Sem informações, consumidores priorizam preço e gosto ao comprar pescado

Vermelho ou cioba à venda em São Paulo (crédito: Rafael Gomez/BBC Brasil)
Image caption Acredita-se que a cioba, ou vermelho, esteja desaparecendo da costa brasileira

Em uma tarde chuvosa de sexta-feira, a colombiana Maria Fernanda Lopes, radicada no Brasil há 25 anos, cumpre o ritual que repete pelo menos duas vezes por semana: comprar peixe fresco para o seu restaurante e para consumo próprio.

Apesar de adorar pratos com peixe e consumir a carne toda semana, ela mostrou grande surpresa quando, abordada pela reportagem da BBC Brasil, ficou sabendo que algumas espécies de peixe vendidas na peixaria que frequenta, na zona oeste de São Paulo, estão ficando escassas na costa brasileira.

Uma delas é a cioba ou vermelho. Segundo o Guia de Consumo Responsável de pescado, editado em 2009, a espécie corre sério risco de extinção e deveria ser cortada do cardápio dos brasileiros, pelo menos até voltar a ser mais comum.

Após o pedido no balcão, o atendente da peixaria mostra a Maria Fernanda uma bela cioba de cerca de cinco quilos. Segundo o vendedor, havia chegado no mesmo dia do Maranhão.

"Não sabia que tinha peixes vendidos na peixaria que estavam sumindo", diz ela. "Eu acho que tendo uma informação clara, sem dúvida, é uma coisa que você começa a pensar duas vezes. Vou me informar mais".

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Sem informações

Outros consumidores que costumam comprar e consumir com frequência peixes, ouvidos pela reportagem, também se queixaram do mesmo problema: a falta de informações que permitam ter um consumo mais sustentável de pescado.

Mas mesmo os que dizem ao menos ter ouvido falar do problema admitem que não levam a informação em conta na hora de consumir o produto. Por outro lado, a predileção pessoal por certas espécies e o preço do pescado parecem ser os fatores-chave na hora da compra.

Informada sobre a escassez de algumas espécies, Dafne Dias, que trabalha como estilista e chefe de cozinha, disse que mesmo assim não mudará seus hábitos de consumo, que incluem comprar mais ou menos dois quilos de pescado por semana.

Image caption Dafne Dias acredita que a maior peixe à venda foi criado para o consumo

"Não, porque, não sei, acho que os peixes que a gente consome são peixes que são criados para o consumo, não acho que são peixes que estão sumindo", diz ela.

Tal crença não é inteiramente verdadeira. A maior parte do pescado marinho capturado no país (38,7%, em 2011) não é "criado" para o consumo, mas provêm da pesca extrativa. Já em relação a espécies de água doce, como a truta, a aquicultura já é mais comum, chegando a 38% dos capturados em 2011.

Para Dafne, o preço do peixe sim é um fator que poderia fazer ela mudar seus hábitos.

"(O sumiço de alguns peixes) influencia (o consumo) se isso influenciar no preço, a gente acaba comprando sempre o que está com preço bom. Então vai influenciar, mas só por isso."

Certificação e governo

Cláudia Kashiwakura, que trabalha como gerente técnica e faz até cinco refeições com peixe por semana, diz que o alto preço de algumas espécies e o fato delas estarem difícil de encontrar já a faziam pensar que certos peixes estavam ficando mais raros.

"O que mais falta é divulgação da informação. Outra boa iniciativa é ter selos de garantia de procedência, o que garante que a empresa respeita os limites para proteger as espécies."

Como outros entrevistados, Cláudia diz que o governo deveria assumir um papel importante na conscientização dos consumidores.

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"Na minha opinião todos tem uma parcela de culpa, mas considerando o volume de impostos que pagamos, inclusive com a criação do Ministério de Pesca, o maior responsável é o governo", opina.

Para o aposentado Aventino Alves, que come peixe de uma a duas vezes por semana, a culpa pelo consumo não sustentável de peixe é "em princípio, do consumidor".

"Mas o governo poderia realizar campanhas de orientação, indicando quais espécies deveriam ter o seu consumo reduzido ou substituído por espécies criadas em fazendas".

Procurado pela reportagem para responder às alegações, o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) insistiu que zela para impedir que peixes ameaçados sequer cheguem às peixarias.

"Peixes que se encontram em perigo de extinção, como é o caso do mero, são protegidos por lei", disse a assessoria do MPA por meio de uma nota.

"Mesmo quando os estoques pesqueiros de determinadas espécies não são suficientemente conhecidos, tanto o MPA quanto o MMA (Ministério do Meio Ambiente) agem com cautela. O Governo Federal prefere impedir a captura até que haja respaldo acadêmico."

Em relação à conscientização dos consumidores, o MPA diz que já participou de campanhas nesse sentido, incluindo uma em 2008 (quando o Ministério ainda era uma secretaria) para estimular o consumo responsável da lagosta.

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