O que está por trás da aposta de alguns republicanos contra Obama

Cognresso americano
Image caption Republicanos linha-dura tentam assegurar ao mercado que um calote não seria catastrófico

Uma facção do Partido Republicano acredita que não pode perder a batalha em relação ao aumento do teto do endividamento dos Estados Unidos. Para eles, ou se acaba de vez com a reforma da saúde de Barack Obama ou o país terá de viver temporariamente sem novos empréstimos.

É uma aposta de alto risco. Nunca antes os Estados Unidos perderam a capacidade de pedir dinheiro emprestado para financiar as suas obrigações. A maioria dos especialistas adverte que a jogada política poderia ter efeitos catastróficos.

Mas dezenas de políticos republicanos como Steve King, Tim Huelskamp e Mick Mulvaney sugerem que, se o teto da dívida estourar, a Casa Branca terá de estabelecer os gastos prioritários, cortando drasticamente algumas despesas a fim de fechar o caixa.

"Se você não elevar o teto da dívida, isso significa que você tem um orçamento equilibrado", argumenta o senador republicano Rand Paul, do Kentucky. Em entrevista à rede CNN, ele disse que "isso não significa que você não vai pagar suas contas".

A estratégia do grupo é alertar Obama de que os republicanos estão dispostos a permitir que o teto da dívida seja ultrapassado, atingindo em cheio as prioridades do governo democrata. Eles esperam convencer o empresariado de que isso não vai destruir a economia.

É uma linha tênue, mas os conservadores linha-dura acreditam ter encontrado a bala de prata para matar de vez a reforma da saúde de Obama. Republicanos dizem que a lei é uma afronta aos valores americanos, já que obriga todo o cidadão a ter um plano de saúde, ferindo o princípio do livre arbítrio e de não intromissão do Estado na vida privada das pessoas.

Eles defendem que, se evitarem um maior nível de endividamento do governo, a lei da saúde, chamada de "Obamacare", não vai resistir. Assim, eles também ensinariam aos americanos que é possível viver com "menos governo", com um Estado mínimo.

O congressista republicano Ted Yoh, da Flórida, chegou a dizer em entrevista ao Washington Post que ultrapassar o limite da dívida vai "trazer estabilidade aos mercados mundiais”, já que isso provaria que os Estados Unidos são um país sério, que sabem equilibrar o seu orçamento.

'Estupidez'

Sem o risco de um calote da dívida soberana e com os democratas já sentindo os efeitos de um corte drástico de 32% na despesa global do governo, os republicanos acreditam que assim recuperariam o poder de negociação.

"Nós vamos atingir o teto da dívida e o mundo não vai acabar", diz Dean Clancy, do grupo ativista conservador FreedomWorks.

Image caption Republicanos são contra reforma de saúde de Obama, que ganhou a alcunha de 'Obamacare'

"Uma vez que a população e Wall Street entendam que a inadimplência não é uma possibilidade real, a vantagem do presidente (Obama) será reduzida, e um acordo entre os partidos será possível", diz.

Outros republicanos pensam que essa estratégia é impraticável e perigosa. Mesmo que se possa priorizar pagamentos do Departamento do Tesouro, por exemplo, as incertezas geradas por essa jogada política poderiam devastar o mercado financeiro.

"A questão aqui é honrar nossas obrigações de dívida", diz Bill Hoagland, vice-presidente do Centro de Política Bipartidário, que serviu como assessor de orçamento do ex-líder da maioria no Senado, o republicano Bill Frist. "É estúpido e é inacreditável que estamos tendo essa conversa."

O presidente da Câmara dos Representantes (deputados), John Boehner, que está na linha de frente dos republicanos na batalha contra a reforma da saúde e na disputa sobre o orçamento, chegou a mostrar alguma hesitação em abraçar a proposta da bancada mais conservadora.

Embora continue a dizer que os republicanos estão unidos, relatos vazados na imprensa indicam que ele já teria dito a colegas do partido que não vai permitir um calote da dívida - mesmo se isso significar dar o braço a torcer e apoiar os democratas na queda de braço sobre o limite do endividamento.

'Guerra Civil'

Na opinião do estrategista da campanha republicana Matthew Towery, os conservadores linha-dura vão perceber rapidamente que seu plano é impraticável.

Towery diz que assim como no auge da crise de 2008, quando o Congresso só aprovou um pacote de resgate quando as bolsas já registravam queda de 700 pontos no país, os republicanos linha-dura só devem ceder quando os mercados derem mostra de estresse.

Image caption Boehner estaria alertando colegas republicanos linha-dura sobre efeitos do calote

"O presidente disse de maneira gritante que Wall Street deveria se preocupar", afirmou Towery. "Obama quer uma queda (das bolsas), já que ele sabe no que isso daria. Eles teriam de tomar uma decisão imediata."

A esta altura, o presidente da Câmara, Boehner, ganharia apoio suficiente de colegas republicanos para colocar em votação o aumento do teto da dívida, argumenta o estrategista.

À medida que se aproxima o prazo para uma decisão sobre o teto da dívida, o que já vem sendo chamada de "guerra civil republicana", entre os linha-dura e os moderados, deve chegar ao fim.

Os republicanos linha-dura permanecem com sua estratégia, com forte apoio de suas bases, que veem no "Obamacare" um perigo existencial ao país.

Mas, em algum momento, o restante do partido deve abandonar esse páreo. "Acho que os republicanos só querem cair fora dessa bagunça, todos juntos", diz Towery.

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