Classificação da França para a Copa pode dar trégua a governo

Seleção da França após classificação para a Copa (foto: Getty)
Image caption Presidente François Hollande quer capitalizar classificação da França para a Copa

A classificação para a Copa do Mundo no Brasil obtida pela seleção francesa deverá permitir uma "trégua", ainda que de curta duração, no descontentamento dos franceses em relação ao governo e à situação econômica do país, afirmam analistas ouvidos pela BBC Brasil.

A seleção francesa garantiu sua presença no mundial na terça-feira, após uma vitória contra a Ucrânia na terça-feira. A França precisava ganhar por três a zero.

A partida estava sendo chamada pela imprensa e até por políticos de "causa nacional" - que teria impacto sobre a imagem do país no exterior e sobre o moral dos franceses nesse período de crise e alto desemprego.

Após a vitória dos "bleus", como é chamada a seleção francesa – considerada uma "façanha" pela imprensa do país – houve buzinaço nas ruas e centenas de pessoas foram comemorar na avenida Champs-Elysées.

O presidente François Hollande registra, segundo pesquisas, um índice de popularidade de apenas 20%, o mais baixo de um presidente francês em mais de 50 anos. Segundo especialistas, ele tenta tirar proveito político da classificação para a Copa ao falar, por meio de metáforas, que “o importante é o resultado” em campo.

Hollande, que assistiu ao jogo no estádio nacional da França, em Paris, se referiu ao fato de que a seleção francesa e, sobretudo seu técnico, Didier Deschamps, estavam sendo fortemente criticados pela imprensa e pela opinição pública. Mas, no final, disse que o time atingiu seu objetivo, apesar de muitos não acreditarem que isso seria possível.

As declarações do presidente foram interpretadas como um paralelo à sua própria situação.

Deschamps hoje, para a imprensa francesa, aparece como o salvador da pátria. "Um treinador é importante", disse Hollande após o jogo ao elogiar o técnico francês.

"O presidente descreveu a situação que ele vive politicamente e quis dizer que é preciso ter confiança em relação aos resultados de seu governo", disse à BBC Brasil Vincent Chaudel, especialista em esporte da consultoria Kurt Salomon.

Chaudel diz acreditar que Hollande poderá até ganhar dois ou três pontos nas pesquisas de opinião após a classificação da seleção francesa para a Copa do Mundo.

"Os franceses são em geral pessimistas, como indicam pesquisas. Quando o moral está melhor, a tendência é de aumento do consumo e de retomada da economia", diz Chaudel, dizendo no entanto que é preciso relativizar porque se trata, até o momento, apenas de um jogo classificatório.

“Hollande tenta seguir os passos do ex-presidente Jacques Chirac, que começou a subir nas pesquisas de opinição após a vitória da França na Copa de 98”, afirma Bruno Cautrès, pesquisador do Centro de Pesquisas Políticas (Cevipof) da Universidade de Ciências Políticas de Paris.

Chirac chegou a ganhar 15 pontos nas pesquisas de opinião após a vitória da França na Copa do Mundo de 98, realizada no país.

"Hollande tem a imagem de alguém que está escorregando no gelo. Ele tenta, com essa estratégia, mostrar que retomou as rédeas", diz Cautrès.

Impacto momentâneo

Os especialistas ouvidos pela BBC Brasil afirmam que o possível impacto positivo da classificação da França no moral dos franceses deverá, no entanto, ser limitado e de curta duração.

"Os franceses poderão deixar um pouco os problemas de lado após esta vitória. É um momento de união nacional. Mas um jogo não vai mudar as coisas e fazer com que as dificuldades se evaporem. Os franceses sabem separar as coisas", disse à BBC Brasil Frédéric Dabi, diretor de opinião pública do instituto de pesquisas Ifop.

"Se a França tivesse sido eliminada da Copa, isso teria criado mais pessimismo e ampliado o sentimento de dificuldades e de que o país não vai bem", diz Coutrès, do Cevipof.

"A classificação da seleção francesa pode ter um pequeno efeito positivo, temporário, até as próximas notícias sobre o crescimento do desemprego e fechamento de fábricas ou a entrada em vigor do novo aumento do imposto sobre produtos e serviços", afirma o cientista político.

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