Entre 'simbolismo e realidade', Obama discursa no mesmo local de Luther King

Passeata em Washington celebra 50 anos de discurso de Martin Luther King (AFP)
Image caption Pobreza ainda é mais acentuada entre negros americanos

Ao discursar no memorial ao presidente Lincoln, em Washington, nesta quarta-feira, o presidente dos EUA, Barack Obama, caminha mais uma vez sobre a linha que separa o homem do símbolo no contexto da história americana.

Homenageando o aniversário do famoso discurso I Have a Dream, proferido por Martin Luther King Jr. da escadaria do mesmo monumento 50 anos antes, o próprio Obama representa a evolução dos direitos civis dos negros americanos neste meio século.

O presidente fala, no entanto, a um país onde os negros ainda são desproporcionalmente afetados por males econômicos e sociais.

Cinquenta anos atrás, Martin Luther King Jr. referiu-se às desigualdades raciais históricas como uma dívida da sociedade americana com os afro-americanos.

Disse, em seu famoso discurso, que os autores da Constituição e da Declaração da Independência americanas prometeram a todos os americanos - negros e brancos - a garantia de direitos inalienáveis de vida, liberdade e busca da felicidade. Mas acrescentou que, em vez disso, o país deu um cheque sem fundo à população negra.

Dívida histórica

Meio século depois, é indiscutível que o primeiro presidente negro represente a conquista de espaços que meio século antes permaneciam inacessíveis para os negros americanos.

Mas quanto da dívida a que se referia Martin Luther King terá sido paga ao fim dos oito anos de governo Obama?

A pobreza continua mais acentuada entre os negros: engloba 26% da população afro-americana, contra 14% de brancos e 11,6% da população geral em 2011, segundo o Censo.

A pobreza também atinge 37,4% das crianças negras, comparado a uma taxa de 22% para a população geral.

Os negros são mais afetados pelo desemprego (12,6% em julho, contra 6,6% entre brancos e 7,4% entre a população geral) e compõem a maior parte da população carcerária (cerca de 40%, sendo que compreendem 14% da população).

Estatísticas semelhantes estão disponíveis para outros aspectos socioeconômicos.

Apesar disso, têm sido visto recentemente na sociedade americana o desmantelamento de algumas conquistas na esteira do movimento por direitos civis nos anos 1960.

Neste ano, o Supremo americano inverteu a lógica das ações afirmativas nas universidades, obrigando as instituições a comprovar que as suas medidas trazem benefícios – antes, cabia a quem disputasse as ações o ônus de argumentar contra elas.

A Corte também derrubou recentemente partes da lei aprovada em 1965 para coibir a discriminação nos procedimentos eleitorais.

A decisão facilita que nove Estados, a maioria no sul americano com histórico de racismo, aprovem mudanças no processo eleitoral que, antes, tinham de passar por escrutínio federal.

Tensões raciais

Os Estados Unidos de Barack Obama são também um país onde as tensões raciais ainda voltam à superfície – como após a absolvição de George Zimmerman, um patrulheiro voluntário branco que matou o adolescente negro Trayvor Martin, na Flórida, após segui-lo e confrontá-lo.

A absolvição de Zimmerman ocorreu dentro da lei – seus advogados construíram seus argumentos com base na tese de autodefesa.

Mas o profundo ressentimento da comunidade negra americana no caso – a indignação pela possibilidade de que Trayvor Martin tenha levantado desconfiança e sido abordado simplesmente pela cor da sua pele – permanece sem resposta.

Coincidência ou não, foi pouco depois da conclusão do júri que Obama anunciou a sua homenagem a Luther King Jr. no exato local onde o ícone da luta afro-americana proferiu seu histórico discurso.

"É importante reconhecer que a comunidade afro-americana está vendo esse tema (a absolvição de Zimmerman) pelo prisma de uma série de experiências e uma história que não desaparecem", desabafou Obama a repórteres, em uma participação não anunciada na sala de briefings da Casa Branca.

"Poucos afro-americanos", ele frisou, nunca tiveram de passar por constrangimentos como serem seguidos pela segurança em uma loja de departamentos, notarem mulheres agarrando-se às bolsas na sua presença, ou perceberem que motoristas de carros estacionados travaram as portas quando eles passaram.

"Isto aconteceu comigo", solidarizou-se o presidente. "Sabe, não quero exagerar, mas estas experiências influenciam a forma como a comunidade afro-americana interpreta o que aconteceu naquela noite na Flórida. E é inevitável que as pessoas tragam à tona suas próprias experiências."

Do símbolo à realidade

É nestes momentos que Obama dá sinais de querer transitar da sua posição de símbolo para agente na evolução dos negros na sociedade americana. Sua homenagem a Martin Luther King Jr., nesta quarta, é outra oportunidade.

Mesmo com uma enxurrada de votos em 2008 e em 2012, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos nunca teve o luxo de governar sem pisar em ovos na questão da discriminação racial. Seria jogar água no moinho de uma oposição radical que já o acusa de estrangeiro, comunista, antiamericano.

De fato, a identidade de Obama, filho de um queniano negro e uma branca americana, criado no Havaí e tendo passado boa parte da sua infância na Indonésia, é complexa.

Porém, como o próprio presidente lembrou, isso não o livrou de experiências discriminatórias como milhões de outros negros americanos.

Essas experiências contribuíram para a formação do senador que fez sua trajetória política trabalhando nos subúrbios pobres ao sul de Chicago, majoritariamente negros e castigados por pobreza, violência e ausência de perspectivas.

Quando o agora presidente fala ao país da escadaria do monumento a Lincoln, ele está inevitavelmente medindo o simbolismo da sua chegada ao poder com os resultados concretos dessa trajetória.

Em última instância, é um exame de quanto se fizeram valer as palavras de Martin Luther King Jr. meio século antes - as famosas palavras de seu "sonho" de que seus filhos sejam julgados não pela cor da pele, mas pelo seu caráter.

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