Lucas Mendes: Números estuprados

Zainab Salbi conhece estupros. Foi vítima do próprio marido. Depois, passou uma década com outras vítimas na Europa, Oriente Médio e África. Ela nasceu e cresceu em Bagdá, filha do piloto de avião particular de Saddam Hussein e diretor da estatal de aviação iraquiana.

O ditador frequentava a casa da família de Zainab e a família frequentava os palácios de Saddam.

Zainab era romântica. Contra os conselhos da mãe e da família, se apaixonou por um colega estudante pobre no primeiro ano da faculdade. Noivaram, o romance azedou, ela rompeu. Um vexame numa sociedade muçulmana.

Uma tarde, ela estava com os pais num dos palácios de Saddam. Ele estava na piscina e chamou Zainab para entrar na água. Ela respondeu que não tinha maiô. Saddam disse a ela que fosse ao quarto dele e vestisse um short com uma camiseta. A entourage de Saddam gritava: "Vem, Zainab". Os olhares dos pais na água diziam "não".

Zainab era, e ainda é, bonita. Ela chamava Saddam de "amo", tio em árabe. "'Amo', desculpe, mas hoje eu não posso entrar na água". Escapou com a desculpa da menstruação, mas a mãe sentiu que era hora de tirá-la do Iraque.

Zainab tinha tanto medo de Saddam, dos filhos dele e do esquema de segurança, que só depois de muitos anos, já nos Estados Unidos, ela se referiu a ele pelo nome. Antes era só "amo" e não contava para ninguém que ela era filha do piloto particular de Saddam, nem que a família pertencia ao círculo íntimo do ditador.

Contra a vontade de Zainab, que ainda queria se casar por amor, a mãe arranjou um casamento, em Chicago, com um homem de boa família, 13 anos mais velho. O amor, pela teoria dos casamentos arranjados, vem depois. As relações na cama foram péssimas.

Zainab, salva de Saddam e dos filhos, foi estuprada pelo marido escolhido pela mãe que queria protegê-la. Fez as malas e se mudou para Washington, sem ter onde cair morta. Só levou a fronha do travesseiro, onde ela tinha segurado a cabeça dela. Casamento fracassado é outra humilhação entre muçulmanos; Zainab nunca contou para a mãe sobre o estupro.

Zainab se virou em trabalhos que exigem pouca qualificação para pagar a faculdade e se casou, por amor, com um palestino. Um dia, depois de ouvir pela televisão relatos de estupros em massa na Bósnia e na Croácia, ela resolveu fundar uma ONG, Women for Women, para ajudar mulheres vitimas de conflitos.

No primeiro ano, tinha 31 mulheres na lista. Hoje, a ONG já distribuiu US$ 102 milhões para 370 mil mulheres em vários países. Zainab foi homenageada pelo presidente Bill Clinton na Casa Branca, e a Women for Women foi reconhecida como uma das organizações mais influentes no socorro de vítimas de abusos em conflitos.

Zainab se demitiu da direção para escrever e fazer conferências. Ela acaba de publicar mais um livro de fotos e depoimentos de mulheres, If you knew me, you would care (Se você me conhecesse, você se importaria, em tradução livre), seu terceiro. As histórias pessoais sobre a vida no Iraque e nos Estados Unidos estão no primeiro, Between Two Worlds (Entre Dois Mundos), traduzido em várias línguas.

Ela trabalha num loft com pouca mobília na Broadway, em Manhattan, onde passei parte da tarde com ela, numa entrevista. Ela contou que uma das viagens que fez, ainda criança, com o pai no comando, quando ele pilotava para a aviação comercial iraquiana, foi ao Rio, de onde saiu com boas lembranças.

Contei a ela que os números sobre estupros no Brasil tinham acabado de sair e deram um salto, mas os números e o Brasil não estão no radar dela. Hoje, trabalha só com mulheres do Oriente Médio, onde as estatísticas de estupros e abusos sexuais são pouco confiáveis.

Mulheres abusadas são ensinadas a se envergonhar de si mesmas e uma denúncia na polícia pode comprometer a honra da família. Nas regiões tribais, pais e irmãos ainda apedrejam filhas violentadas.

Os números sobre estupros são estuprados. Em algumas estatísticas, a Suécia é líder de estupros. As explicações são os imigrantes e os rígidos critérios suecos de definir estupros.

O Brasil, com 26,9 estupros por 100 mil habitantes, tem o dobro de estupros do que o México. A pacífica Costa Rica, com 34 por 100 mil, é a campeã de estupros da América Latina.

Roraima tem 52 por 100 mil, mas os números no Brasil são pouco confiáveis. O país está dividido em quatro regiões, de 1 a 4. As estatísticas da região 1 são as melhores, as da 4, as piores. Quanto mais pobre, maior a mentira das estatísticas.

Nesta violência, a verdade não está nos números e Zainab não trabalha com estatísticas. Nos livros, ela conta histórias de poucas vítimas com fotos que apunhalam.

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