Ação de grupo ligado à Al Qaeda expõe disputa entre rebeldes sírios

Militante do Exército Livre da Síria (Reuters)
Image caption Militante do Exército Livre, cuja disputa com outro grupo pode influenciar ação do Ocidente

Os opositores do Exército Livre da Síria, são expulsos de uma cidade na fronteira da Turquia com a Síria. Vários de seus homens são mortos, dezenas de outros são capturados. Dentro da cidade, há ativistas da oposição e pessoas que testemunharam e gravaram os conflitos. Membros do tribunal da Sharia (a Justiça religiosa islâmica) são detidos.

A sucessão de fatos soa como uma descrição de uma ofensiva bem-sucedida por parte do regime sírio. Mas, na verdade, o Exército Livre da Síria perdeu a cidade de Azaz, na fronteira com a Turquia, para o autoproclamado Estado Islâmico no Iraque e na Síria, ou ISIS (na sigla em inglês), o grupo rebelde mais linha-dura e ligado à Al Qaeda.

Para se ter uma ideia da força dos jihadistas em Azaz, uma testemunha dentro da cidade confidenciou que ninguém mais fumava nas ruas – já que o tabaco é proibido pela rígida doutrina islâmica.

Tudo isso começou quando um integrante ferido do ISIS, ou de seu aliado, o al-Muhajireen, foi encaminhado a um hospital de campanha em Azaz.

No local, médicos alemães atuam há vários meses.

O rebelde é então filmado por um dos médicos alemães ou por alguém documentando o trabalho deles com o intuito de manter o financiamento da iniciativa.

Ele exige a entrega do filme. Diante da hesitação, ele chama alguns de seus amigos para ajudá-lo. Mas rebeldes do ELS, de uma unidade chamada Brigada Tempestade do Norte, estão fazendo a guarda da clínica. Há troca de tiros. Segundo relatos iniciais, dois combatentes do Muhajireen são mortos (um tunisiano e outro líbio, de acordo com tuítes de ativistas em Azaz).

Em resposta, o "emir" da ISIS, o mais importante comandante jihadista na área, que acredita-se ser natural do Kuait, ordenou um ataque aos rebeldes que protegiam a clínica.

Jornalistas 'inimigos'

O ISIS e o Muhajireen acusaram a pessoa que filmava o atendimento médico de ser jornalista - uma acusação extremamente perigosa na Síria, já que grupos jihadistas mais extremos veem os jornalitas ocidentais como espiões.

Image caption Dissidências entre os rebeldes podem beneficiar governo sírio, diz correspondente da BBC

Eles acreditam que jornalistas ocidentais estão indo para a Síria para obter informações estratégicas para ataques com mísseis e drones (aeronaves não tripuladas).

Um comentário recém-postado em um fórum jihadista anunciou que "jornalistas são os inimigos do mujahedin na Síria e mundialmente". Qualquer jornalista ocidental deve ser preso e punido de acordo com a Sharia, acrescentava o comentário.

Histórico de confrontos

A luta na cidade de Azaz parece ter evoluído, acidentalmente, para fora desse conjunto de circunstâncias, em vez de ter sido parte de uma ofensiva planejada há muito tempo.

Ainda assim, há um longo histórico de confrontos entre os jihadistas e o Exército Livre da Síria sobre o controle dos postos de fronteira com a Turquia (juntamente com toda a renda do contrabando e do roubo de carregamentos de assistência humanitária).

As tensões estão aumentando. Um alto comandante do Exército Livre da Síria foi recentemente morto a tiros em uma discussão com "emir" do ISIS nas proximidades da cidade de Idlib.

Na semana passada, o grupo jihadista emitiu uma fatwa (decreto religioso) anunciando a chamada operação "Banimento à Hipocrisia" contra o Exército Livre da Síria em cidades como al-Bab e em Aleppo, ambas não muito longe de Azaz.

Controle

De acordo com panfletos distribuídos pelos combatentes do Estado Islâmico do Iraque e da Síria, a operação seria uma ofensiva contra duas brigadas FSA acusadas de "ataques covardes contra os benevolentes mujahedin".

Um confronto também irrompeu entre os dois grupos em outra cidade importante, Dayr az Zawr.

O Estado Islâmico do Iraque e da Síria parece estar no controle de Azaz no momento, embora as Brigadas Tempestade do Norte e Tawhid, ligadas ao Exército Livre da Síria estejam tentando recuperar as fileiras perdidas. Autoridades turcas fecharam um cruzamento nas proximidades da Síria.

Será interessante ver como a Turquia reage ao domínio do Estado Islâmico do outro lado da fronteira.

O que isso significa para a revolução síria? No longo prazo, os Estados Unidos e outros governos ocidentais podem estar mais dispostos a apoiar o Exército Livre da Síria se perceberem o real distanciamento desse grupo com os jihadistas.

No curto prazo, se os rebeldes estão lutando entre si, eles não estão lutando contra o regime.

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