Críticas dos EUA à Alemanha opõem modelos econômicos

Como se o escândalo das acusações de espionagem americana na Europa já não fossem suficientes para esfriar a relação entre Estados Unidos e Alemanha, um relatório divulgado em Washington criticando o modelo econômico alemão causaram espanto em Berlim.

Em um tom bastante atípico e em um momento de tensão diplomática, o Departamento do Tesouro americano publicou um relatório no qual assegura que o modelo de crescimento alemão, impulsionado pelas exportações, está afetando a zona do euro e a economia global.

O documento classifica como "anêmico" o ritmo de crescimento da demanda interna da Alemanha. O país é a maior economia da Europa e seu modelo econômico é frequentemente apontado como exemplo por influentes políticos e economistas americanos.

O relatório provocou uma forte reação na Alemanha. O Ministério da Economia disse que a crítica é "incompreensível". Representantes do setor exportador saíram em defesa da competitividade alemã, enquanto a oposição e sindicatos fizeram eco às críticas de Washington.

Dois modelos, duas visões

Ainda que não seja a primeira vez que os Estados Unidos critiquem políticas econômicas de outra potência, causou surpresa que isso tenha sido feito contra a Alemanha com essas palavras e nesse momento específico: em meio à tensão diplomática causada pelas acusações de que a Agência de Segurança Nacional americana (NSA, na sigla em inglês) monitorou telefonemas da chanceler Angela Merkel e à negociação de uma ampla coalizão de governo com o maior partido de oposição, o SPD.

Desde o início da crise da zona do euro, Washington vem emitindo críticas à Alemanha.

Image caption Os Estados Unidos querem que a Alemanha estimule o consumo interno

A principal queixa dos Estados Unidos se dá pelo fato de a Alemanha conquistar mercados em todo o mundo para as suas exportações sem que seu mercado doméstico aumente no mesmo ritmo, o que ajudaria a impulsionar a economia de outros países da União Europeia.

As críticas mostram que, em um plano mais geral, tanto a Alemanha quanto os Estados Unidos sabem que são duas das locomotivas da economia mundial, embora tenham modelos e visões econômicas distintas.

Isso se dá em muitos planos: desde o papel do governo na econômica até o papel das pequenas e médias empresas, passando pelas grandes corporações, o enfoque para aumentar a venda da casa própria e a importância do crédito.

Questão de tamanho

O poderio exportador da Alemanha é visto como um de seus maiores trunfos e tem funcionado como um colchão para amortecer o impacto da crise europeia.

Boa parte desse poder se deve aos "campeões invisíveis" da economia: as pequenas e médias empresas, que formam o que os alemães chamam de "Mittelstand". Segundo o portal oficial Make it in Germany, 99% das empresas alemãs são pequenas ou médias, respondendo por 60% dos empregos no país.

São empresas altamente especializadas que tendem a ocupar certos nichos. São em geral empresas de composição privada e familiar, que mostram os fortes laços locais e regionais. Os negócios também costumam lançar mão dos benefícios e da cooperação com escolas técnicas.

Já o modelo americano é consideravelmente distinto. E uma das razões é porque os Estados Unidos importam mais do que exportam (embora continuem sendo um dos maiores exportadores do mundo).

Crescimento local

Image caption Os Estados Unidos criticam o modelo econômico alemão dependente de exportações

Segundo Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador do Instituto Peterson para a Economia Internacional, os Estados Unidos têm um mercado doméstico tão grande que, até há alguns anos, poucas empresas precisavam exportar.

Vale lembrar que uma das metas mencionadas pelo presidente Barack Obama em seu discurso do Estado da União de 2012 foi justamente a duplicação das exportações em cinco anos. Para Obama, está é uma forma de "arrumar os problemas que são obstáculos ao crescimento".

Além disso, as empresas são mais flexíveis nos Estados Unidos do que nos países europeus e tendem a ser maiores.

Segundo o ranking Global 500, 133 das maiores empresas de 2011 estavam nos Estados Unidos, contra apenas 34 da Alemanha.

Nos Estados Unidos, é comum ressaltar o papel de grandes empresários. Na Alemanha, é difícil encontrar empreendedores do peso de Bill Gates ou Steve Jobs.

Kirkegaard nota outra diferença: enquanto as empresas alemãs tendem a "inovar para dentro" (aumentar a especialização), nos Estados Unidos ocorre o que os especialistas chamam de "destruição criativa". Ou seja, o fechamento de uma empresa libera capital para ser investido em outros e novos setores da economia.

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