Crise por eventual calote pode ser pior que a de 2008, adverte Tesouro dos EUA

Protesto no Congresso (Reuters)
Image caption Estimativa é a de que paralisação tenha custado ao país US$ 300 milhões por dia

Um calote inédito dos Estados Unidos seria "catastrófico" para a economia americana – palavras do próprio Tesouro do país – e "desastroso" para o resto do mundo, nas palavras de um especialista brasileiro.

Mas é exatamente esse o retrato que um relatório do Tesouro pintou, com cores fortes, nesta quinta-feira para tentar pressionar o Congresso a negociar a elevação do teto da dívida americana, que precisa ser concluída nas próximas duas semanas.

Por falta de entendimento entre congressistas republicanos e democratas, os Estados Unidos estão pelo terceiro dia consecutivo com os serviços públicos federais paralisados.

Se os efeitos econômicos dessa paralisação já são notáveis – analistas estimam que custe ao país US$ 300 milhões por dia –, pior são as perspectivas sobre o que pode acontecer até o fim do mês, se o Congresso continuar dividido e não conseguir negociar a elevação para o teto da dívida americana.

"Os mercados creditícios podem congelar, o valor do dólar pode despencar e as taxas de juros nos Estados Unidos podem disparar, potencialmente resultando em uma crise financeira e uma recessão que ecoariam os eventos de 2008 ou pior", alertou nesta quinta-feira o Tesouro em um relatório.

Os Estados Unidos estão prestes a atingir o teto do seu endividamento – US$ 16,7 trilhões – e o Tesouro precisa da autorização do Congresso para continuar rolando os compromissos através de novos empréstimos.

Se os congressistas não chegarem a um acordo até o próximo dia 17, o órgão ainda poderia saldar seus compromissos por cerca de duas semanas. Mas sem um acordo final acabaria decretando o calote dos seus títulos.

"A sequência do que poderá acontecer é uma grande incógnita, porque não se conhece nenhum caso de um país com a importância dos Estados Unidos que tenha dado um calote na sua dívida", disse à BBC Brasil o professor de Economia Internacional da PUC-SP Antônio Carlos Alves dos Santos.

"As consequências seriam desastrosas para a economia mundial como um todo. No caso do Brasil a situação seria complicada, porque a situação econômica do país já não é muito boa, e não queremos um choque externo que teria ainda mais impacto na economia brasileira."

Prejuízos de antemão

Muitos analistas acreditam que, com o governo americano paralisado e o prazo para um acordo sobre a dívida dobrando a esquina, as negociações sobre estes dois temas no Congresso acabariam coincidindo.

Image caption Os EUA estão prestes a atingir o teto do seu endividamento: US$ 16,7 trilhões

Foi o presidente Barack Obama quem sugeriu que em vez de avançar conjuntamente, os dois temas possam seguir conjuntamente trancados.

Em uma entrevista à rede de TV CNBC, ele disse que não vai negociar a dívida com o partido Republicano enquanto a sigla estiver, segundo ele, "refém" de uma "ala extremista" agindo por motivações ideológicas.

Os "extremistas" a que o presidente se refere são os membros do grupo chamado Tea Party, que condicionam a reabertura das torneiras do governo federal a um adiamento da lei da saúde aprovada em 2010.

Nesta quinta-feira, o presidente voltou à carga contra os republicanos afirmando que, "por irresponsável que seja uma paralisação do governo, uma paralisação econômica resultante de um calote seria muito pior".

Ecoando as palavras do presidente, o relatório do Tesouro afirma que a simples possibilidade de um calote pode injetar pânico nos mercados financeiros e espalhar efeitos negativos pela economia.

Em 2011, quando o Congresso também viveu um impasse, mas conseguiu elevar o teto da dívida antes do esgotamento de todas as medidas extraordinárias, as incertezas se traduziam em volatilidade nos mercados, elevação das taxas de risco e dos juros das hipotecas, desconfiança na economia e reduções no consumo e gasto de indivíduos e empresas – ultimamente, em um baque na própria atividade econômica.

"Como vimos dois anos atrás, as incertezas sobre se a nossa nação vai saldar suas dívidas dentro do prazo ferem a nossa economia", disse o secretário do Tesouro, Jacob Lew.

"Adiar a elevação do teto da dívida até o último minuto é exatamente o que a nossa economia não precisa", disse Lew. "Nossa nação trabalhou duro para se recuperar da crise de 2008, e o Congresso deve elevar o teto da dívida antes que a recuperação seja posta em risco."

Pressão de Wall Street e do FMI

Os prospectos são tão negativos que, curiosamente, os mercados mantiveram certa calma nos primeiros dois dias da paralisação do governo. Os principais indicadores americanos operaram em queda, mas o mercado ainda acredita que haverá acordo para desviar o país do abismo.

"É um cenário de consequências tão terríveis que temos até dificuldade de pensar nele", diz o professor da PUC-SP. "Mas é claro que à medida que se aproxime o dia 17 de outubro, seremos obrigados a pensar nele com mais realismo."

O panorama da economia mundial, ele argumentou, é "grave" comparado a 2011: Grécia, Portugal e Irlanda são fonte de instabilidade na União Europeia e a economia brasileira registra um crescimento "medíocre"

A possível crise da dívida e os efeitos sobre a economia mundial foram pauta de uma discussão entre o presidente Obama e líderes empresariais de Wall Street esta semana.

Nesta quinta-feira, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, ecoou essas preocupações e fez pressão sobre o Congresso americano para que negocie a elevação do teto da dívida.

Em uma palestra sobre os desequilíbrios que ainda acarretam incertezas para a economia mundial, Lagarde disse que "em meio ao desafio fiscal, as atuais incertezas políticas em relação ao orçamento e o teto da dívida não ajudam".

"A paralisação do governo é ruim o suficiente, mas o fracasso em elevar o teto da dívida seria muito pior", disse Lagarde. "Poderia prejudicar seriamente não apenas a economia americana, mas toda a economia global."

A chefe do FMI disse que solucionar o impasse no Congresso o mais rápido possível "é uma missão urgente".

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