As armas químicas e o dilema de Obama na Síria

Barack Obama (foto: AP)
Image caption O governo americano está reticente para intervir na Síria e enfrenta baixa pressão interna.

Há um ano, o presidente Barack Obama disse que se Bashar al-Assad usasse armas químicas na Síria ele estaria cruzando a linha vermelha, levando os Estados Unidos a recalcularem sua posição.

E agora, a linha vermelha foi cruzada? Ninguém sabe ao certo a resposta.

Embora o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, tenha dito que os EUA estão "chocados" com os relatos "horríveis" vindos da Síria, isso não significa que Obama irá se pronunciar a respeito da morte de centenas de pessoas sob suspeita de ataque químico.

A Casa Branca pediu ao governo de Assad que coopere plenamente com os inspetores da ONU.

Questionado se a imprensa teria acesso a Obama durante seu tour de ônibus no qual promove a baixa dos custos de educação superior, Earnes disse: "À medida que consideramos as decisões de política doméstica, e consideramos as decisões da política externa, o presidente coloca os interesses dos Estados Unidos da América em primeiro lulgar".

"O fato de estamos promovendo esse tour de ônibus é uma indicação de que o presidente têm clara suas prioridades", disse.

Isso então significa que Obama não quer falar da Síria. E nós perdemos outra chance para entender a política da Casa Branca para o conflito.

O principal conselheiro militar de Obama, general Martin Dempsey, cancelou uma coletiva de imprensa. Talvez ele tenha ficado ocupado para planejar os próximos passos em relação à Síria. Talvez não.

'Muitos lados'

Dempsey mostrou-se muito claro, em uma recente carta a um deputado, que uma ação militar na Síria não é algo desejável.

"Sobre a Síria, não se trata de escolher entre dois lados, mas de escolher um entre muitos lados", disse.

"Acredito que o lado que escolhermos deve estar pronto para promover os interesses deles e os nossos quando o balanço de forças pender a favor deles. Hoje isso não acontece", disse.

Obama claramente tem um problema à sua frente e será acusado de omissão e indecisão.

O senador republicano John McCain disse que Obama jogou sombras sobre a linha vermelha que estabeleceu ao não responder militarmente aos relatos anteriores de ataques, que teriam culminado no último incidente.

"Nossos amigos e inimigos, seja no Oriente Médio ou no resto do mundo, estão questionado se a América tem a vontade e a capacidade de fazer o que diz", disse.

"Esse desenrolar perigoso tem impacto nos interesses de segurança nacional dos Estados Unidos e dos nossos maiores aliados, caso continuemos a assistir passivamente o conflito enquanto Assad continua a usar armas químicas contra seu próprio povo. Nós apenas vamos encorajar outros governos brutais a fazer uso de medidas torpes contra seus próprios povos", disse.

"É tempo de os Estados Unidos ajudarem o povo sírio", disse.

Inflexão

Para o editor de Oriente Médio da BBC, Jeremy Bowen, este é um momento crítico e o Irã estará de olho se Obama cumpre as ameaças de ação militar.

Eu acho que Obama não irá para o front.

A filosofia de Obama o alerta contra qualquer intervenção no Oriente Médio. A política doméstica indica que os americanos não querem envolvimento em outro conflito.

Envolver-se enfraqueceria seus esforços de ser o presidente que trouxe de volta para casa as tropas do Iraque e do Afeganistão.

E ai tem o argumento do general Dempsey: com quem o Ocidente se aliaria?

Parece haver um ponto de inflexão nesse momento em que há uma forte afronta moral.

Ainda que haja, no entanto, um ânimo para reação na Grã-Bretanha e na França, isso não acontece nos Estados Unidos.

Tenho certeza de que há planos para um uso discreto de forças especiais para barrar armas químicas, mas não está claro como isso se daria.

De todo modo, Obama deve tentar seguir o ritual da ONU a fim de garantir o máximo apoio a qualquer eventual ação. E isso significa esperar o relatório dos inspetores da ONU na Síria.

Eu posso estar equivocado. Os bombardeiros poderiam estar a caminho da Síria nesse momento.

Mas, por ora, os planos de Obama são apenas para o custo das universidades e um "melhor pacto para a classe média".

Eu suspeito que a linha vermelha é na verdade mais espessa do que se pensava.

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