Novo revés aprofunda crise de império de Eike Batista

Eike Batista / BBC
Image caption Segundo a Bloomberg, a fortuna de Eike Batista caiu de US$ 34,5 bilhões para US$ 500 milhões

A crise na OGX, empresa de petróleo e gás do empresário Eike Batista, é o mais recente capítulo da crise assola o outrora homem mais rico do Brasil, à luz de perspectivas menos otimistas para o futuro da economia do país.

Em fato relevante anunciado nesta terça-feira, a OGX confirmou que não houve acordo com credores na negociação para o pagamento de suas dívidas, um mês depois de a empresa ter deixado de pagar US$ 45 milhões em juros de seus bônus. O próximo passo deve ser a empresa entrar com um pedido de recuperação judicial.

Outros braços do grupo de Eike, o EBX, também enfrentam problemas. Há temores quanto à saúde financeira da construtora de navios OSX, que seria muito dependende das demandas geradas pelas plataformas offshore da OGX.

Em julho, Eike renunciou à presidência e do conselho de administração da MPX (atual Eneva), empresa de energia do conglomerado.

E, na última segunda-feira, a Eneva (que hoje é parcialmente controlada pela empresa alemã E.On) fez acordo com credores do braço da OGX no Maranhão, aumentando sua participação em caso de inadimplência.

Fortuna

A crise tem feito as ações da OGX despencarem, diminuindo seu valor de mercado - algo que tem custado a Eike parte considerável de sua fortuna.

Segundo a agência de notícias Bloomberg, Batista era, em março de 2012, o oitavo homem mais rico do mundo, com um patrimônio estimado em US$ 34,5 bilhões (R$ 78 bilhões em valores atuais). Agora, teria uma fração disso: menos de US$ 500 milhões líquidos (R$ 1,1 bilhão), segundo estimativa de agosto também da Bloomberg.

Na esteira da deterioração do cenário macroeconômico brasileiro, a crise de confiança sobre a OGX veio a partir do anúncio de interrupção na produção da maioria dos seus campos de petróleo na Bacia de Campos, por inviabilidade econômica.

Altamente endividada e com pouca geração de capital para pagar suas dívidas, a empresa se tornou uma fonte de dor de cabeça para investidores.

E, como os negócios do grupo de Eike estão interligados, a crise se espalhou.

Segundo a consultoria Economática, apenas no primeiro trimestre de 2013, as seis companhias de capital aberto (ou seja, negociadas na bolsa) do empresário (OGX, MMX, MPX, OSX, LLX e CCX) registraram um prejuízo total de R$ 1,154 bilhão, alta de 539% em relação ao mesmo período do ano passado.

Essas mesmas empresas tinham até o fim do ano passado uma dívida líquida de cerca de R$ 15 bilhões, de acordo com dados da Thomson Reuters.

Um levantamento do Valor Econômico mostrou que, juntas, as seis companhias perderam R$ 110 bilhões em valor de mercado desde seu melhor momento na bolsa até a cotação encerrada no final de junho.

Um cálculo feito pelo jornal O Estado de São Paulo mostra que quem investiu R$ 5 mil na OGX em 2008, quando a empresa abriu seu capital, tinha, alguns meses atrás, somente pouco mais de R$ 200.

Ascensão

Mineiro de Governador Valadares, Eike Fuhrken Batista ganhou projeção nacional como o empresário que melhor encarnou a euforia internacional com a economia brasileira, uma das menos atingidas pela crise financeira de 2008.

Com um estilo arrojado de fazer negócios e considerado visionário por seus pares, ele se aproveitou do apetite chinês por commodities e da abundância de matérias-primas no Brasil para vender o otimismo com que investidores de todo o mundo viam o país.

O pano de fundo era positivo. O pré-sal havia sido descoberto, e milhares de brasileiros ascenderam à classe média.

Ambicioso, Batista apostou alto. Fluente em cinco línguas, o filho de um ex-ministro de Minas e Energia e ex-presidente da Vale durante o governo militar montou um império de empresas em diversos setores, do petróleo ao entretenimento.

Para concretizar sua ideia, no entanto, o empresário precisava de capital novo. O caminho encontrado foi a abertura de suas empresas na bolsa de valores, por meio de IPO’s (Oferta inicial de ações, na sigla em inglês), realizados entre 2006 e 2010.

O ponto alto veio com o início da negociação dos papéis da OGX. Foi o maior IPO da história da Bovespa. Até pouco tempo, a OGX era considerada a principal empresa do conglomerado.

O discurso de Batista também ganhou acolhida entre os bancos, que lhe emprestaram dinheiro. Segundo um relatório divulgado recentemente pelo banco de investimentos americano Merrill Lynch, somente bancos públicos, como o BNDES e a Caixa Econômica Federal, estão expostos em cerca de R$ 4,9 bilhões e R$ 1,4 bilhão, respectivamente, ao conglomerado EBX.

Em junho de 2011, ele deu uma entrevista à BBC inglesa em que previa " 20 anos de crescimento contínuo para o Brasil".

Vida pessoal

Image caption Visionário e ambicioso, Batista construiu império durante bom momento da economia

Estrategicamente ou não, a vida pessoal do empresário também colaborou para construir o mito em torno de sua personalidade, o de um empreendedor nato, inspiração para milhões de brasileiros.

Por muito tempo casado com a ex-modelo Luma de Oliveira, musa do Carnaval carioca, com quem teve dois filhos, Thor e Olin, o empresário aparecia com frequência no noticiário brasileiro e internacional.

Além do dia a dia da administração de seu império, também encontrava tempo para divulgar ações principalmente em prol da cidade que o acolheu, o Rio de Janeiro, como a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas, a reforma do tradicional Hotel Glória, e a construção de Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) em comunidades carentes.

Também mantinha estreito contato com políticos. Em setembro de 2012, o empresário emprestou um jato ao governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, para uma festa no Sul da Bahia, promovida pelo dono da construtora Delta, Fernando Cavendish, condenado meses depois por desvio de verba federal.

Recentemente, uma das empresas do grupo, a IMX, de entretenimento, venceu a licitação para administrar o Maracanã pelos próximos 35 anos. O leilão foi cercado de polêmicas, uma vez que a própria companhia havia sido responsável pelo estudo de viabilidade econômica do estádio.

Queda

Para economistas, a crise atravessada pelo império de Batista ganhou força a partir do momento em que investidores perceberam que os resultados de suas empresas não corresponderiam às suas promessas.

Nesse contexto, a derrocada da OGX foi um duro golpe na saúde financeira do grupo. O campo de Tubarão Azul, que deverá interromper suas operações no ano que vem, era até então o único produtor de petróleo da empresa. Inicialmente, a companhia previa reservas de até 110 milhões de barris no local.

"Havia uma confiança do mercado na capacidade empreendedora (de Eike). Tudo isso acabou quando empresas como a OGX acabaram não entregando os resultados", afirmou Sérgio Lazzarini, professor do Insper, em entrevista recente à BBC Brasil.

Os economistas ouvidos pela reportagem da BBC Brasil no início do semestre descartaram, por ora, um efeito direto sobre o PIB por causa do revés de Batista, mas lembraram que a crise da EBX pode contribuir para piorar um cenário de incerteza macroeconômica.

"Não acredito que os negócios (do grupo X) afetem diretamente o PIB brasileiro, mas são mais uma marca negra dentro de um contexto econômico ruim. Dependendo do cenário, podem estimular a fuga de capitais não no longo prazo, mas sim no curto", disse Samuel Aguirre, da consultoria FTI em São Paulo.

Além disso, analistas dizem que a forma como se desenrolar a provável recuperação judicial da OGX na Justiça brasileira pode servir de termômetro para futuros investimentos estrangeiros no Brasil.

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