Por que é tão difícil jogar futebol em climas extremos

Jogadores iraquianos treinam no Catar (AFP)
Image caption Receio sobre efeito do calor em atletas e torcedores pode provocar mudança na Copa 2022

Ganhou força a ideia de transferir a Copa do Mundo do Catar, em 2022, para o período do inverno no país - entre novembro e janeiro -, de forma a evitar as altas temperaturas do verão, que chegam a 50ºC e poderiam trazer riscos à saúde de atletas e torcedores.

Nesta quinta-feira, a Uefa (associação europeia de futebol) apoiou a mudança do Mundial - tradicionalmente disputado em meados do ano, no verão do hemisfério Norte - para o inverno.

A proposta causa polêmica entre algumas ligas, que temem que a mudança atrapalhe seus calendários, mas ainda terá de ser decidida pelo comitê-executivo da Fifa.

Mas ela levanta uma questão: como é jogar futebol em condições extremas, sejam elas o verão intenso, temperaturas abaixo de zero ou mesmo a 3 mil metros de altitude?

Da América Central à Finlândia

O atleta Victor Turcios nasceu no calor de El Salvador, mas hoje joga no Rovaniemen Palloseura FC, da Finlândia, o time de futebol mais ao norte do continente europeu.

A localização geográfica expõe a equipe a temperaturas de até - 25ºC, e a temporada do campeonato finlandês começa justamente em janeiro, no auge do inverno.

A preparação física do volante salvadorenho é bem diferente da de seus colegas: ele tem de fazer um trabalho específico com seu preparador físico, com musculação e exercícios aeróbicos, para manter um ritmo de jogo que não o afete demais.

"Quando jogo em campo aberto a -5ºC, noto a diferença no meu corpo", diz Turcios à BBC Mundo. "É mais difícil respirar e sinto as pernas mais pesadas."

Ele conta que, quando as temperaturas caem mais, os jogos passam a ser realizados em estádios fechados - o ar extremamente frio nos pulmões os impediria de jogar. "Seria muito arriscado."

Para evitar problemas, o salvadorenho tem de monitorar constantemente seus batimentos cardíacos e seu sistema circulatório, além de fazer exames de sangue.

Image caption Jogar em temperaturas mais baixas exige treinamento especial

Ao mesmo tempo, jogar em um clima tão extremo pode colocar Turcios e seus companheiros de equipe em vantagem.

"Para qualquer equipe que venha jogar aqui, é difícil render 100% (de sua capacidade física) como fariam em seu clima natural", diz o jogador. "(O clima) afeta até algumas equipes da própria Finlândia da capital ou do sul do país."

Suor e fadiga

Enquanto Turcios tem de lidar com dores no pulmão quando joga em um clima extremamente frio, um jogador de futebol de regiões muito quentes enfrenta outro problema: o suor.

Quando faz muito calor, o corpo reage aumentando o fluxo sanguíneo na superfície da pele, levando do calor de dentro do corpo à superfície. Isso é o suor.

Se a temperatura externa passa da barreira dos 39º ou 40ºC, o cérebro ordena aos músculos que baixem o ritmo - o que leva à fadiga.

Uma pessoa que corre a 15 km/h em temperaturas superiores a 37ºC precisa produzir 4 litros de suor por hora.

Jamie Pringle, fisiologista do Instituto do Esporte da Inglaterra, explica à BBC que quanto melhor for a forma do jogador, mais apto ele estará para lidar com o calor.

"O treinamento ajuda a aumentar o volume de sangue no corpo", diz. Por isso, um atleta de elite pode chegar a ter entre 10 e 12 litros de sangue no corpo, o dobro de uma pessoa comum.

Um jogador profissional, que passa por treinamento rigoroso e cria grande volume de sangue, suará mais e, assim, esfriará mais rápido sua temperatura corporal quando subirem os termômetros.

Image caption Em La Paz (acima), dificuldade é se adaptar às altas altitudes

Mas é preciso lembrar que o calor também faz os pés incharem, e a pressão atmosférica exige mais força para realizar o mesmo movimento. "Ou seja, o jogador se cansa mais rápido", explica o médico esportivo Guillermo Aponte.

Menos oxigênio

Aponte entende como o corpo muda em situações extremas: ele é médico do clube CF Bolívar, de La Paz, na Bolívia, e seus atletas jogam a mais de 3,6 mil metros acima do nível do mar.

Nessa altitude a pressão atmosférica é menor, o que tem seus efeitos no organismo.

"É preciso observar a frequência respiratória e cardíaca (dos atletas)", explica Aponte, já que, nos jogadores adaptados, elas são um pouco mais altas do que seriam no nível do mar.

O jogador tem que se adaptar à disponibilidade menor de oxigênio e "usar mecanismos diferentes para produzir energia", segundo o médico.

O processo de adaptação do jogador à altitude leva de 20 a 25 dias, com um plano de treinamento que mescla exercícios aeróbicos e anaeróbicos.

"Outro fator importantíssimo é que, ao estar sob menor pressão, há menor fricção no ar. Por isso, ele precisa de menos energia para produzir potência quando chuta a bola ou necessita de velocidade", agrega.

Se por um lado esses atletas estão em vantagem quando enfrentam adversários em casa, eles sofrem em grau maior os efeitos da mudança quando jogam em baixas altitudes.

"O ato de baixar implica em vários processos fisiológicos", diz Aponte. "A pressão sanguínea diminui, e isso causa mais sono e, de certa forma, diminui o estado de lucidez."

Segundo o especialista, em geral para um jogador de futebol é muito mais difícil jogar em alturas mais baixas do que subir de altitude, jogar no mesmo dia e logo ir embora.

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