Triunfo de Obama força republicanos a fazer autocrítica

Membros do Congresso americano deixam o local depois de uma das votações durante a noite (Reuters)
Image caption Muitas das votações avançaram pela noite no Congresso americano

Foi um duelo clássico, digno de um faroeste.

Um bando entra na cidade, aterrorizando os moradores, fechando o bar e o armazém, ameaçando queimar tudo até que o xerife se apresenta, rejeita as exigências escandalosas do bando e os enfrenta, obrigando-os a uma rendição humilhante.

Mas há outra forma de ver os fatos: um corajoso bando de rebeldes enfrenta a imposição de uma tirania perigosa, até que, pensando no bem da cidade como um todo, eles desistem, curvados, mas com a luz da revolta ainda em seus olhos.

Tudo depende da forma como se conta a história. Mas não importa a escolha narrativa, o presidente Barack Obama venceu e os republicanos perderam.

Porém, o que se segue a um dos mais duros e tensos confrontos da política americana nos últimos anos é um pouco mais complicado.

Para o presidente é bem simples: Obama defendeu seu território e se recusou a ceder um centímetro que fosse. Ele fez com que os republicanos soubessem que não faz sentido puxar uma briga como esta de novo.

Os conservadores republicanos vão gostar ainda menos dele, argumentando que ele ignorou o papel legítimo do Congresso e rejeitou a negociação.

Mas, enquanto o bipartidarismo pode ter entrado na moda momentaneamente, poderá ficar ainda mais difícil para Obama vencer batalhas em outras frentes como imigração, controle de armas e meio ambiente.

Não que a vitória nesses campos estivesse prevista, mas isto anima os partidários de Obama e, com eleições em 2014, isto é importante.

Ruim para quem?

A primeira vista, a derrota é muito ruim para os republicanos. Mas medir quão ruim depende de outras coisas: depende de o que você quer dizer com ruim e quem você aponta como republicano.

Vamos esclarecer melhor.

A derrota claramente não foi boa para eles, mas, a não ser que realmente diminua as possibilidades de as pessoas votarem nos republicanos em eleições reais, não terá maiores consequências.

O presidente da Câmara, o republicano John Boehner, poderá bater o punho na mesa, ser aplaudido de pé na convenção do partido, mas ele será julgado de uma forma muito severa pela imprensa.

Boehner foi obrigado a adotar uma tática que ele deveria saber que não tinha chances de sucesso.

Isto faz com que ele pareça muito patético, um líder impotente que não consegue controlar os mais esquentados.

Mas o impacto disso depende do que Boehner quer. Com certeza ele não conquistou nenhum objetivo político.

Mas ele manteve o partido unido e isto não foi fácil. E, com certeza, ele está em condições de manter o emprego atual.

Tea Party

É ruim para o movimento conservador Tea Party. Ou talvez não.

Eles não vão admitir que levantaram a bandeira branca. Ao contrário: vão se mostrar como derrotados porém intactos.

Isto é uma das partes centrais de uma certa forma de romantismo político.

A maioria dos membros do Tea Party vem de distritos nos quais esta derrota não vai afetá-los. A lição que os ativistas do movimento conservador vão aprender é que são necessários mais radicais no Congresso.

A ideia de que o fim do impasse marca uma reação dos moderados contra a direita radical é, acredito, uma esperança ilusória de liberais e independentes.

É uma ideia fascinante e estarei prestando atenção para captar qualquer sinal de que seja verdadeira.

Entretanto, creio que sua base está em um erro básico, um equívoco a respeito de quais eram os argumentos dentro do partido durante a crise, não a ideologia, mas as táticas.

Mais eu acho que essa ideia é baseada em um erro fundamental, um equívoco sobre o motivo da divisão dentro do partido durante a crise: não se tratava de ideologia, mas de estratégia.

Existem poucos políticos de centro no Congresso, e os conservadores estão apenas discutindo até onde levarão a luta.

Um dos principais estrategistas do Tea Party, o senador Ted Cruz, pode ter despertado o ódio de outros senadores, mas as doações aumentaram para a organização de sua campanha.

Se os colegas de Cruz pensam que ele é um egoísta, as pessoas que ele quer que votem nele nas primárias presidenciais o admiram um pouco mais.

Duvido que este seja um fato que o Partido Republicano usará para ampliar sua base.

Isto só poderá acontecer se Chris Christie conseguir a indicação presidencial ou depois de um segundo termo de Hillary Clinton. Mas, sem dúvida, os membros do partido irão passar por uma autocrítica e os republicanos que não gostam do Tea Party poderão ser mais ousados em sua oposição.

É muito mais difícil dizer se isto realmente significa o fim da crise no governo. Por alguns meses, será.

Mas, as causas são muito profundas e não vão desaparecer. Não é impossível que nós simplesmente voltemos a esta situação novamente nos primeiros anos de 2014.

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