Consultoria atribui ausências em leilão do pré-sal a restrições à operação

Image caption Regras que determinam que Petrobras será operadora obrigatória afugetaram companhias

A ausência das gigantes petrolíferas ExxonMobil, Chevron, BP e BG no leilão do campo de Libra foi recebida com surpresa pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), mas não por analistas internacionais.

Segundo o analista T J Conway, da consultoria Energy Intelligence Group, as novas regras adotadas pelo Brasil em 2010, que determinam que Petrobras será operadora obrigatória da área e deverá ter pelo menos 30% de participação em qualquer consórcio vencedor, acabam afastando grandes empresas.

"Não estou surpreso com o resultado", disse Conway à BBC Brasil.

"Grandes empresas como Chevron, BP e ExxonMobil, estão particularmente interessadas nos direitos de operar campos tão grandes como este. Mas o fato de a Petrobras ser a operadora obrigatória limita a competição significativamente."

Marcado para 21 de outubro, o leilão será o primeiro de exploração de petróleo na região do pré-sal realizado sob o regime de partilha de produção, aprovado em 2010.

Acredita-se que o Campo de Libra, localizado na Bacia de Campos, represente a maior descoberta de petróleo do Brasil, capaz de produzir de 8 bilhões a 12 bilhões de barris de petróleo.

A diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), Magda Chambriard, disse que esperava a participação de pelo menos 40 empresas no leilão.

No entanto, apenas 11 pagaram a taxa de inscrição de R$ 2 milhões até o fim do prazo, na quinta-feira.

Além da Petrobras, participam do leilão Shell (anglo-holandesa), Total (francesa), Repsol/Sinopec (hispano-chinesa), Ecopetrol (colombiana), Petrogal (portuguesa), Petronas (malaia), ONGC Videsh (indiana), Mitsui (japonesa), CNOOC e CNPC (chinesas).

Espionagem

O fato de nenhuma empresa americana ter participado do leilão, realizado poucas semanas após a divulgação de denúncias de que os EUA estariam espionando a Petrobras, chamou a atenção.

Parlamentares brasileiros chegaram a apresentar projetos pedindo a suspensão do leilão.

No entanto, Conway diz não considerar este aspecto.

"Se observamos a decisão das empresas (de ficar de fora da disputa) apenas do ponto de vista puramente estratégico, veremos que faz sentido", afirma.

Conway observa que, além da questão da operação do campo, há vários custos extras.

As novas regras determinam que o governo brasileiro terá participação total de 75% na receita do projeto, o que inclui 40% do lucro do petróleo e R$ 15 bilhões em bônus que o vencedor do leilão terá de pagar pelo direito de exploração, além de impostos e contribuições sociais.

As regras também estabelecem restrições como um percentual mínimo de componentes nacionais na operação.

Conway observa ainda que a operação no setor de hidrocarbonetos no Brasil envolve desafios importantes, como capital humano e infra-estrutura.

"Isso tudo, em combinação, levanta questões sobre como os custos vão aumentar no futuro, sobre o ritmo do desenvolvimento que é possível. São questões que podem gerar preocupação para as empresas", diz.

O analista ressalta, porém, que o leião terá a participação de algumas grandes empresas, como Shell e Total.

Segundo Conway, o fato de as gigantes americanas e britânicas não participarem do leilão abre oportunidades para outras empresas.

"Entre as 11 empresas que se inscreveram, vemos grande participação de estatais", observa.

"E em muitos casos são empresas que não têm capacidade de operar um projeto tão grande ou, pelo menos, não estão preocupadas com a impossibilidade de operar esses projetos (já que a Petrobras é a operadora única). O que querem é acesso a grandes volumes", afirma.

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