a orla depois que fortes chuvas atingiram a grande área aberta na zona oeste do Rio, local que seria o destino da peregrinação de 13 quilômetros – tradicional nas jornadas.

Por causa da alteração, os fiéis também tiveram de fazer um novo percurso de 9,5 quilômetros, que começou na Central do Brasil, no centro da cidade, e terminou em Copacabana.

Protestos

Na noite de segunda-feira, após o papa Francisco deixar o Palácio Guanabara, sede do governo estadual do Rio, houve confrontos entre manifestantes e a polícia. Muitos jovens pediam a renúncia do governador Sérgio Cabral.

Image caption Insuficientes, banheiros químicos começaram a vazar na praia de Copacabana, disseram peregrinos

A tropa de choque da polícia atirou balas de borracha e lançou bombas de efeito moral contra os manifestantes.

Um repórter da agência de notícias France Presse ficou ferido. Ele diz ter levado um golpe de cassetete de um policial, mesmo depois de ter se identificado como jornalista.

Vídeos que circulam na internet mostram feridos. Tanto os manifestantes quanto a imprensa voltaram a denunciar a presença de policiais infiltrados (chamados de P2) em meio aos protestos.

Balanço das autoridades

Apesar de todos os problemas, as autoridades fizeram um balanço positivo da estrutura montada para receber a visita do papa.

Em entrevista a jornalistas, o secretário-geral da Presidência da República, ministro Gilberto Carvalho, afirmou que a presidente Dilma Rousseff ficou satisfeita com a organização do evento, especialmente em relação a segurança, uma de suas maiores preocupações.

Carvalho reconheceu que houve falhas na infraestrutura, mas prometeu mais planejamento para evitar a repetição de erros nos próximos grandes eventos.

"Eu acho que a dificuldade maior se apresentou no transporte. Houve problemas com banheiros químicos, uma porção de falhas desse tipo, mas nem de longe apagaram o brilho e o sucesso da Jornada".

Ele também repetiu declaração feita pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, que disse ser "impossível" reunir grandes multidões sem filas e aglomerações.

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