Empréstimos ajudam a manter investimento direto no Brasil

Dólares (foto: Getty Images)
Image caption Brasil recebeu US$ 30 bilhões em investimentos estrangeiros diretos neste ano

Os investimentos estrangeiros diretos (IED) recebidos pelo Brasil só permaneceram estáveis no primeiro semestre deste ano graças ao forte aumento do volume de empréstimos concedidos pelas matrizes de empresas multinacionais às suas filiais brasileiras.

Essa é uma das conlusões de um relatório da Unctad (Conferência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento) divulgado nesta quinta-feira.

O IED representa recursos investidos na atividade produtiva e criação de empresas, fusões e aquisições de companhias e também empréstimos entre matrizes e suas filiais.

O Brasil recebeu US$ 30 bilhões em investimentos estrangeiros diretos no primeiro semestre deste ano, o que representa um crescimento de 1% em relação ao mesmo período de 2012, quando o fluxo de IED para o país havia totalizado US$ 29,7 bilhões, de acordo com a Unctad.

Empréstimos

"Os fluxos de IED para o Brasil permaneceram estáveis, apesar da queda de 22% no volume de investimentos produtivos, resultante da diminuição nas fusões e aquisições e também da redução dos investimentos ligados exclusivamente às atividades de produção", afirma o relatório Monitor de Tendências do Investimento Mundial, da Unctad.

"Isso foi compensado pelos empréstimos entre matrizes (internacionais) e filiais (brasileiras), que aumentaram mais do que o dobro", diz o estudo.

Segundo a Unctad, o volume de empréstimos entre matrizes e as filiais brasileiras (chamados de empréstimos intracompanhias) totalizaram US$ 10,9 bilhões no primeiro semestre.

Isso representa quase o total de empréstimos efetuados durante todo o ano passado, que foi de US$ 12,4 bilhões. No primeiro semestre de 2012, o montante havia sido de US$ 5,2 bilhões.

Na prática, os empréstimos concedidos pelas matrizes internacionais às filiais brasileiras representam pouco mais de um terço do total de investimentos estrangeiros diretos no Brasil entre janeiro e junho.

Queda

Os recursos recebidos pelo Brasil em fusões e aquisições neste primeiro semestre, US$ 4,7 bilhões, foram os mais afetados: eles registraram queda de 58% na comparação com igual período de 2012.

"Uma parte substancial do IED recebido pelo Brasil neste ano poderá se referir a empréstimos entre matrizes e as filiais brasileiras, o que representa, na prática, dívidas. Esse dinheiro deverá ser reembolsado", disse à BBC Brasil Masataka Fujita, chefe da divisão de tendências de investimentos da Unctad.

Ele afirma que os recursos desses empréstimos, considerados como IED, podem ser utilizados na ampliação da capacidade produtiva de uma fábrica ou na compra de máquinas, por exemplo, mas também podem ser usados para outros fins, inclusive especulativos.

Não há, nesse caso, meios para fazer a distinção sobre o uso dos recursos referentes aos empréstimos, diz ele.

Fujita ressalta, no entanto, que os empréstimos entre matrizes e filiais não podem ser considerados "investimentos ruins" ou de "menor qualidade" do que os demais que entram na classificação do IED.

"Há empresas que podem fazer isso por motivos de estratégia fiscal, já que as dívidas permitem diminuir a receita e pagar menos impostos. As condições dos empréstimos entre a matriz e sua filial também são geralmente mais vantajosas do que as dos bancos comerciais. E existe ainda a possibilidade de que a matriz perdôe a dívida", afirma.

Segundo ele, o Brasil deverá receber em 2013 praticamente o mesmo volume de IED do ano passado, que totalizou US$ 65 bilhões. "Talvez seja um pouco menos. Ele deverá se situar entre US$ 60 e US$ 65 bilhões", prevê o chefe da divisão de investimentos da Unctad.

"O nível de investimento no Brasil ainda permanece muito forte, mesmo se houver desaceleração", diz Fujita.

Ranking

Segundo o relatório da Unctad divulgado nesta quinta, o Brasil caiu para a oitava posição na lista de países que mais recebem investimentos estrangeiros diretos no mundo. No primeiro semestre de 2012, o Brasil ocupava o sexto lugar e encerrou 2012 na quarta colocação.

O fluxo mundial de IED cresceu 4% no primeiro semestre do ano, atingindo US 745 bilhões. Mas os países ricos continuam sofrendo forte queda no volume de IED recebido. Na Europa, a diminuição foi de 20% no período.

"A Unctad estima que os fluxos de IED em 2013 vão permanecer nos mesmos níveis do ano passado, apesar de algumas melhoras nas condições macroeconômicas dos países desenvolvidos", diz o relatório.

"A desaceleração do crescimento econômico em algumas economias emergentes e a fraca demanda de consumo nos países desenvolvidos podem ter um impacto negativo nos fluxos de IED neste ano", diz a Unctad.

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