Lucas Mendes: 1945, pavores e milagres

O holandês Ian Buruma tem trânsito livre na intelligentsia do Oriente e Ocidente. Trafega pelos salões de arte, história e política, por universidades, conferências, imprensa e livros. Seu 13º é Year Zero: A History of 1945 (Ano Zero: Uma História de 1945), recém-lançado aqui e na Europa.

Ian Buruma tem currículo. Na Holanda e no Japão, estudou história, literatura chinesa e cinema japonês. Foi ator de teatro de vanguarda em Tóquio e dançarino com um grupo que nasceu nos protestos de estudantes pós-guerra e floresceu nos anos 50.

Fez documentários, fotografia e jornalismo para grandes publicações, cobrindo Europa e Ásia. É casado com uma japonesa, passa seis meses nos Estados Unidos, circula pelo mundo no resto do ano.

Buruma soa africano ou asiático, mas ele me disse que é um nome comum na Holanda. A mãe era inglesa, judia e professora, mas foi o pai, holandês, o maior responsável pelo conceito e pelo livro do Ano Zero.

Buruma queria entender o mundo e a geração do pai dele, uma curiosidade que crescia desde quando chegou à idade do pai, estudante universitário, preso pelos alemães na Holanda e levado para trabalhos forçados em uma fábrica de freios de trem em Berlim, sob condições sub-humanas. Como milhões morreram, sofreram ou — como o pai dele — sobreviveram, intrigava Buruma.

"1945 foi um ano pavoroso e milagroso", diz o escritor. O milagre maior foi o fim da Guerra com vitória dos aliados. Os pavores foram a fome, os massacres nos últimos meses de japoneses e alemães, as vinganças dos russos e também dos franceses, a criação do império soviético, que encurralou a Europa Oriental, a explosão do comunismo na Ásia e as guerras civis na China e Coreia.

O nascimento da ONU e o fim do colonialismo entram na coluna dos milagres, mas os ingleses e franceses levaram algum tempo para perceber que não eram mais superpotências e que era hora de se despedirem das colônias.

Logo depois do fim da Guerra, os franceses, com armas americanas, bombardearam Damasco e outras cidades que Assad bombardeia hoje. Queriam a Síria de volta. Os ingleses disseram não e botaram os franceses para fora. Aliado contra aliado. De Gaulle, enfurecido, prometeu vingar a humilhação.

Havia os dólares do plano Marshall para reconstruir a Europa Ocidental, mas como reconstruir a cabeça dos alemães? Buruma conta histórias de lavagens cerebrais e planos bizarros para eliminar os nazistas e o nazismo.

O grande programa dos americanos era o "3 Ds" , desmilitarização, desnazificação e democratização. Censura, aulas e blablablás. Os alemães achavam a maioria dos filmes, programas e publicações, entediantes, mas no fim das constas, deu certo. Em dez anos, a Alemanha estava de pé e hoje é a terceira maior economia do mundo.

No Japão, hoje a quarta economia, a lavagem democrática funcionou melhor porque os japoneses tinham uma história de décadas de guerras, miséria e seculos de feudalismo. Como na Alemanha, os americanos não violentaram o país, mas diferente da Alemanha, conduziram o show sozinhos.

O Japão não estava dividido em quatro. Os americanos fizeram a reforma agrária, deram direito de voto às mulheres, educação para ricos e pobres. Pareciam socialistas.

Quando o general MacArthur foi demitido pelo presidente Truman por indisciplina em 1953, milhões de japoneses foram para as ruas dar adeus e agradecer ao generalíssimo americano. Mandou e desmandou. Para Buruma, um japonesista, é extraordinário uma potência com a história, independência, cultura e tradição do Japão ser liberada por outra potência. Perturbou intelectuais e idealistas.

O pai de Buruma está no começo do livro e no epílogo com uma história de família semicômica e semitrágica. Ele, o filho escritor e a filha, foram passar o Ano Novo em Berlim em 1989, para comemorar a queda do muro. Estavam perto da fábrica onde o pai tinha trabalhado e sofrido quatro anos. No foguetório e na excitação da meia-noite, os filhos se separaram do pai. Preocupados, voltaram para o hotel onde ele só apareceu pela manhã, com um enorme curativo entre os olhos.

Durante a Guerra, ele escapou das bombas americanas que caíam perto, dos morteiros soviéticos e dos franco-atiradores alemães; mas não escapou, mais de 40 anos depois, de um foguetão festivo para comemorar a queda do muro e a liberação da Polônia, Hungria, Alemanha Oriental e outros países controlados pela União Soviética.

Mas será que Buruma errou o "Ano Zero"? Alguns historiadores defendem a tese de que o ano correto é 1989, o verdadeiro fim da Guerra na Europa, que começou em 1914. Buruma acha a ideia "interessante", mas prefere o Zero dele.

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