Suspeitos de manter escravas em Londres eram líderes de grupo maoísta

Local onde vivia o casal em Londres (PA)
Image caption Residência de onde as mulheres foram resgatadas, em Brixton, bairro no sul de Londres.

Informações obtidas pela BBC nesta segunda-feira revelaram que o homem e a mulher suspeitos de manter três mulheres como escravas por mais de 30 anos, em Londres, são Aravindan Balakrishnan, de 73 anos, e seus esposa, Chanda, de 67 anos.

Ambos eram adeptos do maoísmo (veja quadro abaixo) e nos anos 70 foram líderes do de um centro maoísta chamado Memorial de Mao Tsé-tung, no bairro de Brixton, no sul de Londres.

Na época, o local chegou a ser invadido pela polícia e cinco pessoas foram presas, incluindo o casal. Ambos teriam chegado à Inglaterra nos anos 60. Ele vindo da Índia e ela, da Tanzânia.

O casal foi preso – e depois solto sob fiança - na quinta-feira, cerca de um mês após três mulheres terem sido resgatadas na residência deles, também em Brixton.

Uma malaia de 69 anos, uma irlandesa de 57 anos e uma britânica de 30 anos foram resgatadas pela organização Freedom (liberdade). Elas entraram em contato com a ONG após verem uma reportagem na televisão afirmando que a instituição ajudava mulheres casadas à força.

Abusos

Autoridades disseram que as mulheres estão profundamente traumatizadas pelo tempo que passaram com o casal sob o que chamaram de "condições horrorosas e abuso físico e mental", mas afirmaram que as três estão se recuperando bem.

Elas viviam juntas como um coletivo após duas das mulheres terem conhecido o homem por causa de uma "ideologia política compartilhada".

Segunda a polícia, a mulher de 30 anos – que teria passado toda sua vida em cativeiro – tem certificado de nascimento, mas nenhum outro documento. Ela teria escrito mais de 200 cartas de amor e poemas a um vizinho, num período de oito anos, segundo o jornal Daily Mail.

Em uma das cartas, ela dizia se sentir como "uma mosca presa em uma teia de aranha" e descrevia seu "tormento indescritível". Várias fontes afirmaram que outra mulher – que seria idosa e cadeirante – também ficava na casa, mas ainda não se sabe se ela morava lá. O casal solto sob fiança e deve se reapresentar à corte britânica em janeiro.

A polícia de Londres não confirmou seus nomes, mas informou que há 13 imóveis em Londres ligados aos nomes dos dois. "Ainda é muito cedo para fornecer detalhes de como essas mulheres chegaram a essa casa", disse um porta-voz do grupo de autoridades que investiga o caso. "É um caso extremamente complexo, que envolve várias pessoas e ações de décadas atrás."

Rituais

Registros do Partido Comunista da Inglaterra mostram que Balakrishnan foi suspenso da organização em 1974. Ele criou então um grupo maoísta próprio, com sede em Brixton, em um prédio usado como livraria e centro político.

O professor Dennis Tourish, da Universidade de Londres, explicou que seguidores do maoísmo muitas vezes comprometem suas vidas em nome de suas crenças. "Eles desenvolvem vários rituais e viver em comunidade é um deles."

"As pessoas envolvidas muitas vezes doam todos os seus bens, seu tempo, seu dinheiro e, de certo maneira, suas almas, para apoiar os objetivos do grupo."

Segundo o psicólogo criminal David Holmes, os detalhes da história sugerem que era uma espécie de culto político ou de uma comunidade forçada, que prendia as mulheres em uma "espécie de gaiola psicológica".

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