O calor para os europeus e Messi para o Brasil, os grandes fantasmas da Copa

Image caption A qualidade do adversário, e os locais e horários dos jogos são os principais inimigos dos times europeus

É tudo muito diferente quando está acontecendo diante dos seus olhos. Eu sempre acompanhei os sorteios da Copa do Mundo pela televisão, com papel e caneta na mão, anotando cuidadosamente todas as possibilidades.

Mas foi difícil fazer isso de dentro da arena na Costa do Sauípe. Estava escuro, e difícil de enxergar o papel na minha frente. E depois não foi fácil sentar e assimilar as informações, haviam muitas coisas acontecendo, entrevistas a serem feitas e reações a serem registradas.

O tamanho do evento é notável, assim como a quantidade de adrenalina produzida. Nesse contexto, o comentário do Ronaldo fez sentido, que fazer 15 gols em uma Copa do Mundo foi muito fácil comparado à tarefa de organizar uma competição.

E nos últimos dias ficou mais claro o nível de preocupação que existe dentro da Fifa em relação à situação no Brasil – não tanto aos atrasos na construção de estádios, mas em relação ao pano de fundo, os protestos políticos.

Apelo

O Secretário Geral da Fifa, Jerome Valcke, chegou a revelar – para o jornalista brasileiro Andre Kfouri – que houve um momento, no auge das manifestações durante a Copa das Confederações, que a ideia de suspender a competição foi considerada. Uma decisão que teria colocado a Copa do Mundo em questão.

Essas preocupações permanecem. Ao contrario do que parecia, a Costa do Sauípe comprovou ser um local apropriado para o sorteio – apesar da escolha ter sido feita antes dos protestos, e provavelmente baseada no grande desejo de promover um destino turístico. Mas o fato de estar a 80 km de Salvador, teve suas vantagens.

O local é um paraíso para se passar férias, longe da realidade volátil. Quando me perguntaram no rádio sobre a reação local à morte de Nelson Mandela, eu não tinha nada a dizer. Sua morte foi anunciada enquanto eu estava em um voo tarde da noite para Salvador, e depois disso não tive a oportunidade de falar com ninguém que estivesse fora da bolha do sorteio da Copa do Mundo.

E no coração dessa bolha ainda há a preocupação óbvia sobre como a realidade poderá colidir com a Copa do Mundo. Ao falar na abertura do evento, o presidente da Fifa, Sepp Blatter, fez um apelo ao povo brasileiro para "se unir e se juntar a todos" – ou, que deixe rancores políticos de lado durante o campeonato.

Será fascinante ver se seus desejos serão realizados. Muitos estão dizendo que, na ausência de progressos concretos em infraestrutura, o movimento iniciado com as manifestações é o maior legado da Copa do Mundo de 2014 no Brasil.

Final de gigantes

Enquanto isso, o sorteio provavelmente aumentou as possibilidades de um legado esportivo na memória nacional. Uruguai, Itália, Inglaterra, Alemanha, Argentina e França já ganharam Copas do Mundo em casa. As chances do Brasil em levantar o troféu no dia 13 de julho são agora ainda maiores em comparação a antes do sorteio. E isso não é apenas – ou primeiramente – porque os homens de Luiz Felipe Scolari não podem reclamar de seus oponentes no Grupo A.

A probabilidade sempre foi que a Copa do Mundo de 2014 seria mais difícil para os times europeus – e esse grau de dificuldade com certeza aumentou com a forma como as bolinhas saíram dos potes. Dois fatores foram de importância nesse sorteio: a qualidade do adversário, é claro, e também os locais e horários dos jogos. Nos dois sentidos, os principais times europeus se saíram muito mal.

A Alemanha, por exemplo, tem uma tarefa estranha jogando contra Portugal, Gana e Estados Unidos. Mas ainda mais estranho é o fato de que todos os três jogos vão acontecer debaixo do sol quente do nordeste do país – em Salvador, Fortaleza e Recife - com o primeiro e o último jogo começando às 13h.

A Itália tem uma história triste semelhante. Junto com a Inglaterra, Costa Rica e Uruguai, eles são parte do único grupo composto por três campeões mundiais. E seu itinerário os leva de Manaus, para Recife e depois para Natal, com os dois últimos jogos começando às 13h.

A Espanha também não tem uma tarefa fácil, fazendo parte de um grupo em que precisa enfrentar a Holanda e o Chile, podendo se encontrar em perigo antes do jogo final do grupo contra a Austrália. E se a Espanha for para a segunda fase, existe a possibilidade de um confronto com o Brasil.

Enquanto isso a Argentina foi favorecida por um sorteio que colocou o país em uma posição relativamente fácil, contra a Bósnia-Hezergovinia, Irã e Nigéria, e também garante que nenhum de seus jogos irá acontecer no calor enfraquecedor do nordeste, mesmo que eles cheguem até a final.

Lionel Messi e a Argentina poderão vir a ser a maior ameaça para os sonhos de Scolari e companhia.

Com a Copa do Mundo retornando para solo sul-americano pela primeira vez em 36 anos, o sorteio de sábado aumentou a expectativa excitante de uma final entre os dois gigantes do futebol do continente.

Tim Vickery é correspondente de futebol da BBC na América do Sul

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