Ronald Biggs, o ladrão que escapou da Justiça por 35 anos

Biggs durante o Carnaval no Rio de Janeiro (Arquivo/PA)
Image caption Biggs fugiu para o Brasil em 1970 e teve um filho no país, Mike

Por mais de 35 anos, Ronald Biggs conseguiu driblar as tentativas de trazê-lo de volta à Grã-Bretanha para que cumprisse pena por sua participação no famoso assalto a um trem pagador em 1963.

Biggs se transformou no membro mais conhecido do grupo de assaltantes que, em 8 de agosto de 1963, roubou 2,6 milhões de libras (quase R$ 10 milhões) — mais de 40 milhões de libras (mais de R$ 151 milhões) em valores atualizados — do trem, que ia de Glasgow, na Escócia, para Londres.

Apesar da fama, Biggs nunca foi mais do que um criminoso de poucas façanhas. Mesmo no assalto ao trem pagador o seu papel foi secundário.

Ronald Arthur Biggs nasceu em Stockwell, sul de Londres, no dia 8 de agosto de 1929. No final da adolescência, depois de passar grande parte da Segunda Guerra Mundial na Cornualha, começou a se envolver em pequenos crimes.

Em 1947, Biggs se apresentou como voluntário da Força Aérea Britânica, a RAF, mas acabou preso e dispensado com desonra depois de apenas dois anos, ao ser flagrado roubando uma farmácia.

Um mês depois de sair da prisão por este crime, ele foi preso de novo por roubar um carro e, aos 21 anos, participou de um assalto malsucedido a uma casa de apostas em Londres.

Aos 27 anos, ele se casou com Charmian Powell, de 17 anos. Foi nesta época, quando trabalhava como carpinteiro, que Biggs se aproximou de Bruce Reynolds, que tinha conhecido na prisão, para pedir um empréstimo.

Ao invés de emprestar o dinheiro, Reynolds o convidou para participar do assalto a um trem pagador.

"Eu estava casado e vivendo honestamente por três anos, e então veio este convite para participar no assalto ao trem. Pedi 24 horas para pensar. Acho que eu só precisava de 20 segundos", disse Biggs mais tarde.

Assalto e fuga

Image caption Antes de fugir para o Brasil, Biggs passou quatro anos na Austrália

O grupo, formado por 17 pessoas, parou o trem em Buckinghamshire, no sul da Inglaterra, durante a noite, usando sinais falsos. A contribuição de Biggs foi recrutar um condutor de trens aposentado para levar o trem a um local onde os assaltantes colocariam o dinheiro em caminhões, para facilitar a fuga.

Mas, o condutor aposentado não conseguia dominar os controles do trem pagador e o condutor real, Jack Mills, foi obrigado a levar o trem até o ponto de encontro depois de ser golpeado na cabeça com uma barra de ferro. Mills nunca se recuperou totalmente e morreu de leucemia sete anos depois do assalto.

As digitais de Biggs foram encontradas em um frasco de ketchup no esconderijo do grupo.

Três semanas depois, ele foi preso com outros 11 membros do grupo.

Em abril de 1964, Biggs foi setenciado a 30 anos de prisão, mas, 14 meses depois, ele fugiu da prisão de Wandsworth com uma escada de cordas, feita por ele mesmo.

O assaltante então fugiu para Paris, onde gastou 40 mil libras das 143 mil a que tinha direito depois do assalto. O dinheiro foi para uma cirurgia plástica e para a compra de documentos falsos.

Biggs foi então para a Austrália.

A mulher e os três filhos viveram com ele no país durante quatro anos. Quando a Interpol começou a interrogar as autoridades locais sobre a presença de Biggs, ele fugiu para o Brasil, em 1970, usando um passaporte falso.

'Celebridade' e mais um filho

Em fevereiro de 1974, Jack Slipper, um agente da Scotland Yard que tinha passado anos perseguindo o assaltante em vários cantos do globo, anunciou que tinha conseguido prende-lo no Rio de Janeiro.

Image caption Raimunda (acima) teve um um filho com Biggs e se casou com ele na prisão

Mas Biggs conseguiu escapar da extradição quando se descobriu que sua namorada de 19 anos, uma ex-stripper chamada Raimunda Rothen, estava grávida dele — e pelo fato de ele estar se divorciando da primeira esposa.

O filho de Biggs com Raimunda, Mike Biggs, foi integrante do grupo infantil Turma do Balão Mágico - que vendeu cerca de 10 milhões de discos e teve um programa de TV no Brasil nos anos 1980 - e atualmente vive na Inglaterra, onde mantinha contato com o pai.

Em 1981, um grupo de ex-soldados britânicos tentou capturá-lo novamente, sequestrando Biggs e levando-o para Barbados, onde ele foi entregue às autoridades.

Mas, novamente Biggs foi libertado graças a uma brecha na lei e voltou ao Brasil.

No país, Biggs explorava seu status questionável de celebridade aparecendo em propagandas na televisão e escrevendo uma autobiografia.

Ele vivia no bairro boêmio de Santa Teresa, onde recebia visitas de admiradores e famosos. Ele até chegou a participar de um filme com a banda Sex Pistols e foi procurado pelos Rolling Stones, em sua primeira visita ao Rio.

Os tablóides britânicos também viviam divulgando histórias de que Biggs estava voltando para a Grã-Bretanha.

Até que, em maio 2001, o The Sun finalmente levou Biggs de volta ao país. Já doente, ele foi preso ao chegar.

Em coluna no jornal O Estado de São Paulo, o escritor Mario Prata refletiu sobre o fato de que o britânico chorou ao deixar o Brasil: "Acho que ele estava chorando não só por deixar a neta e o filho, mas por deixar este País que foi maravilhoso com ele. Como bandido, aqui ele era tratado como um senador impune e impoluto".

Prisão na Inglaterra

Image caption Biggs foi visto em público pela última vez no funeral de Bruce Reynolds

Na prisão de Belmarsh ele se casou com Raimunda Rothen, mãe de Mike. O filho já fazia campanha para a libertação de Biggs.

Em 2007, ele foi transferido da prisão de Belmarsh para a de Norwich, especialmente projetada para detentos idosos. Ele já tinha sofrido derrames e um ataque cardíaco que deixaram sequelas.

Em julho de 2009, apesar da intensa campanha de Mike, Biggs teve negado o seu pedido de liberdade condicional.

Segundo o Ministro britânico da Justiça na época, Jack Straw, Biggs não tinha demonstrado arrependimento pelos seus atos e "flertou escandalosamente com a mídia" enquanto ainda era um fugitivo.

Mas, no dia 6 de agosto, Straw mudou de ideia e resolveu libertar Biggs, citando evidências médicas de que a saúde do britânico tinha piorado e de que ele não tinha chances de recuperação.

Apesar de tudo, Biggs nunca se arrependeu do assalto ao trem pagador — na verdade, pareceu sentir orgulho por sua participação no crime.

"Meu pobre e velho pai costumava me dizer 'sei que você vai se dar bem algum dia'. Sabe, acho que me dei bem de uma forma curiosa. Me tornei infame", disse.

Sua família planeja despejar suas cinzas na Grã-Bretanha e no Brasil.

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